O amante estava gravado no telemóvel com o nome Lisete. Foi assim que ele percebeu — não de uma vez, mas aos poucos, porque demorava ela tanto tempo no banho, porque saía aos sábados para almoçar com a Lisete e regressava ao fim da tarde, às vezes pedindo-lhe que a fosse buscar a um sítio qualquer, sempre com uma explicação diferente: o carro avariado, um compromisso inesperado, um atraso que não se previa.

A partir desse dia, passou a perguntar-lhe, com uma calma cansada, se ia almoçar com a Lisete. Ela anuía, sem hesitar. E ele ficava a vê-la sair, preso a uma vida de faz de conta, mantida por convenção, por inércia, por medo — medo de perder a casa, de desorganizar o pouco que ainda restava de ordem.

Viviam juntos como quem cumpre uma formalidade. Ela passava longos períodos ao telefone, fechada na casa de banho, num murmúrio baixo que ele fingia não ouvir. Do outro lado, o amante descrevia-lhe o que fariam, com uma minúcia que a fazia sorrir diante do espelho, enquanto ajustava o cabelo ou passava creme nas mãos.

Ele, por sua vez, refugiava-se no pequeno escritório. Trocava mensagens com uma ruiva da Universidade Sénior, onde dava aulas de francês para iniciantes. Tinha quarenta anos, dentes muito brancos, um decote generoso e uma simpatia disponível que o desarmava. Havia nela uma entrega sem reservas.

Aceitava os seus desejos, não fazia perguntas, não se importava com a diferença de idades. Esperava. Preparava o quarto com uma espécie de ritual — objectos dispostos na mesa de cabeceira, uma luz suave — enquanto ele aguardava que o comprimido começasse a fazer efeito. Depois, o silêncio. E mais tarde, a conversa.

Falava-lhe do filho a estudar no estrangeiro, da casa hipotecada, dos pagamentos em atraso. Pedia ajuda com uma naturalidade ingénua: um empréstimo, um favor, alguém que servisse de fiador. Chegava a brincar com hipóteses improváveis — um assalto, por exemplo — descrevendo com detalhe o funcionamento dos bancos, os tempos de abertura dos cofres, a rotina das caixas.

Ele ria-se. Abraçava-a, dizia que não seria preciso tanto. Mas a ideia ficava. Instalava-se devagar, como uma infiltração. Chamava-se Libório.

Numa tarde abriu a porta da arrecadação e foi como se o passado lhe caísse em cima: pó, caixas, chapéus, brinquedos, papéis antigos. Demorou-se ali mais tempo do que o necessário. Tinha esse hábito — perder-se nos objectos, como se cada um contivesse uma versão antiga de si. Os soldados de chumbo, os bilhetes da ópera, os galhardetes do clube de xadrez, as taças de futebol de salão. E, por instantes, a luz, o mar, uma ideia de futuro que então parecia inevitável.

Procurou ferramentas. Objectos que pudessem parecer outra coisa. Dos velhos ninguém desconfia, lembrava-se ele. A ideia do assalto ganhou forma. Imaginava o gesto: entrar, mostrar o que parecia uma arma, pedir o dinheiro, sair com calma. Simples. Quase banal. Durante dias alimentou esse pensamento, mas a realidade impunha-se: as dores, a mão esquerda ainda afectada pelo AVC de há dez anos, o cansaço que lhe subia pelas pernas. Considerou alternativas. Cartões de crédito, por exemplo. Vários. Até que as instituições cruzassem informação, teria algum tempo. E, na verdade, nem foi preciso tanto.

Tornou-se fiador num empréstimo dela. Levantou dinheiro, fez transferências, aderiu a novos cartões que lhe chegavam pelo correio, como convites discretos a continuar. Ela agradecia com gestos, com atenção redobrada, com promessas que não precisavam de ser cumpridas. Libório aceitava tudo com uma espécie de vaidade tardia. Sentia-se, de algum modo, superior. Até ao dia em que decidiu agir.

Usou a barra de trancar a direção do carro que tinha o formato de um cano com mira. Escolheu uma agência bancária perto da Universidade Sénior. Observou o movimento, estudou as entradas e saídas, repetiu mentalmente o plano.

Numa manhã saiu mais cedo de casa. Deu uma volta ao quarteirão, estacionou o carro numa esquina, deixou-o destrancado. Entrou no banco com um boné enterrado na cabeça e óculos escuros. Parou a meio da sala. O funcionário chamou-o, com educação.

— O senhor, faça favor.

Libório aproximou-se, passos curtos, hesitantes. Tentou falar baixo, quase a sussurrar:

— Isto é um assalto.

— Desculpe? — respondeu o funcionário. — Pode repetir?

As mãos começaram a tremer. Sentiu a boca seca, a respiração curta. Repetiu, já sem convicção:

— É um assalto.

Mas antes de qualquer reacção, voltou as costas e saiu. O coração acelerado, a vista turva, uma tontura que lhe subia pelo corpo. Empurrou a porta com um lenço de papel, como se isso ainda pudesse protegê-lo de alguma coisa.

Na rua tentou correr. O passo saiu-lhe irregular, quase ridículo. Uma vontade súbita de urinar agravava tudo. Chegou ao carro e parou. Alguém tinha estacionado em segunda fila, bloqueando a saída. Ficou ali alguns segundos, a olhar, sem saber o que fazer. Acabou por chamar um táxi. Sentou-se no banco de trás, sentindo o desconforto húmido que lhe descia pela perna. Pediu para o levarem a casa. O carro ficaria para depois. Nada daquilo tinha acontecido, repetia para si.

Durante semanas continuou. Mais levantamentos. Mais cartões. Mais promessas. Até ao dia em que dois cartões ficaram retidos numa máquina e, pouco depois, chegou a notificação: penhora de setenta e quatro mil euros. Leu o valor várias vezes. Não podia ser. Fizera contas por alto — trinta mil, talvez — sem considerar juros, taxas, encargos. Agora diziam-lhe que iriam penhorar um terço da pensão. E, se não regularizasse a situação, poderiam avançar para a casa.

Tentou ligar-lhe.

— Estou? Querida… precisamos de falar.

Falou-lhe do cheque devolvido, do banco, da notificação. Pediu-lhe que pensasse, que visse o que podia devolver, pelo menos uma parte. Combinaram encontrar-se no dia seguinte, numa pastelaria em frente à Universidade. Desligou. Foi até ao escritório e deixou-se cair na cadeira. Ficou ali, imóvel, a tentar organizar o que já não tinha forma. Talvez fosse um engano. Um atraso. Uma confusão qualquer. Mas a ansiedade instalava-se, persistente. E a mulher ainda não tinha chegado. Provavelmente estava com a Lisete.