Filmado ao longo de 2022, No Céu da Pátria Nesse Instante acompanha os meses turbulentos do período eleitoral que culminaram na invasão do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do STF, em 8 de janeiro de 2023. Através do olhar de personagens envolvidos no processo eleitoral, o filme articula o pessoal e o político, revelando um Brasil de tensão e expectativa, onde realidades paralelas lutam para se enxergar mutuamente.
Sandra Kogut mergulha no cotidiano de brasileiros comuns em uma eleição histórica, mostrando como a democracia se constrói na coragem silenciosa de pessoas anônimas. Entre diários em vídeo, equipes locais e acesso exclusivo a órgãos eleitorais, o documentário revela o esforço “de formiguinha” que mantém a política e a democracia em movimento, mesmo em tempos de polarização extrema.
Premiada e reconhecida internacionalmente, Sandra Kogut tem uma carreira marcada pelo olhar sensível sobre personagens à margem ou anônimos, no cinema de ficção, como Três Verões, e no documentário, como Passaporte Húngaro. Seus filmes exploram relações humanas, sociais e políticas com profundidade, colocando o espectador em contato direto com histórias complexas e íntimas.
Em entrevista à Meer, Kogut fala sobre o processo de criação do filme, os desafios de capturar diferentes realidades, sua abordagem estética e a experiência de registrar um país dividido sob o mesmo céu.
Como surgiu a ideia de fazer este documentário?
A ideia começou quando eu estava criando uma rede de personagens pelo Brasil, acompanhando pessoas que tinham sido voluntárias nos estudos das vacinas contra a Covid. Na época, isso era quase como ser guerrilheiro, porque o país estava praticamente combatendo essas vacinas, com um governo negacionista. Eu percebia que essas pessoas estavam colocando a vida em risco por algo maior, e isso me chamou muita atenção. Quando os estudos foram concluídos, imediatamente pensei que queria documentar o processo das eleições, porque sabíamos que seriam decisivas para o futuro do país e, de certa forma, do mundo. Havia tanta tensão, tantas incertezas, que senti que era essencial registrar aquele momento histórico. Queria capturar não só o que estava acontecendo, mas também como o Brasil estava reagindo emocional e socialmente a tudo isso. Era um instante único, e eu senti que precisava deixar um registro vivo e humano desse período.
O que motivou a escolha do título "No Céu da Pátria Nesse Instante"?
O título vem de um verso do Hino Nacional, um símbolo nacional que foi apropriado pela extrema-direita. Quis usar algo que fosse comum a todos, não de um lado só. “Nesse instante” remete ao eterno presente que vivíamos, em que as notícias eram absurdas, polarizadas e muitas vezes desconexas. O céu é o único terreno comum que nos resta, e o filme mostra como esse ponto em comum é essencial para a existência de um país, mesmo em meio à divisão.
Como você escolheu os personagens do filme?
Eu não queria trabalhar com protagonistas tradicionais ou figuras políticas visíveis na mídia. Minha intenção era olhar para o cidadão comum, aquelas pessoas que não aparecem nos holofotes, mas que estão diretamente envolvidas na política cotidiana, em casa, no trabalho, nas relações familiares. Eu queria que o filme mostrasse a política do dia a dia, a partir da perspectiva de quem realmente vive o processo. Então comecei a buscar personagens em diferentes regiões do Brasil: alguém da zona oeste do Rio, uma área conhecida por ser super bolsonarista; alguém na Amazônia, para mostrar a dimensão logística de uma eleição em um país tão grande; e até um bolsonarista no Sul. Cada escolha tinha um propósito narrativo, e também foi um processo delicado, porque era necessário construir confiança com pessoas de espectros políticos muito diferentes. Essa confiança foi fundamental para que eles se sentissem à vontade de mostrar suas vidas, seus pensamentos e seus dilemas, sem me sentir como alguém de fora julgando ou manipulando a narrativa.
Como você tomou decisões estéticas para o filme?
Eu queria que o filme tivesse uma câmera próxima, mas que não fosse invasiva. Planos longos e fixos, sempre que possível, eram essenciais para criar uma intimidade natural com os personagens. Comecei pedindo para eles fazerem diários em vídeo, usando seus celulares, registrando seu dia a dia. Isso me permitiu conhecê-los melhor e entender seus mundos, sem interferir. Mas percebi que os diários sozinhos não seriam suficientes. Então, precisei ensinar equipes locais — pessoas próximas dos personagens — que eu pudesse treinar para filmar de acordo com a visão que eu queria registrar no documentário. Por exemplo, em Anajás, na Ilha de Marajó, formei a Ruth para filmar. Ela nunca tinha feito documentário antes, mas aprendeu rapidamente a capturar imagens de maneira sensível, registrando detalhes e nuances da vida cotidiana. Esse modelo se repetiu em diferentes lugares, garantindo que pudéssemos capturar momentos-chave da eleição, mantendo a narrativa próxima, íntima e respeitosa.
