As infinitas formas de uma mesma coisa.
Ao longo de décadas de trabalho, Márcia Xavier tem regressado repetidamente ao corpo.
Não ao corpo como retrato ou representação, mas ao corpo como matéria de transformação. As mãos, os membros fragmentados, as silhuetas, os vestígios fotográficos e as presenças fantasmáticas que surgem recorrentemente na sua obra parecem constituir um mesmo organismo em permanente mutação. Em Fotossíntese, esse processo expande-se para além do humano e aproxima-se do mundo vegetal, revelando continuidades profundas entre formas de vida que habitualmente pensamos como separadas.
Quando Goethe escreveu A Metamorfose das Plantas, procurava uma forma de olhar para a natureza que escapasse à lógica da separação e da classificação. Fascinava-o a ideia de que uma folha pudesse conter virtualmente todas as outras formas da planta e que o crescimento não fosse mais do que uma sucessão de transformações de um mesmo gesto original. Há algo dessa visão nas obras de Márcia Xavier.
As figuras que habitam Fotossíntese parecem existir num estado intermédio, antes de se tornarem definitivamente corpo ou imagem. Cada forma contém a memória de outra e anuncia já a seguinte. Mais do que um conjunto de obras sobre plantas, a exposição propõe uma reflexão sobre a metamorfose como condição partilhada por todos os seres vivos, aproximando-se da intuição goethiana de que a vida não é feita de entidades isoladas, mas de infinitas variações de uma mesma força criadora.
















