Goiânia sempre foi uma cidade linda, reorganizada com perfil urbano moderno já na década de 1970.
Havia uma preocupação de fazer-se um corredor cruzando a cidade, copiando o que o então prefeito de Curitiba, Paraná, Jaime Lerner havia feito na capital sulista.
O arquiteto e urbanista Jaime Lerner havia inovado naquela cidade, criando o sistema de transporte coletivo de Curitiba, com BRT (Bus Rapid Transit) e corredores exclusivos de estações de tubo.
O prefeito de Goiânia fez algo parecido.
Funcionário da Gravadora Embalo, que ficava na Rua 4, percorria todo o centro de Goiânia a pé, tranquilo e seguro.
Um dos locutores, muito conhecido no estado de Goiás, me propôs um freela: cobrar das agências de publicidade o trabalho dele de locução, tanto áudio quanto para filme.
Trabalhei um ano nas organizações Jaime Câmara, jornal O Popular e também na rádio: operador de IBM, revisor e redator.
Tinha 19 anos e ainda insistia no vestibular para Medicina.
Meio que ainda com esperança de ser jogador de futebol profissional, a gravadora me levou para a Comunicação num todo.
Na primeira visita que fiz a uma das agências, subsidiárias das grandes de São Paulo, algumas, outras nativas, me deparei com uma casa de alto luxo, e a recepcionista me hipnotizou, de tanta beleza própria das mulheres de Goiânia.
Queira ou não, é um atrativo à profissão, foi e ainda é.
Me apresentei, e ela, muito comunicativa, puxou assunto, e pegou o recibo da minha mão, telefonou, e acenou que aguardasse a responsável pela tesouraria.
Ela me convidou para uma excursão bate e volta a Caldas Novas, dista 170 km da capital goiana, e restavam duas vagas.
—Uma para você e outra para sua namorada. Dou um desconto se comprar as duas...
Ela me convenceu.
Assim que recebi o cheque do locutor, firmamos o contrato que pagaria as passagens da excursão na quinta-feira, véspera da viagem à noite.
Antes de ir à agência de publicidade, o dono da gravadora pediu que passasse no banco, do qual ele era o gerente.
Lá me fez adiantamento para melhorar meu vestuário, porque a empresa precisava "manter uma linha de trabalho".
Perfeito, porque minhas camisetas e "calças velhas desbotadas" estavam fiapos... o conga, nem se fala.
E a mon entrée sociale atraiu belas garotas: Telma, do cursinho, por quem nutri uma paixão avassaladora, e convidada para a excursão, descartou porque 'era noiva'.
Já a recepcionista da agência abria sorrisos lascivos, luxúria que aproveitei bem na ida, até chegar em Caldas Novas.
As agências ficavam principalmente nas ruas nobres do Setor Oeste e do Setor Marista.
Da gravadora até essa agência, primeira, andava uns 30 minutos, e de lá ia caminhando também até as outras agências localizadas no Marista.
E o raciocínio e os desejos digladiavam por medicina, redator publicitário ou de criação; ainda compositor e diretor de jingles, daí assistia a toda a movimentação do autor (um pianista alcoólatra), locução, redação, ajustes, tanto na gravadora quanto nos estúdios de gravação de duas agências, apenas.
Ou seja, o feeling, a concepção de participar do sincretismo religioso e astral: Ogum, São Jorge e taurino, mais a data de nascimento, apontam sete portas.
Em qualquer área em que a porta se abre, cresço e sou bem-sucedido.
Indica, portanto, que tenho sempre sete portas para abrir.
A que for aberta, apresentará outras sete e assim cheguei aos 70 anos.
Não é à-toa que muitos médicos que me assistem em consultas, me pedem "um segundo" para dar seu diagnóstico, refazendo a pergunta:
—O que o Sr. está sentindo? Não entendi até agora...
O Sr. veio aqui para eu passar uma receita do seu diagnóstico?
A ida para Caldas Novas iniciada às 19h em frente ao Centro Administrativo de Goiânia foi um sonho, que creio que todos os jovens já tiveram — sonhar traz a realidade para perto.
Creio que o Universo conspirou a meu favor naquela noite, porque nas três horas de viagem, peguei a recepcionista e uma amiga dela, solteira para a excursão.
Minha então namorada, preferiu que eu a levasse para assistir Dona Flor e seus 2 Maridos, com Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça.
O que me causou certo constrangimento; entramos atrasados na sala de exibição, justamente na hora que Vadinho desnuda a estonteante Dona Flor, e Telma grita.
Fora a primeira vez que vira uma cena de nudez explícita.
E a galera não perdoou:
—Aí, tarado. Leva a moça pra igreja...!!!
Caldas Novas vou encerrar na ida, porque quando descemos do busão, todos sumiram. Boa parte da noite até 1h da madrugada fiquei deitado dentro de um riacho de águas rasas e quentes.
Voltei para o ônibus na esperança de encontrar uma das meninas, e nada.
No sábado e domingo, uma delas se aproximou de mim, e me mostrou uma mulher de seus 25 anos, grávida de seis meses, e linda demais.
