Como todo fã de Avatar, fui assistir ao último — quero dizer, o mais recente — filme da franquia com a expectativa lá em cima. Depois de 13 anos de espera entre o filme original e a sua continuação, uma espera de 3 anos entre o segundo e o terceiro filme parecia apenas um cochilo no meio da tarde.
A minha sensação, porém, foi a de acordar do cochilo da tarde e perceber que ainda estava no mesmo filme. “Avatar: Fogo e Cinzas” (Avatar: Fire and Ashes - 2025) de James Cameron infelizmente não trouxe nenhuma novidade criativa, não foi o terceiro ato de uma história épica, e, para ser sincero, nem percebi uma grande evolução tecnológica. Tudo bem, talvez já tenhamos nos acostumado tanto à riqueza de detalhes e efeitos da franquia Avatar que nada mais nos surpreende.
O filme original “Avatar” de 2009 foi, sem dúvida alguma, um marco na história do cinema. Um daqueles momentos de transição vistos em poucos filmes nos mais de 100 anos dessa maravilhosa arte.
O primeiro filme que mudou o rumo da nova arte que nascia foi “Viagem à Lua” (Les voyage dans la lune — 1902) de George Méliès, quando o cinema descobriu que podia ser uma arte narrativa, ficcional, e não apenas um documento da realidade, uma fotografia em movimento. Apenas sete anos após a primeira exibição do cinematógrafo dos irmãos Lumière, o cinema encontrava seu destino, um misto de arte, tecnologia e entretenimento.
Tal como James Cameron, George Méliès foi um pioneiro e mestre na ilusão, entendeu desde cedo o mecanismo do cinema, sua engenharia e sua arte, e utilizou como ninguém a tecnologia que surgia para produzir emoção e espanto. Ele explorou os limites da técnica, sendo considerado o pai dos efeitos visuais. Tudo aquilo que admiramos em Avatar, Vingadores, Star Wars e todos os filmes onde os efeitos são elementos fundamentais da narrativa nasceu com Méliès. Aquela viagem à Lua, tosca para os dias de hoje, foi um avanço na época comparado ao CGI 3D dos Avatares de hoje.
É curioso notar que os grandes pontos de virada na história do cinema têm origem em avanços tecnológicos. Não me refiro aqui à evolução da linguagem cinematográfica, aos avanços nos temas tratados, ao aperfeiçoamento da interpretação, da narrativa, a todos esses elementos que nos conduziram ao cinema como o conhecemos hoje. A tecnologia, por si só, foi um fator determinante para a construção do filme e sua evolução artística.
Entre esses grandes avanços, talvez o som tenha sido o mais determinante. O advento dos filmes falados pôs fim a toda uma era, até então de ouro, do cinema. A indústria se consolidava, o culto aos astros e estrelas das telas se firmava, e de repente tudo se desintegrou com “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer - 1927), o primeiro filme a sincronizar imagem e som na projeção. Era a história do jovem cantor judeu preso entre as tradições religiosas e o sonho de tornar-se um cantor de jazz. Um estrondoso sucesso na época, que levou todos os estúdios a correrem atrás de produzirem filmes falados. É um período magistralmente bem retratado no filme “Cantando na Chuva” (Singin´ in the Rain) de 1952.
Sendo o cinema uma arte primordialmente visual, a fotografia ou cinematografia evoluiu a passos largos desde a sua invenção. A evolução tecnológica de câmeras, lentes e principalmente películas foi uma verdadeira corrida, o que levou diversos inventores, cientistas e estúdios a desenvolver seus padrões até os dias de hoje. A introdução da cor nos filmes foi outro desses pontos de virada na história do cinema. Desde os primórdios tentou-se colorizar os filmes. O próprio Georges Méliès experimentou colorir seus filmes à mão, fotograma a fotograma. Muitos processos surgiram e desapareceram ao longo do tempo.
Embora não haja um único filme que possamos definir como o marco inicial do cinema em cores, o final da década de 30 do século XX foi o período em que 3 filmes se destacaram e mudaram o panorama do cinema. Em 1937, Walt Disney apostou tudo no seu primeiro longa-metragem: “Branca de Neve e os Sete Anões” (Snow White and the Seven Dwarfs - 1937) totalmente em cores, e em 1939 dois outros filmes entraram para a história e marcaram de vez a transição para as cores: “E o Vento Levou” (Gone With de Wind - 1939) e “O Mágico de Oz” (The Wizard of Oz - 1939). A partir daí, começamos a ver o mundo no cinema em cores.
A fotografia em preto e branco não morreu, continuando a existir como meio e como elemento de linguagem. Muitos dos grandes clássicos do cinema nas décadas seguintes foram filmados em preto e branco. É difícil de imaginar hoje filmes como “Cidadão Kane”, “Casablanca”, “Psicose” ou “A Lista de Schindler” em cores. Até 1967, inclusive, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas distinguia o Oscar de Fotografia entre filmes em cores e filmes em preto e branco.
