Em Eis-me, sou uma poeta, irei ao entardecer, Manuela Pimentel aborda a figura da poeta não através da escrita, mas através das imagens. A sua obra propõe uma forma de olhar que procura a beleza, o mistério e a possibilidade de renovação naquilo que muitas vezes passa despercebido. Ao tomar algo inerentemente efémero, o cartaz publicitário, e transformá-lo numa forma associada à permanência e à memória cultural, a artista cria um conjunto de obras que existe entre a preservação e a reinvenção. Perante um mundo saturado de imagens e informação, convida-nos a parar, observar atentamente e descobrir o que permanece escondido sob a superfície das coisas.

Através deste processo de transformação, Pimentel recontextualiza fragmentos visuais familiares, permitindo que vestígios do quotidiano urbano adquiram novos significados para além da sua função original. Camadas de papel, textura e cor tornam-se veículos de memória, revelando o potencial poético contido em materiais habitualmente ignorados ou descartados. Em vez de documentar a realidade, as obras propõem um encontro intuitivo com as imagens, onde a ambiguidade e a imaginação se sobrepõem à certeza.

A exposição reflete sobre a forma como as imagens moldam a nossa perceção do tempo, do lugar e da experiência coletiva, sugerindo que os atos de preservação podem também tornar-se atos de criação. Ao elevar materiais transitórios à condição de obras cuidadosamente compostas, Pimentel explora a tensão entre desaparecimento e permanência, propondo simultaneamente um novo olhar sobre a paisagem visual que nos rodeia. Eis-me, sou uma poeta, irei ao entardecer celebra, assim, o poder transformador do olhar, convidando o público a redescobrir o extraordinário no quotidiano.