Toda arte é um espelho do zeitgeist da sociedade que a gerou. Entender o significado que um artista expressou em sua obra permite conhecer não só o próprio artista, mas também as pessoas com as quais ele se comunicava. Nesse aspecto, o cinema talvez seja o que melhor traduz esse significado ideológico. A sétima arte não é produto de uma única pessoa sozinha numa sala, mas de dezenas ou centenas num estúdio; como Orson Welles falou, um pintor precisa de um pincel; um diretor de cinema, de um exército. E seu público pode incluir toda a sociedade; logo, a sétima arte é a mais coletiva de todas as artes e a que mais precisa se comunicar com a comunidade.
Portanto, os filmes exibem mais do que histórias; transmitem visões de mundo. Enquanto as telas de cinema ocidentais são imersas no humanismo e no otimismo que marcaram a cultura europeia e americana, as obras orientais têm uma visão diferente da realidade, herdeira de séculos de filosofia budista, ensinando ao homem que a vida era um eterno ciclo de dor e morte e que a sabedoria consistia justamente em se desapegar do sofrimento para atingir uma plenitude que o materialista não podia desfrutar. Os orientais desenvolveram uma visão bem mais fatalista e melancólica do mundo.
Para o Oriente, mais especificamente para os japoneses, cuja sociedade rica permitiu o desenvolvimento de um cinema próspero e dinâmico, viver não era apenas desfrutar da alegria, mas também aprender a conviver com a tragédia. Isso pode parecer pessimista ao ocidental, mas também pode ser visto como realista e sóbrio.
Cineastas japoneses muitas vezes representaram mundos em que homens de honra se apegavam aos seus valores e ideias, mesmo sabendo das consequências de tais atos. Os heróis do Japão tinham que estar prontos para um final triste; afinal, a vida estava atrelada inexoravelmente à dor. Talvez o melhor exemplo dessa visão trágica do homem se encontre na trilogia Guerra e Humanidade. Os filmes mostram um jovem intelectual idealista, decidido a manter-se firme em seus valores igualitários e pacifistas.
Ao longo da história, o herói tem de testemunhar os horrores da Segunda Guerra Mundial: em um campo de trabalhos forçados japonês, no cruel treinamento do exército, na linha de frente da batalha e, finalmente, em um gulag como prisioneiro. Mesmo diante de todo o horror do combate, o jovem idealista nunca perde a fé em sua ética nem hesita em defender suas crenças morais.
Os japoneses sempre entenderam a fragilidade da condição humana e que estavam sempre na corda bamba da vida. O clássico filme de samurai Ran, do gênio Akira Kurosawa, mostra a destruição de um feudo samurai após o lorde, ingenuamente, renunciar ao trono e seus herdeiros entrarem em conflito pelo trono. O filme encerra com uma das vítimas, um cego, caminhando à beira de um precipício, metáfora da condição humana, sempre à beira de cair no desastre.
Kurosawa sabia representar as ambiguidades humanas com maestria; em outra de suas obras, lidou com o mal e a mentira na mente humana. Rashomon mostrava três homens discutindo um crime que aconteceu recentemente, mas, sem saber exatamente como o crime se desenrolou, apresentava os pontos de vista de todos os envolvidos no crime, em cada caso mostrando os demais como os culpados pelo ocorrido e o narrador como vítima.
Quando a verdade finalmente se revela, mostra-se que todos os envolvidos agiram com egoísmo e covardia, mas permanece a dúvida se toda a realidade tinha sido descoberta ou se mais mentiras estavam envolvidas. Os homens concluem que a raça humana é perversa e não confiável, mas, mesmo dentro dessa visão sombria, ainda há espaço para o altruísmo entre os que querem ser bons.
Kurosawa não estava sozinho em seu estudo da condição humana. Seu compatriota, Kenji Mizoguchi, também estudou o sofrimento, mais especificamente o daquela que era esquecida pela sociedade: a mulher. Mizoguchi entendia bem do assunto. Nascido no período de modernização do Japão, quando as velhas práticas feudais de séculos davam lugar ao mundo capitalista, o diretor viu, quando criança, seu pai vender sua irmã para uma casa de entretenimentos para pagar os estudos do filho. Ainda que não fosse o responsável pela decisão, o ato foi um peso na consciência do diretor durante toda a vida, que ele tentou expurgar com sua obra.
Todos os trabalhos do diretor mostravam mulheres simples, mas honestas, que buscavam apenas viver eticamente. Entretanto, o peso da sociedade patriarcal pesa sobre elas, obrigando-as a sofrer mesmo quando estão fazendo o correto. Mizoguchi obviamente não podia solucionar o sofrimento de suas personagens, mas tentava ensinar, em seus filmes, que um desapego quase budista à dor aliviaria o sofrimento.
Essa mentalidade está presente em Os Amantes Crucificados, história de um casal apaixonado que não pode ficar junto porque a mulher está casada com um marido desagradável. Ainda assim, os dois são perseguidos e marginalizados por um ato de bondade que foi erroneamente interpretado como traição pelo marido, sendo punidos injustamente. Quando finalmente são capturados e enviados para a execução, um pequeno consolo cai sobre eles: pelo menos agora podem ficar juntos, mesmo que nos momentos finais.