Os efeitos visuais merecem um capítulo à parte, porque transformaram por completo o que percebemos hoje como um filme. Um dos grandes filmes, um clássico do cinema, que conseguiu nos transportar com realismo para outros mundos através dos efeitos visuais, foi “2001: Uma Odisseia no Espaço” (2001: A Space Odyssey - 1968) de Stanley Kubrick. Só a partir deste que foi possível a existência de filmes como “Guerra nas Estrelas” (Star Wars - 1977), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (Close Encounters of the Third Kind - 1977), “Alien” (Alien - 1979), “Blade Runner: O Caçador de Androides” (Blade Runner - 1982) e todos os filmes de sci-fi, incluindo grande parte da filmografia de James Cameron. Pois é, o ciclo se fecha e voltamos a Avatar.
Mas antes, destaco outro filme marcante que, na sua época, revolucionou os efeitos visuais e praticamente definiu o modelo para os filmes que viriam a seguir. Quando o diretor Steven Spielberg viu os primeiros testes de imagens de dinossauros geradas por computador correndo num campo, tudo mudou. Ele nos entregou o primeiro filme em que os efeitos visuais de CGI (Computer Generated Images) alcançaram um realismo impressionante. “O Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park - 1993) foi um êxito comercial, artístico e tecnológico, iniciou a febre dos dinossauros e uma franquia bilionária. Daí por diante, o cinema foi dominado por filmes com efeitos de CGI, de monstros, de super-heróis, mundos fantásticos, e uma corrida pelo desenvolvimento dessa técnica se iniciou, com diversas empresas investindo milhões em pesquisa e desenvolvimento de imagens por computador.
James Cameron, o realizador de Avatar, criou sua própria empresa de efeitos digitais em 1993, chamada de Digital Domain. Além de criador de cinema, Cameron é um cientista nato, obcecado pela pesquisa e pelo desenvolvimento de tecnologias de fotografia, captação de imagens em 3D, efeitos visuais digitais. Já em 1997, ele recriou, em parte digital, parte física, o Titanic e produziu um dos maiores sucessos do cinema de todos os tempos. Em paralelo, ele já vinha desenvolvendo o filme original da série Avatar.
Mais uma vez ele impressionou a todos, com um filme onde efeitos digitais, captura de movimentos por atores reais e fotografia 3D convergiram para contar uma história fantástica, ambientada num planeta distante, Pandora. Tudo neste filme era tão original, criativo e detalhado que a própria história em si ficava em segundo plano. Não que não fosse boa. Era uma boa história, nada muito original, mas contada de uma forma absolutamente brilhante. Avatar ainda é, até hoje, um espetáculo visual. Não há nenhum filme, anterior ou posterior, que se compare ao que Avatar entregou. Cameron simplesmente criou um mundo seu, um planeta com sua própria física, ecossistema, seres vivos, espiritualidade. O resultado é lindíssimo. Até hoje eu considero o melhor dos 3 filmes da franquia.
Treze anos mais tarde, em 2022, chegou às telas “Avatar: O Caminho das Águas” (Avatar: The Way of Water - 2022). A longa espera havia terminado e fomos mais uma vez recompensados com um espetáculo visual arrebatador, sobretudo nas cenas subaquáticas. O terceiro filme que ele nos apresenta agora, “Fogo e Cinzas”, é um déjà-vu do “Caminho das Águas”. Não houve um tempo tão grande assim para notarmos um significativo avanço tecnológico e, sem este elemento surpresa, nos prendemos mais à história. Uma pena, porque aí reside o problema de toda a franquia. Este último talvez tenha o roteiro mais fraco dos três, e isso fica muito evidente. As cenas de ação são extremamente bem coreografadas, captadas e editadas, mas a falta de uma narrativa plausível e evolutiva da série acaba por vir à tona.
A franquia Avatar tem méritos inegáveis. O filme original pode ser considerado um clássico do cinema contemporâneo, mas a série, mesmo que tenha sido pensada como tal, não se sustenta. Se compararmos com as trilogias de Star Wars (original) e “O Senhor dos Anéis” por exemplo, estas foram concebidas ou adaptadas como histórias em 3 atos (filmes), onde cada filme funciona como uma história única, e como parte de uma história maior. Só temos a dimensão desses universos ao assistirmos aos 3 filmes de cada. Isso não acontece com Avatar. O filme original é incrível, mas os dois que se seguem são continuações simplesmente aproveitando o universo criado. Não há uma expansão de personagens, arcos narrativos, evolução de personagens, o que seria de esperar de uma boa série. Se não há uma história maior a ser concluída num terceiro filme, poderíamos esperar um desdobramento do conceito original. Uma pena! Não é o que acontece.
Valeu a pena assistir a “Avatar: Fogo e Cinzas”, menos como filme e mais como um entretenimento. Valerá assistir a uma quarta ou quinta história de Avatar, conforme o plano de James Cameron? Sinceramente, tenho dúvidas. É claro que o sucesso comercial fala mais alto. Este terceiro filme já está a bater a marca de um bilhão de dólares em bilheteria. Ainda assim, fica o desejo de que Cameron utilize esse êxito para criar algo verdadeiramente novo.














