Tainá, Maiara e Maraýsa.
Comentei com as três garçonetes, individualmente, dando dicas de melhor funcionamento daquele restaurante.
Elas aceitaram, mas há dois anos é a mesma ladainha dos meus pedidos dentro das dicas: diminuir o volume do som, músicas ruins, e elas não atendem ao meu pedido.
Não podem desligar as caixas enormes vinculadas ao Bluetooth dos celulares dos fregueses trépidos, do lado de fora, bebendo em pé na calçada de uma pista supermovimentada – tem mais moto que gente. Outros estacionam com o fundo do carro para as mesas de fora do restaurante e, no máximo do volume, agridem nossos ouvidos com músicas ruins.
Dessas que os compositores se acham, hoje, ao darem entrevista por conta do “sucesso”, afirmam que a inspiração veio após fumar um baseado com haxixe: “deu um batidão e lembrei da bunda da menina”...
Fidelizei o restaurante Amarelinho quando vou às compras na feira.
Desde legumes, verduras, frutas e peixes; de vez em quando carne do sol e camarão seco.
É frequência semanal, às segundas-feiras.
Adoro esse tipo de rotina e fidelizar os mesmos locais.
Numa dessas idas, lembrei que há sete anos tive um despropósito por conta do ego, ganância, luxúria, ignorância e babaquice de um gerente de padaria na Barra da Tijuca.
Frequentei essa padaria na rua Gildásio Amado por mais de 15 anos, comprando pão e mortadela Ceratti, fatias finas, com largura de aproximadamente 280 mm, com pistache e pimenta-do-reino, para o lanche da tarde e, às vezes, no almoço de fins de semana.
Nesse domingo, estava com a dúvida entre a padaria ou o restaurante que ia diariamente no horário de almoço de segunda a sexta-feira.
Tem um delicioso self-service e também à la carte.
Minha predileção do cardápio, muito variado, era o bacalhau à Mario Soares às quintas-feiras, até comida japonesa, que adorava saborear como entrada o hot camarão.
Após seis meses de uma viagem de Lisboa para África (interessante: não falamos de Portugal para a África), de volta ao Rio, em vez de ir para o restaurante Beco do Alemão, optei pela padaria.
Lá no Beco, era certo que eu ficaria no bar de espera e beberia algumas Heineken de 600 ml acompanhadas do tira-gosto: filé ao molho madeira com fartas porções de cogumelos cantarelo, portobello, champignon, hiratake, shimeji e shiitake.
E outras tantas porções de azeitonas pretas, queijo Minas, salaminho, com fios de azeite português extravirgem de acidez 0,3%, mais pastéis de camarão.
Essa prática contumaz aos domingos consumiria meu horário de almoço até 20h.
Optei pela padaria. Teria tempo para um cochilo à tarde e curtir uma peça de teatro à noite.
Ao entrar, vi Milene, a caixa, linda e educada demais para os padrões de atendente de padaria, que deu as boas-vindas e disse que estava cobrindo as férias de uma colega.
Quis saber por que eu havia me afastado mais tempo que o de costume.
E contou a boa nova da padaria, mostrando seu lado marqueteiro, avisando a promoção de nove tipos de sopas acompanhadas de variedades de pães por apenas R$ 19,90, e “repetição à vontade”, completou.
Quase vazio, o self-service mantinha gôndolas cheias de comidas frescas e apetitosas.
Me servi como entrada de camarões VG cozidos com casca, uma bela fatia de bacalhau e muito sushi; abri mão do salmão e me fartei de peixe branco.
Inicialmente, regados a uma taça de vinho tinto chileno Montañero, cabernet sauvignon, caipirinha, tulipas de chope, muito chope...
Algumas mesas à frente, uma atriz muito famosa sorvia sopas, tão linda quanto tímida, à espera de alguém.
Seu jeito acanhado curvava o corpo que mostrava em parte os seios lindos e róseos, qual aparição no seriado Safadinha, mas ordinária, baseado na obra do escritor não menos safado e tarado da rua Gustavo Sampaio, no Leme, Rio de Janeiro.
Nelson Rodrigues não era apenas um escritor famoso.