Kurosawa e Mizoguchi não eram os únicos cineastas renomados do Japão. Outra figura emblemática era Yasujirō Ozu; juntos, formavam a tríade de ouro do cinema japonês. Ainda assim, eles tinham estilos bem distintos. Enquanto Kurosawa representava um cinema mais hollywoodiano, com grandes batalhas e duelos, e era o mestre dos filmes de samurai, Ozu era o artista que representava o homem comum. Por sua visão do cotidiano, ficou conhecido como “O mais japonês dos cineastas. Ao mesmo tempo, o mais universal entre os japoneses”.
Ozu era especialista nos chamados Gendai-geki, que retratavam dramas sobre a vida do cidadão japonês do século XX, navegando entre as convenções e sobrevivendo na banalidade do mundo comum. Como seus colegas orientais, Ozu frequentemente explorava a inevitabilidade do sofrimento e a aceitação dele como forma de sobrevivência.
Em uma de suas obras, Era uma vez um Pai, fala-se da relação entre um homem e seu filho. Ambos se amam e desejam viver mais próximos um do outro; entretanto, as obrigações de sua profissão os impedem (ambos são professores). Quando jovens, o pai envia o filho para um internato para estudar e progredir na vida. Quando adulto, o filho deseja se aproximar e viver próximo, mas seu pai, mesmo também querendo isso, o desestimula, pois tem um dever para com seus alunos. Apesar da dor que sofrem, ambos aceitam sua obrigação.
As obras de Ozu sempre foram imersas em uma certa melancolia e um espírito conformista, pois mostravam uma sociedade que aprendeu desde tempos imemoriais a ser fiel a seus superiores, mesmo quando sabia que eles estavam errados e que não era um bom caminho. A herança das filosofias de Buda sobre o sofrimento e de Confúcio sobre obediência e lealdade ainda é forte no Oriente, assim como as ideias do cristianismo estão impregnadas por todo o Ocidente.
Similar às obras de Ozu e Mizoguchi, ainda que não tão famoso e com o mesmo tom poético melancólico, era o cinema de Mikio Naruse. Mesmo não tão renomado quanto seus colegas cineastas, vários dos temas e pensamentos de ambos estão presentes na obra de Naruse. Como Ozu, Naruse trabalhou a história do amor que não pode se realizar por dever e que se transforma em dor para ambos. Em um tom ao mesmo tempo de aprendizado e de lamento, sua obra, em alguns momentos, parece uma parábola de Buda ou um ensinamento de Confúcio.
Em Tormento, uma mulher de meia-idade e viúva administra uma pequena mercearia; sem o apoio da família do falecido marido, ela decide abandonar tudo e voltar para seu antigo lar no interior. Mas seu jovem cunhado, o único que realmente é doce com ela, decide acompanhá-la. No caminho, ambos começam a se abrir sobre seus sentimentos um com o outro. Ainda que sejam mútuos, a mulher decide não os realizar, pois deve manter a lealdade familiar. O jovem rapaz não suporta a angústia e morre; mesmo entristecida, ela decide ser forte e seguir em frente.
Aprender a conviver com a dor e a aceitar seus fardos sempre foi um tema comum no Japão, especialmente nos filmes de samurai: o guerreiro da cultura oriental devia estar disposto a morrer pelo dever e a não hesitar. A história que melhor representou esse ideal de devoção foi o caso dos 47 Ronins, provavelmente o mais emblemático incidente do Japão feudal. Com base em um evento real, um chefe feudal é condenado à morte após atacar um oficial do Xogum; seu clã é desmantelado e seus samurais tornam-se errantes.
Mas seus vassalos não conseguem superar a dor da desonra e, após anos de espera, quando o caso é esquecido, reúnem-se e atacam o oficial que causou a morte de seu senhor. Após terem a honra limpa, decidem aceitar seu destino e serem punidos pelo Xogum. Adaptadas várias vezes para o cinema, todas as versões enfocam a dor dos samurais por terem falhado com seus senhores e a aceitação da punição após terem se libertado do fardo de tê-lo vingado.
Obviamente, os ocidentais têm dificuldade em compreender tal sentimento de devoção, mas a honra samurai não destoa muito do patriotismo que alguns manifestam quando acreditam que devem sacrificar-se pelo seu país. No Oriente, este espírito de dever maior do que a vida, que pode custar a própria felicidade, é algo comum.
Essa visão conformista, muitas vezes ao longo da história japonesa, foi usada para legitimar a injustiça por parte de governantes tirânicos. Mas os próprios japoneses não eram ingênuos quanto a isso. Em Juramento de Obediência, o protagonista leva sua noiva para o hospital. Enquanto aguarda os médicos, repensa o legado de sua família, relembrando, desde os tempos samurais, quantas vezes seus ancestrais se sacrificaram pelos seus senhores, que apenas usavam suas espadas para satisfazer seus desejos megalomaníacos. Após meditar, ele percebe que sua devoção cega persistiu após o fim dos samurais, pois seu irmão morreu na guerra como kamikaze, e que a obediência ainda existe, pois ele mesmo sacrificou seu casamento por seu emprego.
O fatalismo dos orientais não é sempre saudável nem deve ser visto como superior à visão ocidental, mas a mentalidade de saber conviver com a dor pode ser uma forma de superar o sofrimento. Por mais que seja uma ideologia diferente do espírito ocidental, entender outra forma de enxergar a realidade é um aprendizado para todos. Os artistas japoneses construíram um belo cinema para aqueles dispostos a apreciá-lo.















