Num primeiro olhar, as pinturas apresentadas por Jiôn Kiim em Grass pillow1, parecem convocar o universo vegetal e natural-não temos bem a certeza. Esse princípio de incerteza que se cola à sombra do nosso olhar, é um dos aspectos a sublinhar do corpo de trabalho apresentado por Kiim.

Seguindo uma corrente de ar, ou os ecos possíveis da expressão utilizada como título da exposição, Grass pillow incorpora em si o princípio daquilo que não é fixo, e por isso, acolhe um paradoxo. Podemos pensar em qualquer coisa que descansa (o corpo, porventura), sobre uma outra coisa que toma para si a forma daquele que descansa (a erva). Após esse momento - de pausa-, a erva passa já a ser outra coisa, tomando outra forma na ausência do corpo. Se a esta equação adicionarmos os efeitos dos elementos naturais, sobretudo do vento, notamos que a erva toma a instabilidade como princípio. A forma, assim entendida, passa a ser um momento, o que nos leva a reflectir sobre a relação entre percepção e a qualidade temporal inscrita nas pinturas aqui apresentadas.

Tal como a erva que acomoda um corpo e que em seguida muda de forma, estas pinturas preservam esse princípio na relação com o corpo e o olhar daquele que diante delas se coloca - não há uma certeza sobre o que vemos, existem, sim, intuições e sensações, o que nos leva a um dos eixos de força do trabalho de Jiôn Kiim: trata-se de uma pintura em que o olhar que sobre ela lançamos nos é devolvido, espalhando-se depois pelo nosso corpo sensível. Mais do que ver e decifrar, joga-se nestas pinturas um convite a uma amplitude de sensações, e aí reside a mestria do trabalho de Kiim-diria que se trata de uma pintura com vontade; a vontade de se instalar dentro de nós, pincelando e colorindo aquilo que de mais íntimo guardamos, agitando-o, como uma rajada mansa de vento que nos embala os sentidos e os sentimentos. É uma pintura demorada e que faz do tempo uma celebração, uma festa de cor e movimento que nos empresta significado para isto de se ser humano.

Também é sobre isso que escreve Natsume Sōseki, em Kusamakura, um livro que nos oferece desvios situados nos pensamentos de uma personagem que, na primeira pessoa, nos conduz na sua jornada e naquilo que pelo caminho vai encontrando. Entre a contemplação de elementos naturais e humanos, esta personagem debate-se com uma tensão que percorre a história da humanidade: e se em vez de nos perdermos nas dificuldades dos humanos, seus dilemas e sofrimentos, nos relacionássemos com o mundo numa perspectiva meramente contemplativa? Nas suas reflexões, Sōseki convoca obras da literatura mundial, estabelecendo uma relação entre estas e os sentimentos e dilemas humanos, como o sofrimento: "No play, however brilliant, is free from human feelings. Rare is the novel that transcends questions of right and wrong. The characteristics of these works is their inability to leave the world behind." (Sōseki 2008: 17).

A respeito desta premissa que orienta a escrita de Kusamakura, pode dizer-se que existem eixos de contaminação entre o livro e a pintura de Kiim, na medida em que mais do que conceptualizar a experiência, esta exposição é sobre vivê-la em acordo com o olhar num momento específico do tempo. Esse momento, passageiro, poderá vir a ser outra coisa, dado que a percepção e a imagem mudam de acordo com a variável temporal aliada à presença corporal. É em torno da percepção que a personagem de Kusamakura pretende estabelecer uma relação com o mundo, inclusive, com os elementos humanos: "The southern hills and bamboo groves of those ancient poems are of a different nature, of course; nor can I treat humans quite as I do the skylark and mustard blossom; but my ideal is to approach that state as far as possible and do all I can to view humans from its vantage point." (Sōseki 2008: 19).

As pinturas de Jiôn Kiim parecem partir de um ponto de vista semelhante, retendo parte do dilema natural, contemplativo; humano, artificio. Kiim escolhe pintar o que não tem nome - daí a necessidade de usar uma expressão, e não uma palavra, para "nomear" o corpo de trabalho que aqui nos apresenta. A expressão possui uma maior resistência à fixação. Se recuarmos a Kant, e à ideia de belo, o belo não é um conceito dado, sendo que somos nós, humanos, que "aspiramos a produzir o ideal de belo em nós" (Kant 2017: 137). Assim, a natureza e as suas propostas disformes - difíceis de nomear, embora belas - animam-nos o espírito, o que significa, ainda nos termos de Kant, que o belo não remete a conceitos, remete sim, ao sentimento dos sujeitos: "Não pode haver nenhuma regra de gosto objectiva, que determine através de conceitos o que seja belo. Pois todo o juízo proveniente desta fonte é estético" (Kant 2017: 136-137). Quer no belo e na natureza, assim como na pintura de Kiim, o elemento humano é parte da constelação. Ainda que Sōseki tenha o ideal de observar o mundo e os humanos somente como formas num quadro, a pintura de Kiim, homenageando essa postura, não se desliga quer da percepção, quer do sentimento que estas formas provocam no espírito humano. Diria que é função disso que esta pintura existe: ela é o resultado de um contacto íntimo entre o fazer-vários gestos e o sentir que os mesmos proporcionam, que como vimos, não são algo estável, não cabendo, por isso, num nome ou num conceito.

Penso em vibração, uma vibração autêntica. É que algumas destas pinturas são eufóricas, e o que de extraordinário acontece ao nosso olhar, e ao nosso corpo diante delas, é que a sua dança e euforia nos contagia. Ainda que confinadas aos limites da tela, estas pinturas remetem-nos para aquilo que de fora delas existe um mundo, que é em grande parte o nosso mundo privado, o mundo de cada um mesmo antes de falar, de partilhar e de fazer mais mundo. Estas pinturas convidam-nos a respirar momentos vivos que nos alimentam o espírito - que nos sustentam os dias.

Parafraseando Manuel António Pina, às vezes só queremos um sítio onde pousar a cabeça. Jiôn Kiim propõe-nos que esse lugar escape ao artificio humano, que seja a natureza a suster o nosso peso, o nosso mundo e silêncios, por um pouco.

(Texto de Rita Anuar)

Notas

1 Grass pillow (Kusamakura) é uma expressão que em japonês remete para as noções de "jornada", de "viagem", aludindo a uma intimidade do humano com a natureza.