The eye is always moving.

(David Hockney)

A paisagem tem vindo, de há um tempo a esta parte, a habitar a pintura de Marta Ubach. Se em Da torre foram os silêncios e a contemplação dos lugares por onde ressoavam as palavras de Alexandre Herculano, já em Não sei quem são, mas são os de sempre foram as folhas prensadas sobre a terra que registaram a existência da paisagem.

Desde a sua primeira exposição, em 1998, sempre nos habituámos à sua figuração peculiar, entre a estranheza e o quotidiano, a inquietação e a contemplação, o visível e o difuso. Este seu universo pictórico foi estando, muitas vezes, em diálogo com a História, a de Arte e a das civilizações, o Património, a Literatura num cruzamento de geografias, de referências artísticas e literárias.

Em A montanha, Marta Ubach não nos traz, ou, pelo menos, não nos revela (?), estes seus personagens. A paisagem surge por si só, inteira, plena, sem moradores, ocupantes ou visitas. Não sei onde estão, quase que apetece parafrasear. Nesta exposição, a artista joga com as perspectivas, incutindo nestas paisagens um certo cariz abstracionista ou até mesmo cubista pela justaposição de pontos de vista.

Há como que camadas que ora se sobrepõem, ora divergem, ora se vislumbram, no centro de tudo o olhar perscrutante, afinal «Ver é tudo o que ocupa a pintora Marta», dizia Tiago Salazar. A cor e a composição dão a estas paisagens uma simbiose de horizontalidade e verticalidade: a cor dá-lhe a plenitude do horizonte, enquanto o traço une a terra ao céu. Em nós fica essa ilusão que sobrevoamos estes vales e declives, ao sabor do vento. No final da viagem, diríamos: eu vi a montanha.

(Texto de Ana Matos. Junho de 2026)