Outro dia conversando com uma colega de trabalho, constatei que o artista a cujos shows mais assisti até hoje foi o Gilberto Gil. Comentei com ela que achava engraçado, pois nunca me considerei fã (daqueles de “carteirinha”) do Gil, mas de alguma forma, ele sempre esteve por ali, presente em minha percepção do mundo.
A minha descoberta consciente do Gil aconteceu somente em 1979, com o LP Realce. Não sabe o que é LP? Como diria minha mãe: “Dá um Google!”. Digo consciente, pois, diferentemente de canções do Caetano Veloso, da Rita Lee e dos Secos e Molhados, que desde os cinco anos tenho recordação, o Gil, até aquele momento, aos meus 10 anos, tinha passado despercebido em minhas memórias.
Tudo mudou quando um tio foi morar uma temporada conosco. Como ele era superfã do Gil, chegou com seu LP Realce debaixo do braço e passava todo o dia escutando as canções e discutindo as letras com meu irmão mais velho, que nesta época já era um adolescente. Debatiam sobre o significado das letras; em uma em especial, praticamente brigaram (Super-Homem – a canção), pois meu irmão afirmava que o Gil estava se confessando homossexual e meu tio explicava que não, que ele estava demonstrando o lado feminino (sensível) do homem. Claro, também tinha aquelas conversas típicas da década de 70... “olha, se você escuta a faixa tal de trás para frente há uma menção a...” Esta parte nunca entendia direito.
Na minha perspectiva, a capa do LP Realce já era excepcional, apresentava um Gil plenamente afro e feliz com seu penteado e cores. Quanto às músicas, fiquei surpreso e espantado com a sonoridade e a capacidade vocal do Gil na faixa título (Realce), depois me encantei com a melodia e a forma como ele interpretava as canções Marina (de Dorival Caymmi) e Não Chore Mais (canção do Bob Marley, escrita por Vincent Ford) e detive-me nas letras de Toda Menina Baiana e Sarará Miolo. Acredito que, intuitivamente, já me agradavam as frases de autoafirmação contidas nas letras destas duas canções. A primeira, que retrata o nosso amor-próprio e autoafirmação baiana e, a segunda que, com frases curtas e diretas, clama pela autoafirmação negra:
Sara, sara, sara cura
Dessa doença de branco
De querer cabelo liso
Já tendo cabelo louro
Cabelo duro é preciso
Que é para ser você, crioulo
O tempo passa, 1984, sou um adolescente de 15 anos, veraneando em Arembepe e na expectativa de assistir ao show da Blitz, sensação da minha geração, banda que reabriu todas as portas para o Rock nacional. Eu e meus primos tínhamos passado a semana na expectativa deste dia, aguardando os nossos pais chegarem para nos levarem ao Festival de Verão que estava rolando em Arembepe, no mesmo local da aldeia hippie. O show da Blitz foi ótimo! Correspondeu às minhas expectativas de 15 anos. Ah! Mas, olha o Gil aparecendo novamente!
Nesta mesma noite havia o show do Gil e minha mãe e tios passaram a noite toda comentando que ele não chegava porque a “polícia o prendeu portando algo...” (frase típica daqueles anos, que vinha acompanhada de risos). Mas ele apareceu e pela primeira vez, assisti ao seu show. Nesta noite, mencionou que apresentaria uma música inédita: Tempo Rei! Tempos depois, ouvi a versão gravada por Amelinha tocando nas rádios em Salvador. A versão gravada do Gil descobri mais tarde (ambas as versões foram gravadas em 1984). Sempre assimilei esta canção como uma linda e poética oração e a carrego, juntamente com Oração ao Tempo do Caetano Veloso, para me acalmar, principalmente, em momentos difíceis.
Depois do festival, me dediquei a conhecer ainda mais as canções do Gil, desde o início da sua carreira e me debrucei numa coleção de MPB (Música popular Brasileira), creio que da Editora Abril, que havia lá em casa. Tantas pérolas! Descobri Domingo no Parque, uma ‘canção-história’, cheia de ritmo e interpretação crescente até o clímax. Talvez ela tenha facilitado a minha assimilação de Faroeste Caboclo do Legião Urbana, que apareceria em 1987, outra ‘canção-história’.
Anos mais tarde, já morando no Rio, em momentos distintos, assisti aos shows do Gil interpretando as versões que ele fez para as canções de dois grandes músicos: Luiz Gonzaga e Bob Marley. O primeiro, um show que nasceu após o álbum Gilberto Gil e as Canções de Eu Tu Eles (2000), trilha sonora do filme homônimo com diversas releituras de clássicos do Gonzaga. O segundo, inspirado no álbum Kaya N'Gan Daya (2002) que ele fez dedicado ao Bob Marley. Lembro das entrevistas dele destas épocas, nas quais exaltava a capacidade artística de cada um desses dois músicos e como eles o influenciaram. Pensei: O cara tem que ser muito foda para admirar tanto outros artistas e fazer versões dos seus trabalhos!
Em 2012, o Gil se reuniu com a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) para comemorar os seus 70 anos de idade. O espetáculo se chamava Concerto de Cordas e Máquinas de Ritmo e mesclava a sonoridade erudita da orquestra com elementos percussivos e eletrônicos. Lembro que fiquei encantado com a versão de Domingo no Parque. Como não tínhamos com quem deixar o nosso filho caçula, terminei indo assistir a este espetáculo com o nosso primogênito, que ficou todo animado por sair à noite com o pai para assistir a um show. Após uma sexta-feira intensa de escola e brincadeiras terminou dormindo um pouco depois da metade do espetáculo. Mas enquanto esteve desperto seus olhinhos brilhavam com a experiência.
Pouco mais de uma década se passa e lá estou eu, desta vez reunido com toda a família e mais alguns amigos para assistir ao show do Gil também em família em São Paulo, comemorando os seus 80 anos. Ah! Não lembro se antes ou depois deste show, mas também tivemos a oportunidade, em família, de ver uma palhinha dele num show comemorativo do Luiz Caldas na Concha Acústica do Teatro Castro Alves em Salvador, quando houve uma catarse coletiva com Toda Menina Baiana. Lembro que o objetivo era apresentar a Concha Acústica aos meninos e fomos surpreendidos por uma participação (super) especial do Gil, algo bem típico dos eventos de verão em Salvador (participações especiais em shows).
Chego ao Allianz Parque na sua grande turnê de despedida dos grandes eventos. O show é um desbunde visual e uma maravilhosa viagem por diversas emoções através de tantas canções ao longo de tantos anos. Uma especial que conheci ainda numa versão acústica lá em 1984...
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Conseguimos um bom lugar no gramado para assistirmos ao show. O único inconveniente é que ficamos cercados por dois casais que se revezavam acendendo os seus cigarros de ervas durante todo o evento. Lembro das conversas da minha mãe e meus tios lá naquele Festival de Verão de Arembepe. Acho que no final do evento já estávamos mareados, mas não podíamos perder aquela excelente localização.
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei...















