As histórias que nos acompanham e de que nos lembramos quando saímos de casa na sonolência da manhã, para começar o dia, contam-nos como é a vida. Explicam-nos como funcionam a amizade, o amor, a parentalidade. Descrevem-nos como se trabalha, como se goza, como se dorme. Ensinam-nos o gosto, a sorte e o azar.
A mesma história que nos desvenda o desejo também nos explica, baixinho, que, quando se entra numa frutaria para comprar um quilo de maçãs golden, se vai tocar delicadamente em cada uma até escolher as mais rijas do cesto, e que isso é o mesmo que manifestar o desejo pelos outros corpos, e que muitas vezes não se sabe como dizer ou fazer melhor.
Se a vida pudesse mudar de nome para ser outra e não esta, talvez escolhesse mesmo mudar a sua palavra. Fá-lo-ia como um reset, porque repete insistentemente não ter dinheiro nem tempo para terapia. E esta escolha não seria simples, e todos a questionaríamos por esta alteração radical, tão sua, por ser assim, egoísta e pessoal.
Tal e qual a porta azul do quarto de dormir, que teima em luzir amarela quando se comem ovos escalfados à noite lá em casa. Ou o chão de pinho castanho da sala de jantar, que reflecte verde nos momentos em que se fala do prado infinito da aldeia.
Desta mesma forma, se a vida pudesse mudar a sua palavra, chamar-se-ia, por exemplo, balão, e assim seria quase sempre cheia, porque os balões só se vêem cheios. E nós diríamos: adoro o meu balão, ou como vai o teu balão? e até: tens de organizar o teu balão. Ou, então, nomear-se-ia agulha, porque se vê rara e difícil de encontrar, e até se ouviria dizer: ai a minha agulha, ou mete-te na tua agulha!
Pegando na estratégia da vida e aplicando-a ao resto dos balões e das agulhas, talvez a única forma de reorganizar os desgostos do mundo fosse trocar-lhes os nomes e as palavras, de maneira que ninguém mais os reconhecesse pelos originais e, assim, a História ficaria resolvida para sempre.
É a posta em acção de uma espécie de direito ao esquecimento, mas sem burocracia. E, no caso de haver um gabinete de especialistas em direito ao esquecimento, cuja edificação seria urgente, tendo em conta o número de desgostos globais que se têm de acompanhar e resolver, este gabinete seria composto pelas melhores pintoras e pintores do mundo, capazes de criar as imagens da vida nova, porque realmente ninguém sabe o que apareceu primeiro: o Mundo ou a Pintura.
As pinturas e os desenhos de Bárbara Faden entregam a sensação de imagem seminal, início do mundo. Reconhecem-se elementos comuns, familiares, como folhagens, águas e ventos, belos pela sua simplicidade estrutural e estatuto de natureza, mas também se inauguram símbolos que, desconfiamos, carregam em si a possibilidade de outras naturalidades, capazes de redistribuir o desejo.
O que significa que não sabemos o que vem primeiro, se o mundo ou as imagens de Faden. Oscila-se entre a sensação de estarmos perante imagens originais e imagens-representação. Nas primeiras, o cumprimento do mundo novo tranquiliza-nos ante a surpresa de que, sim, há energia para a vertigem das mudanças estruturais que vêm. As segundas abraçam-nos pelo conforto querido e legítimo de aceder à paisagem maternal, fundadora.
É que a Pintura, ao contrário da vida, não pretende mudar de nome, porque a pintura, quando se vê, já não tem passado para resolver e entrega-se assim a nós, para nossa sorte, em regime de presentismo integral.
(Texto de Filipa da Rocha Nunes, fevereiro de 2026)















