O cinema de Kelly Reichardt propõe um contraponto melancólico à narrativa oficial do american dream. Suas histórias não apresentam personagens heróicos ou liberais financeiramente bem-sucedidos, figuras fundamentais do imaginário socioeconômico norte-americano, mas sim homens e mulheres errantes, fora da lei e da ordem social, que se aventuram por uma terra repleta de contradições. The Mastermind, lançado nos cinemas em 2025, é mais um capítulo desse olhar singular da cineasta para a própria nação e as narrativas que moldam sua cultura.
O escolhido para conduzir o espectador por essa reconstituição da América dos anos 1970 é um ladrão de obras de arte, morador do subúrbio de uma cidade interiorana que reúne alguns desajustados para furtar quadros do pintor modernista Arthur Dove, expostos no museu municipal. Trata-se de um terreno amplamente explorado pelo cinema norte-americano desde pelo menos 1903 (The Great Train Robbery, um clássico dos primeiros cinemas): o heist movie, ou filme de assalto. Reichardt, entretanto, suprime boa parte dos códigos e das sensações trabalhadas por filmes do gênero, apropriando-se do tema para moldá-lo aos aspectos estéticos e discursivos caros ao seu cinema.
A começar pela dualidade proposta no título da obra. O mastermind de Reichardt não é exatamente um criminoso de mente brilhante, embora possa considerar-se como um. O título opera como sátira à mitologia do liberal norte-americano, à crença na destreza individual como motor do sucesso. Arthur, pelo contrário, é um cidadão comum que encara seu desemprego e a adesão ao crime como uma espécie de negação dos próprios privilégios, rejeitando sua carreira acadêmica e a filiação ao legado de seu pai, um bem-sucedido juiz da comunidade. Assim como os andarilhos de Wendy and Lucy ou os pioneiros de First Cow, é um sujeito que vive alheio à promessa de prosperidade da sociedade norte-americana.
Reichardt estrutura a história desse homem e seu crime em duas partes distintas: a preparação e a execução do roubo, que ocupam o primeiro terço da obra; e a subsequente fuga da polícia e de seus perseguidores. Contudo, a diretora substitui o suspense e a tensão tradicionais ao gênero pela diluição do ritmo da ação e do tempo narrativo. O planejamento do roubo é uma aula de desorganização; já o roubo, quando acontece, é esvaziado de tensão, resultando em um antinaturalismo cômico que mais se assemelha a uma cena filmada por Wes Anderson. Para completar, o que acontece após o roubo também é menos uma história eletrizante de fuga do que o registro de um homem confuso flanando dispersamente pelo país.
The Mastermind pode ser visto como um tensionamento da própria masculinidade no cinema norte-americano, afinal, o protagonista é uma figura masculina em crise diante de uma cultura que já não oferece muitos espaços para sujeitos fora dos padrões de masculinidade sustentados por esse imaginário. Reichardt também filma o personagem com um esvaziamento curioso, retratando-o como um pai de família suburbana incapaz de produzir força de trabalho ou rebeldia de maneira efetiva. O roubo das obras de arte surge justamente como materialização desse esvaziamento, como tentativa frustrada de rebeldia sem um objetivo político ou financeiro evidente.
É importante notar como a trilha sonora, cuja presença no filme é persistente desde os primeiros minutos, torna-se uma espécie de representação sonora da relação entre forma e conteúdo construída por Reichardt. O cool jazz de Rob Mazurek, interpretado por Chad Taylor na bateria, atua diretamente como elemento estrutural da encenação. As batidas de Taylor, com tempo quebrado, fragmentadas e irregulares, criam a sensação de um ritmo que nunca se resolve plenamente, refletindo o que está em construção nas imagens: um filme que, a cada cena, distancia-se mais de sua estrutura narrativa para caminhar em direção à abstração.
A própria Reichardt menciona em entrevista algumas referências que apontam para a direção semelhante: os cinemas de Jean-Pierre Melville e Monte Hellman. Dois autores que, como Michelangelo Antonioni e outros, filmavam entre as décadas de 1960 e 1970, período em que a história é ambientada, e materializavam em suas imagens uma sensação de desolação e perda de rumo captada no mundo naquele período. De Melville, pode-se destacar a estilização visual, a dilatação temporal, os enquadramentos abertos e a ação que transcorre em ritmo desacelerado. De Hellman, além das características citadas acima, o trabalho com a paisagem americana e a transição da narrativa clássica para a experimentação moderna.
A fuga em The Mastermind, como em Two-Lane Blacktop (Hellman), não conduz à liberdade nem a alguma conquista, sendo concluída com um deus ex-machina ao mesmo tempo trágico e irônico - o cassetete que repentinamente invade o quadro para acertar o fugitivo, resultando em sua prisão por engano enquanto cruzava uma manifestação por direitos civis. Reichardt conclui a tentativa de fuga com uma espécie de alegoria da própria decadência ideológica dos EUA, uma nação que forjou sua identidade sobre narrativas falseadas e agora tenta, em vão, escapar de si mesma. Se o american dream é a ilusão do sucesso individual sobre o bem-estar coletivo, The Mastermind termina como o avesso dessa crença, pesadelo sobre uma cultura em constante negação da própria falência.















