Etimologicamente, tabique , sendo um nome, implica uma acção, a de ajustar uma coisa a outra, uma1 matéria, argila ou terra, que a outra se junta, madeira nessa ideia de construir e reconstruir um abrigo. No percurso de Rita Gaspar Vieira (RGV) o verbo não é (só) o início, é em si mesmo matéria e processo. A acção de manufacturar o papel, a acção de o verter sobre uma superfície, a ação de resgatar a memória de um lugar e de um tempo. É o papel que, em estado líquido, se ajusta ao chão, o algodão que modela objectos de uso diário, essa tal membrana que une dois espaços, recorrendo à água como elemento essencial e vital. É o devir como exercício de memória que em muito caracteriza a prática artística de RGV.
Tabique traz-nos o chão do seu atelier a partir do qual se revelam as texturas e as fissuras, em composições cromáticas em o negro do grafite e o verde do sulfato de cobre, ausência / presença entre o que continuará no pavimento e o que se transforma em objecto artístico. Porém, sobre esta superfície sedimentada pelo uso e labor quotidianos, são colocados ninhos, miniaturas de tabiques encontrados na Natureza e registados no contexto do atelier de RGV, nesse mesmo soalho que os veio a transformar de coisa em imagem em desenho. Um processo que se repete nas suas inúmeras variações de cromatismo, de forma, de tempo. Um ninho que pode ser simples, elementar, recorrendo a elementos naturais e recuperando o que já existe, nessa dialética de construção / reconstrução. Um mesmo ninho que, subtil e metaforicamente, acolhe cada um de nós, e que, como tal se enseja perene e seguro, daí a intenção de RGV musealizá-los ao recorrer a suportes de exibição de museu.
Caídas de uma nogueira, a artista resgatou inúmeras cascas dos seus frutos que, nesta exposição, surgem como metáfora do abrigo. A noz como uma espécie de tabique natural que nas suas cavidades pode acolher animais ou, mais ainda, a memória de algo que já não está. «Abrigo (para o que não tem nome)» inicia e reinicia o percurso expositivo, recuperando a rapariga dos óculos escuros de «Ensaio sobre a Cegueira» de José Saramago: «Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.».
(Texto de Ana Matos. Abril de 2026)
Notas
1 Do árabe taxbīk, «coisa ajustada a outra», in Infopedia — Dicionário online da Porto Editora.















