Assisti recentemente ao filme Nuremberg, que retrata o famoso julgamento por um tribunal internacional de líderes nazistas capturados ao fim da Segunda Guerra Mundial, tendo como fio condutor a relação entre um jovem psiquiatra e o “Reichsmarschall” Hermann Göring, braço direito e provável sucessor de Adolf Hitler. Göring entregou-se às forças de ocupação aliadas após a derrota da Alemanha, foi preso e levado a julgamento pelos crimes de guerra, junto com outros altos oficiais nazistas.
A crítica especializada, de uma forma geral, não acolheu de forma entusiasmada o filme, tampouco o público lhe conferiu um sucesso comercial expressivo. Mesmo sendo um filme de baixo orçamento para os padrões atuais de Hollywood, teve um desempenho modesto, arrecadando uma bilheteria na casa dos 35 milhões de dólares em todo o mundo.
Diversos fatores podem explicar esse resultado: o período em que foi lançado nos cinemas, antecedendo a temporada dos grandes lançamentos de fim de ano; a falta de uma campanha mais robusta voltada às premiações internacionais; ou mesmo o tema do Holocausto que volta a ser delicado no momento atual. Além disso, parte da crítica aponta problemas como o ritmo do filme ou eventuais imprecisões históricas.
Pessoalmente, tenho uma opinião diferente.
Nuremberg é um filme de ficção, baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra de Jack El-Hai que narra a história do psiquiatra Dr. Douglas M. Kelley, convocado pelas forças aliadas para avaliar a saúde mental dos prisioneiros nazistas e assegurar que eles estivessem aptos a enfrentar o julgamento.
O Dr. Kelley, interpretado por Rami Malek, estabelece uma relação médico-paciente com Hermann Göring, envolta em curiosidade e fascínio. Kelley queria perceber os mecanismos que despertavam e potencializavam a maldade naquele personagem histórico. Como uma pessoa investida de um poder quase absoluto conseguia disseminar o mal contra a humanidade, ou contra grupos específicos de seres humanos?
Nuremberg é um filme de guerra? Sim. É um filme de tribunal? Também. Um filme sobre psiquiatria? Sem dúvida. Talvez essa tentativa de ser um pouco de cada gênero enfraqueça o filme. Eu, no entanto, o vejo como um filme de suspense. E aqui está o seu mérito, mesmo com um desfecho conhecido, afinal estamos falando da História com “H” maiúsculo.
Desde o primeiro ato, o filme estabelece uma tensão clara entre os objetivos dos personagens: Hermann Göring é o prisioneiro, mas logo percebemos que é um manipulador nato. Em certa altura do filme, ele diz ao seu psiquiatra no interior de sua cela: “Eu estou exatamente onde queria estar. Eu me entreguei voluntariamente”.
Quem estava desconfortável com a situação era seu médico/interrogador. Este tinha o objetivo de extrair informações do marechal e entregar ao alto comando aliado os planos que estavam na cabeça daquele homem. Como ele havia planejado escapar daquele tribunal e manipular a opinião pública a seu favor?
O que estava em jogo naquele julgamento era a capacidade de os aliados exporem ao mundo as atrocidades cometidas pelo regime nazista e, desta forma, desumanizar aqueles que o comandaram ou o apoiaram. Para isso, era fundamental reunir argumentos sólidos e evidências, caso contrário poderiam alimentar um sentimento de vingança no povo alemão, e o conflito jamais teria um fim.
O filme, contudo, concentra-se nos personagens, no jogo mental entre eles. É muito mais sobre relacionamentos do que sobre o fato histórico em si.
No segundo ato do filme, quando a relação entre os protagonistas está plenamente estabelecida, não sabemos quem manipula quem. Se o jovem médico americano estaria conseguindo que o monstro revelasse as suas fraquezas, especialmente no que diz respeito à família, ou se este estaria a manipular o médico como parte de seu plano de mostrar-se mais humano. Um precisa do outro desesperadamente, e essa dependência vai crescendo ao longo da narrativa. O bem e o mal se cruzam numa zona nebulosa, até entrarmos no terceiro ato: o julgamento.
Nesse momento, o tribunal deixa de ser pano de fundo para assumir o protagonismo na narrativa. A reprodução da sequência é impressionante, do ponto de vista de direção de arte, costumes, fotografia, atuações. Trata-se de uma recriação soberba.
Talvez aí os historiadores possam criticar algumas imprecisões, especialmente quando vemos que Göring é o único dos réus retratado, e que faz-nos crer que tem o controle da situação até quase o fim. Não sei se os acontecimentos se deram exatamente assim, mas, do ponto de vista cinematográfico, o resultado é uma excelente sequência de tribunal.