Suas tiras e flagrantes tinham um quê de protagonismo autoral, punheteiro de ideias fugidias ao ver pela fechadura da porta do banheiro do apartamento próximo à Ladeira Ari Barroso sua madrasta ou suas irmãs tomando banho...
A atriz era extremamente sensual, digna de papéis com muitas tonalidades, acima dos 50...
Não que minha refeição tivesse ficado fria, afinal era mais sushi; o chope também não esquentou, sorvia resvalando olhares àqueles seios tão perto e tão longe.
Bicos rijos que podiam riscar meus lábios tão ávidos naquela cena.
Chegaram seus amigos e familiares e cortaram a imagem que volvia a um sonho possível.
Olhavam ao redor como se dissessem: “eu sou parente da famosa atriz”.
De forma alguma vou citar o nome dela.
Pra quê?
Me envolver novamente em traumas, loucuras de uma mulher linda e gostosa que não aceitou ser tudo que um homem deseja numa ou algumas noites.
Tá, fiquei com ela, muitos orgasmos mútuos.
Transamos como animais, mas eu não suportei o antes, meio e pós-reclamações do diretor da colega que devia ser coadjuvante, atuação de uma fala só: – Oi...!
O melhor desse restaurante, na padaria, eram as opções para refeições, a área do café muito frequentada, onde ficava o caixa bem administrado por Milene, minha linda caixa e até confidente.
Foi ela quem me disse que a balconista Mara, aquela morena linda de olhos verdes, voltou pro Ceará para ter um filho, que as colegas cravaram ser meu...
Mara foi ao meu apartamento duas vezes; a primeira, mal consegui tirar a calcinha dela – apressada, não podia perder a condução daquele horário, 22h30.
Bebi mais chope que de costume.
Quem não enrolaria num local tendo aquela visão maravilhosa, seios que apontam o caminho da felicidade?
As entradas misturadas, sushi e bifes de filé na chapa e molho de pimenta com mostarda, mel, alface, aliche e folhas de rúcula saciaram minha sanfona abdominal, que é a única “coisa” que cresce na minha idade, e a sede.
Saí do restaurante já mais vazio que nunca. A atriz estava num canto em conversa reservada, sem deixar de me escanear.
Fui até uma das atendentes e pedi cinco tipos de sopa para viagem, ao que ela imediatamente acusou que o caldo verde, uma de minhas guloseimas prediletas, havia acabado, e me sugeriu a de batata-baroa com batata yacon e bacon, já fazendo a quentinha.
Ela conhecia o freguês, mesmo com a novidade do rodízio de sopas.
Saquei o cartão.
Nessa época, insistia em ter apenas um cartão, crédito e débito.
Pedi para Milene que acrescentasse um cafezinho de praxe, mais cinco pães, 200 gramas de presunto e outros 200 de muçarela, ao que ela, olhando pra mim, me corrigiu em voz alta para a pequena fila que se formava atrás:
“Duzentas de presunto e duzentas de muçarela?”
–Não, minha linda. Já conversamos sobre isso.
Respondi também em voz alta e em tom de brincadeira, crendo que ela estava provocando meu português, até então ilibado...
Resmungos na fila.
Ela continuou: duzentas de... e o valor é x, senhor.
Olhando firme nos meus olhos, recriminando a correção ao que ela comentara anteriormente falando errado para eu entender como brincadeira.
O valor estava alto, nada que não fosse meu costume diariamente.
E ela sorriu.
Dei o cartão.
Ela passou, digitei a senha, e deu tempo de ela me perguntar se a cidade de Toronto era fácil de arrumar emprego, ao que respondi, para susto dela, que o salário mínimo de lá era próximo de 8 mil reais.
–O quê? Cinco vezes mais do que ganho aqui?
O cartão foi rejeitado.
O gerente já havia se aproximado.
Ele nunca gostou de minha aproximação às meninas.
Muito ignorante, babava os ovos dos patrões portugueses aliados de traficantes e milicianos da região de Rio das Pedras, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Abri espaço e pedi para Milene que passasse o cartão novamente após atender as quatro pessoas que aguardavam na fila.
Ela piscou o olho e deu a deixa para eu ir embora, e resmungou: “amanhã, no almoço, você paga tudo”.
