Era um espelho como qualquer outro. Retangular, com uma moldura de madeira antiga, envernizada por um tempo que nem mesmo ele sabia contar. Estava pendurado na parede do pequeno apartamento, no centro da cidade, onde Rita vivia sozinha desde que se esquecera de como era viver acompanhada.
No início, quando se mudou, olhava-se no espelho todos os dias. Ajustava os cabelos, verificava a roupa, estudava o rosto como se fosse um mapa em busca de um destino.
Todos-os-dias. Passava o mesmo batom vermelho nos lábios ressecados pelo frio, fazia o coque solto no cabelo, combinando a praticidade com a sexualidade de um descuido que só poucos podem ter. Com sol ou sem sol, mascarava o rosto de protetor, não era descuidada nesse ponto. Rita, apesar de passar grande parte de suas horas da vida gastas se admirando, ou se torturando no espelho, não gostava de se olhar. Ela se olhava em busca de afirmar o próprio descontentamento, parecia.
Mas hoje não, hoje não foi um dia qualquer porque hoje foi o dia que Rita, ao acordar e fazer o ritual matinal, percebeu que o espelho não refletia nada.
Apenas um vazio silencioso.
Não há estrias em sua bunda, nem pelos espetados entre as sobrancelhas, ali, nada há.
Piscou os olhos. Mexeu-se de um lado para o outro. Encostou o nariz no vidro frio. Nada. Nenhum traço de sua imagem estava ali. O quarto, sim. A cama desarrumada, a poltrona com o casaco jogado por cima, as sombras das cortinas. Mas ela? Evaporara.
Tentou rir, mas o som morreu antes de tomar forma. Levantou as mãos e as passou pelo rosto, sentindo a pele sob os dedos. Será que estava sonhando? Será que havia simplesmente deixado de existir para o mundo? O pensamento a assombrou mais do que a ausência de reflexo. Se ninguém pudesse vê-la, ela ainda estava ali? Ainda era Rita?
Rita? Que estranho é chamar o próprio nome. Uma estranheza que paira na própria existência e se funde nas tantas possibilidades de ser - o que nunca será.
Lembrou-se de um sonho recorrente da infância, onde corria por um campo sem fim, tentando chamar por alguém, mas sua voz nunca saía. Agora, era como se aquele pesadelo (?) tivesse finalmente se tornado real.
Saiu do quarto com pressa, tropeçando nos próprios pés. Foi ao banheiro, ligou a luz forte sobre a pia. O espelho acima da torneira tampouco a refletia. O desespero sussurrou no seu ouvido. Lavou o rosto, beliscou os braços, correu para a sala. No vidro da janela, nenhum sinal comprovando sua matéria.
Aos poucos, a angústia deu lugar a uma compreensão silenciosa. Talvez sempre tivesse sido assim. Talvez já fazia tempo que o mundo parara de reconhecê-la. O espelho apenas fora o primeiro a revelar aquilo que ela já suspeitava, mas teimava em ignorar.
Saiu para a rua em busca de confirmação. Caminhou pela calçada sem que ninguém lhe dirigisse um olhar. Passou diante das vitrines das lojas, todas vazias de si. Na cafeteria onde sempre pedia o mesmo café forte, a atendente olhou através dela como se fosse um pedaço de ar.
—Um café preto, por favor?— perguntou, hesitante. A mulher atrás do balcão não respondeu.
Sentou-se em um banco da praça e ficou observando as pessoas passarem. As mãos nos bolsos, os casacos fechados, os olhos ocupados - não com ela. O mundo girava sem notar sua presença. Uma ideia aterradora cruzou sua mente: e se ela nunca tivesse existido? E se fosse apenas um eco de algo que nunca chegou a ser?
O céu começava a escurecer quando Rita decidiu voltar para casa. Subiu as escadas lentamente, como se cada degrau a puxasse para baixo, para o fundo de si mesma. As escadas caracóis como seus cabelos, escura como seus olhos, como nunca antes tivera notado? Se parecia tanto com coisas. Só coisas. Avulsas no mundo.
Quando abriu a porta do apartamento, parou por um momento, encarando o silêncio do lugar. Ser invisível era aterrador, mas também libertador. Pela primeira vez, percebeu que podia ser qualquer coisa. Ninguém esperava nada dela. Não havia julgamentos, exigências, expectativas, reflexos que contassem seus segredos. Apenas o nada absoluto.
O apartamento parecia ainda mais desabitado, como se o tempo tivesse desistido de ocupar aquele espaço. Sentou-se diante do espelho do quarto, encarando o nada onde sua imagem deveria estar.
E foi então que percebeu. A ausência refletida no vidro era, na verdade, uma presença. A invisibilidade era um convite para o renascimento.
Libertar-se é perigoso, muitas vezes, solitário, mas sempre precioso. É o que nos traz de volta à vida. Rita deitou-se na cama e dormiu sem peso. Quando acordasse, talvez fosse uma outra. Ou, quem sabe, ela mesma.
Na manhã seguinte, abriu os olhos e sentiu uma leveza estranha, como se tivesse dormido fora do tempo. Levantou-se devagar e, sem pensar, caminhou até o espelho. Encostou os dedos na moldura de madeira gasta e respirou fundo antes de encarar o vidro.
E lá estava ela.
Não exatamente como antes. Algo havia mudado. O rosto refletido parecia mais nítido, mais seu. Não era uma confirmação do mundo, mas sim uma aceitação própria. Sorriu devagar, testando a nova realidade. O espelho, finalmente, a reconhecera. Ou, talvez, fosse ela quem, pela primeira vez, realmente se enxergou.
Quando ela piscou aliviada pela primeira vez, escondeu a lágrima que não se tardava em chegar. Ela viu que não estava mais lá.
Rita perdeu, novamente, o seu reflexo.
Decidiu, então, fazer o próprio café.