O grande mérito desse filme está na atuação magistral de Russell Crowe como Hermann Göring. É assombroso o que esse ator consegue nos passar: medo. Apenas com o seu físico, sua postura e sua voz, ele compõe um Hermann Göring assustador. Sua atuação me lembrou muito a de Anthony Hopkins em O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs - 1991). Rami Malek, que interpreta o psiquiatra Dr. Kelley, é o protagonista e narrador da história, e está muito bem no papel, mas Russell Crowe rouba-lhe todas as cenas.
A importância de filmes como Nuremberg, nos dias de hoje, é apresentarmos um capítulo da História recente, que corre o risco de se tornar apenas uma página distante nos livros escolares das novas gerações. O cinema é uma ferramenta fantástica para despertar a curiosidade e o interesse por aprendermos como chegamos até os dias de hoje. Naturalmente que a História é e será escrita pelos vencedores, onde vamos ter uma visão sempre um pouco enviesada.
As relações humanas, sociais e políticas são extremamente complexas para serem plenamente registradas. Mas o papel do cinema, enquanto ficção e entretenimento, é despertar a curiosidade. A partir do filme, vamos buscar as fontes reais e procurar juntar os pontos da História.
Desde pequeno, sempre fui um admirador das histórias sobre a Segunda Guerra Mundial, um conflito que mudou a face do mundo e que havia terminado apenas 20 anos antes do meu nascimento e que, ainda assim, me parecia distante. Para um menino poderia ser mesmo. O que me fascinava era a aventura, o heroísmo, o patriotismo, e isso o cinema americano construiu de forma magistral.
Filmes como A Batalha de Midway (Midway - 1976), Uma Ponte Longe Demais (A Bridge Too Far - 1977), A Ponte do Rio Kwai (The Bridge on the River Kwai - 1957), O Mais Longo dos Dias (The Longest Day - 1962), Platton (Platton - 1970), e tantos outros que glorificaram os EUA e seus aliados.
Não podemos esquecer que o cinema foi uma ferramenta essencial para a propagação da cultura americana, e utilizado como parte do esforço de guerra. No pós-guerra, ele contribuiu para consolidar o american way of life e garantir os EUA como potência econômica e cultural.
A partir dos anos 1970, com a transformação cultural que explodiu nos EUA, e o trauma da guerra do Vietname, o heroísmo americano passou por uma revisão. Os filmes de guerra ganharam uma abordagem mais psicológica, expondo mais as consequências da guerra, os traumas, a política, ou a loucura. Filmes importantes foram realizados como O Caçador (The Deer Hunter - 1978), Apocalypse Now (1979), Platoon (1986), Nascido em 4 de Julho (Born on the Fourth of July - 1989) e Nascido para Matar (Full Metal Jacket - 1987).
Os filmes que retrataram a Segunda Guerra Mundial tornaram-se mais raros, com algumas superproduções para o cinema e para a televisão. Dois nomes se destacam como produtores, realizadores e atores: Steven Spielberg e Tom Hanks. Uma dupla que nos deu o espetacular O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan – 1998), e as séries Band of Brothers (2001) e The Pacific (2010). O cinema brasileiro também produziu seu filme de ficção sobre o tema: Estrada 47, dirigido por Vicente Ferraz, que narra o drama de um pelotão da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na campanha na Itália.
Eu não poderia encerrar sem citar aquela que considero uma obra-prima absoluta sobre a Segunda Guerra. O filme A Lista de Schindler (Schindler’s List – 1993) de Steven Spielberg. Um cineasta conhecido por transformar a realidade em fantasia, nos entrega um realismo até cruel, chocante em diversos momentos. A escolha pela fotografia em preto e branco, com a câmera na mão documental, nos mergulha em um dos momentos mais desumanos da História. É impossível assistir a esse filme sem arrepios ou lágrimas.
Nuremberg está em um outro patamar, longe de ser uma obra-prima. Ainda assim, é um filme extremamente bem realizado tecnicamente, com interpretações notáveis, que nos apresenta uma página da História que não pode ficar somente nos livros. É um filme necessário porque revela que os nossos atos hoje estão construindo a História que será lida e revista amanhã.
Até aquele julgamento, o mundo não tinha a dimensão do Holocausto, dos crimes e da brutalidade do nazismo. O risco de aquele episódio hediondo não ser revelado nem seus responsáveis serem punidos teria consequências profundas para a civilização ocidental.
Hoje, estamos construindo a História dia a dia, mas em uma guerra de verdades e mentiras. O cinema será sempre uma ferramenta importante, se não essencial, para que haja uma luz de reflexão sobre as nossas vidas, como seres humanos e como sociedade.















