Vivemos num mundo de imagens. As redes sociais definem o novo ecossistema através do qual nos movemos, uma paisagem mediática com influência à escala global. Produzir imagens hoje, através dos nossos smartphones, tornou-se tão fácil como respirar. De certa forma, habitamos um mundo osmótico feito de imagens que medeiam a nossa representação e compreensão da realidade. O mundo encontra-se globalmente ligado e representado por imagens, que produzem uma retórica das nossas ações. Essa retórica representa a nova realidade que habitamos e está incorporada nas nossas formas de comunicação. As ações representadas propagam-se para além do contexto em que são geradas, numa representação frágil, acomodada à estética direta e simplificada das redes sociais.

Perante um mundo em crise de valores éticos, observamos uma reação ágil por parte dos artistas contemporâneos que escolhem a comunicação baseada na imagem como estratégia para transmitir valores humanos e sociais.

Alfredo Jaar é um dos grandes protagonistas desta estratégia.

Nos séculos passados, os artistas eram os produtores de imagens para a sociedade; hoje, através das redes sociais, qualquer pessoa pode produzi-las. A obra de Jaar centra-se na política da imagem. Ao longo de todo o seu percurso artístico, o artista revela de que forma as imagens expõem as correlações internas e subjacentes a uma cultura, exprimindo atitudes, ética e os valores de uma sociedade. O seu trabalho torna-nos conscientes do poder das imagens.

Na sua primeira exposição individual em galeria em Lisboa, Jaar apresenta duas das suas obras mais emblemáticas na Galeria Francisco Fino, ambas constituindo uma declaração da sua poética e uma introdução ao público lisboeta.

O título da exposição tem origem numa das três obras apresentadas. One million points of light (2005) é uma imagem do Oceano Atlântico ao largo da costa de Luanda, em Angola. A água representa a vida, sendo o elemento mais importante do nosso planeta, sustentando todas as necessidades humanas, das mais básicas às mais complexas. Permite a alimentação, o comércio e a troca entre civilizações; é símbolo de regeneração. Para Portugal e para Lisboa, o oceano foi historicamente uma fonte de inspiração ao longo dos séculos. A imagem do oceano captada pelo artista, com os reflexos da luz solar, é de uma grande beleza; o reflexo do sol oferece-nos uma imagem perfeita da vida na Terra.

No entanto, esta é também uma imagem que invoca uma profunda reflexão, recordando os 14 milhões de escravos africanos enviados para o Brasil pelos portugueses entre os séculos XVII e XIX, numa prática indizível que marcou a civilização ocidental dos últimos séculos como parte de uma ideologia de progresso, atribuindo a esta imagem bela um outro significado, profundamente perturbador. Esta imagem simples mostra instantaneamente milhões de vidas perdidas como cintilações à superfície da água, revelando o lado sombrio da chamada civilização ocidental. A fotografia denuncia esta prática numa comunicação direta com o espetador, sem complacência e de forma sóbria. E é precisamente isso que nos transmite o núcleo da obra de Alfredo Jaar. Trata-se do oposto da eloquência da imagem. Desliga-a do circo do nosso sistema de comunicação. Liberta-a de qualquer amplificação gerada pelo sistema, permitindo-lhe colocar ao espetador uma interrogação silenciosa, que revela o seu verdadeiro significado, nascido de um apelo à humanidade.

A outra grande obra da exposição é The sound of silence (2006), uma peça icónica na qual o artista apresenta uma curta-metragem em torno de uma fotografia de Kevin Carter, fotojornalista distinguido com o Prémio Pulitzer, representando uma criança vítima da fome observada por um abutre ameaçador. A instalação encontra-se contida no interior de um grande volume, um teatro construído para uma única imagem, cujo acesso é controlado por uma luz verde e vermelha.

A extraordinária precisão e sensibilidade com que o artista trata esta imagem conferem-lhe uma profundidade que não é apenas social ou comunicacional, mas antes um conjunto de valores — respeito, igualdade e, em última instância, humanidade. A obra considera a vida humana como o valor supremo da nossa condição enquanto seres humanos neste planeta. Jaar não representa simplesmente algo; oferece-nos uma perceção imediata do valor mais importante: a vida.

Noutra obra, o artista apresenta uma afirmação simples atribuída a Ansel Adams: “You do not take a photograph. You make it” [Uma fotografia não se tira, faz-se]. Observar a capacidade do artista para transmitir imediatamente um valor é essencial para entrar na sua obra. O processo de Jaar consiste em escolher uma única imagem, carregála de todas as expetativas e interrogações de que é veículo, e permitir que a própria imagem fale poderosamente por si mesma. De certa forma, poder-se-ia dizer que a imagem arde nos olhos do espetador, permanecendo apenas as cinzas do valor que transmite.

Ao mesmo tempo, a obra constitui uma crítica poderosa a toda uma visão da sociedade — uma sociedade que permite que a fome e a escravatura continuem a existir no presente, num mundo submerso em conflitos e violência.

Neste processo, a obra de Alfredo Jaar despoja (ou desmantela) a estética enquanto retórica da imagem, alcançando a sua essência ética; para o artista, a ética é a estética da imagem.

(Texto de Maurizio Bortolotti)