Quais foram os maiores desafios de produção?
O filme era quase impossível de fazer. Filmamos em um país gigantesco, com personagens espalhados e de lados políticos opostos, durante um período de medo e ataques às eleições. Precisávamos registrar cada momento-chave, desde a preparação até o primeiro e segundo turno, com total atenção aos detalhes. Além disso, eu precisei entender profundamente o sistema eleitoral — fiz cursos no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para aprender como funcionavam as eleições, o papel dos mesários e a logística de todo o processo. Outro desafio foi obter acesso a órgãos oficiais, que normalmente não permitiriam filmagens. O TSE nos deu acesso justamente por causa do contexto: estavam sob ataque constante, e talvez tenham visto como positivo que alguém quisesse registrar o processo com cuidado. Esse acesso foi essencial para mostrar o trabalho silencioso e meticuloso que mantém a democracia funcionando.
Como o documentário aborda a democracia e a política?
Para mim, a democracia não é apenas uma palavra bonita; ela acontece todos os dias, no detalhe, com planejamento, participação de cidadãos comuns e trabalho silencioso. O filme mostra esse esforço “de formiguinha”, que normalmente passa despercebido, mas é vital para o funcionamento do país. Ele revela como pessoas comuns, muitas vezes anônimas, sustentam a política e fazem com que uma eleição aconteça. Meu objetivo era mostrar a política através dos olhos de quem realmente a sustenta, em vez de focar apenas nos protagonistas visíveis ou na narrativa midiática. É um olhar íntimo e humano, que permite ao espectador perceber a complexidade e os desafios de um processo democrático.
Como você lidou com os personagens bolsonaristas e o risco de estigmatizá-los?
Nunca quis caricaturar ou sensacionalizar ninguém. Quando se é diretor, você tem poder absoluto sobre como os personagens serão apresentados, mas seria um abuso usar esse poder para expor alguém, por exemplo. Procurei ouvir, entender como pensam e mostrar isso de maneira respeitosa. Só confronto diretamente em momentos inevitáveis, como no 8 de janeiro. Na montagem, fiz escolhas cuidadosas para não reforçar estigmas ou tornar impossível para o público compreender esses personagens como pessoas reais. A ideia era mostrar como o país estava dividido, como certas pessoas foram capturadas por realidades paralelas, sem simplificações ou julgamentos fáceis.
Qual foi a reação do público, dentro e fora do Brasil?
O filme já passou por festivais como Málaga, Biarritz, IDFA e na Coréia, e em todos os lugares a reação foi muito intensa. Fora do Brasil, as pessoas se projetam na história e reconhecem fenômenos globais, como a ascensão da extrema-direita. No Brasil, a experiência é multiplicada: espectadores revivem a tensão do período eleitoral, lembram onde estavam, o que sentiram, e isso gera uma reação muito profunda e emocional. Acredito que o filme consegue provocar empatia e reflexão em diferentes contextos culturais.
O que você queria atingir com este documentário?
Eu queria registrar um momento histórico intenso, levantar perguntas sobre polarização, falta de diálogo e a captura das pessoas por realidades paralelas. É um filme vivo, que ganha novas camadas com o tempo. Também quis registrar imagens únicas do 8 de janeiro, que são históricas e dificilmente poderiam ser capturadas de outra forma. Espero que ele faça o público refletir sobre a democracia, sobre o Brasil e sobre como vivemos esse presente complexo.
O impacto de No Céu da Pátria Nesse Instante já se refletiu internacionalmente. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri e o de Melhor Montagem no Festival de Brasília e foi exibido em importantes festivais ao redor do mundo, incluindo o Festival de Málaga, o Festival de Cinema Brasileiro de Paris, o DOK.Fest München, o Festival de Cinema Iberoamericano, Biarritz Amérique Latine, Brésil en Mouvements, FIDBA, Festival do Rio, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o IDFA e o Jeonju International Film Festival, na Coreia do Sul. Essa trajetória reforça o olhar e a escuta sensível de Sandra Kogut, que capta com profundidade a realidade brasileira e a democracia em tempos desafiadores.
O documentário em breve estará disponível em streaming. Siga o filme no Instagram @noceudapatria para acompanhar novidades e saber quando ele chegará as plataformas.