A menina me perguntou, já me assustando:
—Será que ficarei linda igual a ela...?
Pra ser sincero, só conheci camisinha em 1985, com a ‘tal pandemia da Aids’.
A beleza dessa mulher me vem sempre à lembrança, quando vejo o filme ou releio Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, editora Nórdica, edição no Brasil em 1970.
Ela estava sentada numa pedra perto do riacho, usava óculos escuros, e as vestes transparentes mostravam biquíni pequeno, e ela ostentava o livro com uma das mãos para a leitura; usava um belíssimo par de óculos escuros...
A capa era chamativa, diante de tanta beleza, por ter duas cores: ciano e as letras grandes do título vazadas em branco.
Na volta, segunda-feira, bem cedo, já organizando a discoteca, o técnico de eletrônica, muito brincalhão, me chamou para ajudá-lo a segurar materiais de que precisava para consertar a mesa de som, que fez gambiarra na noite anterior.
—O pessoal comentou que você foi numa excursão com aquela belezura da agência...
Cortei logo o papo. "Que nada — só peguei conjuntivite; repara no meu olho".
Ele sorriu e pediu para eu segurar firme uma parte de uma bandeja.
O fanfarrão me fez levar um choque, que caí.
Brincadeira à parte, mostra que tudo que formos fazer devemos apurar, ter curiosidade, porque do contrário seremos surpreendidos.
Das agências, Gravadora Embalo, rádio e jornal O Popular, mais um escritório de Contabilidade, os treinos no Goiás divididos com o expediente na empresa conveniada com o clube, vêm agradecimentos aos amigos consagrados na cidade de Porto Nacional, cito os irmãos Antônio Fernandes (Fernandinho), hoje alto funcionário do Tribunal de Justiça Federal, de Palmas (TO) e dono de escritório de advocacia, e Rogério Fernandes, empresário na mesma capital do Tocantins.
Eles me receberam em sua casa, Vila União, nessa época em que cheguei a Goiânia de carona, "sem lenço e sem documento", rodando em círculo pelo Brasil.
Sou natural de Goiânia, bairro Campinas de Vila Nova, e, segundo minha mãe, que mora em Natal (RN), disse que apenas nasci e aos seis meses nos mudamos para a Ilha de Fernando de Noronha, novo emprego do meu pai.
De Noronha tenho flashes de memória entre três e cinco anos.
Das sete portas, se as abri, creio ter perdido a oportunidade de criar raiz em minha terra natal, que só fui conhecer 19 anos após ter nascido.
Os amigos portuenses me chamavam pelo nome de batismo ou pelo apelido adquirido em Porto Nacional, LaBankinha; e, os colegas, me chamavam de Carioca, porque nas voltas que dei para chegar em Goiânia naquela fase, havia treinado em clubes do Rio, e aqui passando um tempo em Santa Cruz, Olaria, Ilha do Governador, o sotaque entranhou na linguagem, tal qual àqueles brasucas migrantes que um mês em Miami, invoca Tio San, como língua pátria 'misxturada' com a região donde saiu.
Pense num mineiro na Flórida.
-'On co tô'? 'uai'! 'Sô'. 'Cadinho di rótidógui'... 'Ruátis is de trem é esse'?
Das verossimilhanças ao empírico, creio que há ainda muitas portas, se fosse gato não diria, deveria ter apenas duas vidas das sete que o felino possui, tais os acidentes que sofri...
Esse artigo deve ser publicado em 2026, janeiro ou em março.
Meus nove ‘leitores’, suponho tamanha audiência, têm a oportunidade de buscar na prateleira da Amazon dois livros: Occidentaes - Poesias Completas de Machado de Assis, reeditado por mim, e o livro de minha autoria com artigos e crônicas chamado The End, No, escritos principalmente para o portal internacional meer.com, e outros tantos outrora engavetados ou publicados nalgum tempo.
A venda do livro de poesias se dá, evidencio, a arrecadar fundos para pagar a gráfica da edição impressa (1.000 exemplares), que chegará às bibliotecas de bairros e comunidades pelos quais passei, levando a poesia de nosso melhor escritor, referência no mundo.
Se chegar a tanto, a verba ajudará nas pesquisas sobre familiares de Machado, como também buscar meios que proporcionem bancar manutenção de moradias onde provém o escritor lá no Morro da Providência, e na moradia que foi na Rua dos Andradas...
A primeira infância do escritor foi na Ladeira do Livramento, 77; a casa está em ruínas, mantida por alguns moradores, e é uma das poucas casas remanescentes da antiga Chácara do Livramento naquele Morro, pertencente à área chamada Pequena África no Centro do Rio de Janeiro.
Já dizia uma ex futura esposa, hoje gozando as benesses de um país desenvolvido, Canadá:
—Você é encasquetado com letras, se acha escritor. Daí, tem cabeça de pobre!
Sou de Ogum, São Jorge e Taurino: que mais portas abrirei?















