Faço perguntas sobre perguntas.

(R. M. Rilke, Histórias do bom Deus)¹

...tente amar as próprias perguntas como se fossem salas fechadas ou livros escritos numa língua muito diferente das que conhecemos. Não procure agora respostas que não lhe podem ser dadas porque não as pode viver. E tudo tem de ser vivido. Viva agora as perguntas.

(R. M. Rilke. Cartas a um jovem poeta)²

Retirar a gravidade à queda é uma exposição que surge de uma pergunta sobre uma pergunta. Ou várias perguntas sobre uma pergunta. Ou talvez, uma pergunta acerca de várias perguntas. A origem é a dúvida. E a dúvida é um lugar por si só.

Perguntar – tratando a pergunta não como algo a ser resolvido, mas como algo a ser vivido – é habitar esse lugar da dúvida e demorar-se nele. Voltar a ele, também. Para isso, é preciso tentar amar a incerteza; pois somente tentando amar a incerteza se habita o mistério.

Pergunto-me se habitar esse lugar da interrogação é tornarmo-nos nós próprios a interrogação; se é deixarmos que a pergunta se experiencie a si própria através de nós, sabendo que a experiência é a pergunta e a pergunta é a experiência; se é emprestar o corpo à dúvida, sabendo que isso é um acto de entrega. Pergunto-me se habitar esse lugar é permitirmo-nos entrar num campo de forças que se repelem e atraem de igual modo, num estado de vigilância total; se é abrirmo-nos a todas as possibilidades, sabendo que nesse lugar o infinito ainda é possível; se é permitirmo-nos experienciar um tempo suspenso, onde a queda não tem gravidade. Pergunto se amar a incerteza ao ponto de vivê-la é um apelo à claricognição, ou saber-claro, pois aquilo que estamos dispostos a entregar, a experienciar, a emprestar, a entrar, requer uma confiança que transcende a lógica. Requer saber claramente o que não se sabe, sabendo.

Retirar a gravidade à queda é uma exposição-convite. Um convite para tornarmo-nos nós próprios a interrogação, um convite para duvidar.

(Texto de Carolina Serrano)

Notas

1 Rilke, Rainer Maria – Histórias do bom Deus. 1.ª ed. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2008. ISBN 978-989-552-373-3. P.35.
2 Rilke, Rainer Maria – Cartas a um jovem poeta. 1.ª ed. Vila Nova de Famalicão: Edições Quasi, 2008. ISBN 978-989-552-388-7. p. 35.