Imediatamente fiquei preocupado: vai que o gerente cria caso com ela?
–Não, Milene.
Passe o cartão novamente... digite minha senha.
Devo ter errado na hora de digitar.
Passou e deu xabu novamente...
Pedi para passar novamente, digitei e deu erro.
Fui para um canto e liguei para o banco.
E o retorno foi o de que havia tentado várias vezes, e já na segunda tentativa o cartão foi bloqueado pelo sistema no vácuo compliance.
“Podia ser roubo, cartão extraviado, erro por esquecimento da senha, blá blá blá blá blá blá...”
Iriam tentar liberar o cartão, e nada.
Olhei assustado pra ela, que me recriminou por experiência de mais de 10 anos como caixa.
–Podia vir amanhã sem esse moído! Agora vai ter que pegar o visto do gerente.
–Sério?
Ele estava sentado numa mesa com um senhor que eu não tinha visto nesse meu tempo de freguesia.
Era um sujeito de vestes simples, elegante e sério.
Interrompi a conversa, já naquela de humilhação sem necessidade.
–Meu caro, preciso do seu visto para pagar esta conta amanhã, antes ou na hora do almoço. Há 15 anos frequento o local e o banco travou meu cartão.
–Caralho! – gritou.
“Um sujeito na sua idade vem aplicar golpe de moleque da Zona Sul. Cartão sem crédito e vem com essa armação que o banco bloqueou o cartão?”
Comedidamente, acenei com a mão para ele abaixar a voz e atender ao meu pedido.
O que ele gritou novamente.
–Sabe quem vai pagar sua conta, seus chopes, dose de Old Parr, fatiado de peixe branco, filés? A tonta do caixa!
Olhei para a saída. A outra menina estava com o bule do meu café especial mexido com leite em pó e chantili... indiquei que podia servir o café.
Milene deu com a mão.
Deixei o gerente gritando e o “amigo” dele ao lado.
Depois soube que era um novo morador do prédio da rua de trás, que se informava sobre segurança na área e se poderia fazer um crédito para a filha e os netos almoçarem para ele pagar por mês.
Ela pegou a conta de minha mão, assinou embaixo do valor, digitou uma senha no caixa, a gaveta fechou e abriu.
–Pode ir embora. Amanhã ou quando o senhor quiser me pagar. Fique tranquilo e me perdoe pelo gerente. Ele não sabe que Deus aplaude o silêncio e reconhece pessoas boas.
Sentei em uma das cadeiras perto do balcão em frente para beber o café.
A atriz famosa voltou apressada e perguntou por uma bolsa pequena que continha a chave do apartamento e 5 mil dólares enrolados numa papeleta, envolvidos em borracha de dinheiro.
Milene chamou a menina que limpava o salão constantemente, que afirmou não ter nada no local onde ela ficou com a família.
A faxineira apontou com o queixo. Eu percebi os olhares das funcionárias para o gerente.
A atriz chorou... era dinheiro que havia cambiado naquele dia numa casa de câmbio do Shopping Barra para seu filho ir à Disney com a irmã, filha de outro pai.
A padaria, então, nesse instante, mais parecia um cenário de novela mexicana.
O gerente permaneceu no lugar, mesma mesa próxima de onde ficou a atriz.
Quieto.
Falei para ela chamar a polícia e avisei que eram as mesmas pessoas quando da presença dela.
Milene pegou o celular e discou 190.
A atriz caminhou para o restaurante pianinho, como se andasse sobre casca de ovos – sem barulho.
Milene desligou o celular e a menina da faxina deu um sorriso maroto.
O gerente estava com o dinheiro nas mãos; cochichou para a atriz que a faxineira havia achado, “porque ele zelava por bons costumes”.
Ela agradeceu com um abraço cênico no gerente, que permaneceu sentado e de costas para a plateia, em silêncio, assistindo sua falsa performance.
Soube que encontraram esse gerente todo estrupiado por golpes de taco de golfe; mesmo motivo: achar carteira dos fregueses e fingir que era dele (?).
Dizem que é o mesmo taco que afugentou o ex-governador do Rio, chamado Garotinho.
O silêncio honra e aplaude meus álibis!















