Se nos escorressem, ficaria bem pouco.

(Yayo Herrero)

Eva Díez olha o entorno como quem conta um relato científico. Ou será um mergulho? Trata-se de um respiro. Um preparo. Tudo ao detalhe. Como só a atenção pode ser.

Para esta nova exposição na Salgadeiras Arte Contemporânea, Eva Díez traz-nos um cruzamento entre séries fotográficas: resonancias, o centro é un movemento perpétuo, piel, e fotografias ainda sem título, ligadas pelo número 83. Número esse que é pergunta e percentagem aproximada de água no cérebro humano, e que aqui transborda as suas águas para se transformar em pensamento de interdependência que atravessa a exposição. Como respirará toda a água que temos no corpo para nos sustentar? Para o entender, nada como voltar ao mesmo lugar e rever águas aparentemente estagnadas, convivendo em ritmo mínimo, a pulsar. Como princípio, Eva Díez está nessa comunhão entre a paisagem e a sua subjetividade para prestar atenção às cianobactérias - contendo a invisibilidade da memória do planeta. Onde caberá a sua fotossíntese? Respiremos agora o oxigénio, vivos, estando tudo em relação.

«Respirando o entorno» começa por voltar ao ressoar de águas, lado a lado com o centro é un movemento perpétuo, em que a fragilidade do papel de arroz nos faz sentir esse movimento quase imperceptível, em diálogo com a vida das resonancias. Não se trata aqui de um projecto sobre natureza, lembra-nos Eva Díez, é sobre como aquilo que acontece fora ressoa dentro. Nessa fronteira está também a série piel, onde se abrem outras paisagens. Aqui, essas paisagens estão danificadas e surgem como feridas feitas pela ação humana. São esses outros gestos que Eva Díez nos lembra, revelando a sua presença com tinta fosforescente. É lembrança de uma resistência poética, em que também ela é sujeito ligado, eco latente, vibração antiga trazida para o presente. Haverá mistérios que só podem ser pensados em companhia, como essa soma de gestos, na dádiva de um céu aberto, para dentro?

(Texto de Rui Dias Monteiro. Fevereiro de 2026)