Havia um tempo, um tempo que se perdeu no fundo do baú da infância. Em que o banco de trás do carro dos nossos pais era o lugar mais seguro do mundo. Não havia cinto que nos apertasse os sonhos, nem GPS que traçasse o caminho do que íamos sentir. Era ali, naquele retângulo de tecido gasto e cheiros misturados (a casaco molhado, a pacote de bolachas meio aberto, a perfume da mãe) que se adormecia com uma confiança absoluta no Universo. Não sabíamos as direções, os nomes das estradas ou o porquê das curvas. Apenas sabíamos que o pai estava ao volante e a mãe talvez cantarolasse baixo com o rádio, enquanto a cidade ou o campo passavam ao nosso lado como um filme mudo.

Lembro-me também que os dias chuvosos nos podiam proporcionar atividades lúdicas. O vidro embaciado servia como uma folha branca, onde desenhávamos círculos com o dedo ou então imaginávamo-nos num video-clip mais melancólico, enquanto olhávamos por entre os pingos da chuva marcados no vidro. Por vezes, acordávamos só por uns momentos, meio anestesiados, meio confusos, com o carro parado num semáforo ou numa bomba de gasolina e víamos o rosto do nosso pai iluminado pela luz vermelha, sério, concentrado, como se estivesse a conduzir o mundo inteiro. Depois voltávamos a adormecer sem fazer perguntas, porque a cabeça pesada não deixava.

Outras vezes, havia discussões sussurradas entre os bancos da frente, palavras que não percebíamos, mas que nos chegavam como ecos distantes, misturados com o som do motor. E esse som do motor, misturado com o ritmo da estrada, era a nossa canção de embalar ou então algum êxito dos anos 80 e talvez por isso o meu gosto musical tenha sido tão influenciado pelos grandes clássicos desta era. E adormecíamos com a cabeça encostada à janela, o corpo enrolado como se coubéssemos inteiro no espaço entre dois mundos: o da vigília e o do sonho.

Naquela altura não tínhamos preocupações com o preço do combustível, com as manutenções obrigatórias nem com os mapas da vida adulta. O tempo tinha algum tipo de lag, passava sem pressa e não sentíamos a pressão do imediato. As viagens não eram medidas em quilómetros nem em minutos, mas na distância entre dois ou mais sonos. Podíamos sair à noite e acordar já de dia, como se o mundo tivesse avançado sem nos pedir licença, um género de fast-forward arcaico, mas funcional. Hoje, cada minuto é contado, cada atraso pesa, cada trajeto é uma equação de eficiência e cada momento é parametrizado pelo digital. Lembro-me também que não faltavam as perguntas clássicas: “Ainda falta muito?”; “Onde é que vamos?”. Mas “nos passeios grandes”, o que me interessava mais era a hora do lanche. “Mãe, já é hora de lanchar?”; “O que trouxeste para lanchar?”; “Trouxeste aquelas bolachas que costumas trazer?”. Aquela pequena motivação da certeza do lanchinho no banco de trás amortecia levemente a minha impaciência de não saber o destino ou o tempo restante para acabar a viagem.

Os carros não eram símbolos de status nem extensões da ansiedade. Eram apenas barcos que levavam crianças sonolentas de uma margem para a outra ao navegar da noite e havia uma confiança inabalável em tudo: que chegaríamos a casa e que alguém nos pegaria ao colo sem nos acordar ou fingíamos dormir para que fossemos a flutuar para a cama. O mundo era um lugar onde se podia adormecer sem medo.

Hoje, já em adultos, olhamos para os bancos de trás com nostalgia. São agora locais de transporte de mochilas, de silêncio apressado, de crianças nossas que talvez, quem sabe, ainda adormeçam como nós um dia adormecemos. Ou então levamos um patudo sonolento, depois de uma corrida intensa no parque atrás das pombas, a dormir tão profundamente que só acorda já na última curva antes de chegar a casa.

Às vezes penso que talvez o que nos desarma seja perceber que não era o banco de trás que nos protegia, mas a ignorância tranquila de quem ainda não aprendeu a perder. Ali, naquele espaço pequeno, não sabíamos o que era o cansaço dos dias de adulto, nem o peso das decisões, nem a fragilidade das coisas que julgávamos eternas. Mas já não conseguimos regressar verdadeiramente a essa sensação, porque agora sabemos as curvas, sentimos os solavancos e lemos as placas com pressa. O banco de trás já não nos pertence.

E, no entanto, há noites em que num estacionamento qualquer, à beira-mar ou até numa estação de serviço, fechamos os olhos por um instante e quase conseguimos ouvir o motor antigo a ronronar, os faróis a riscar o escuro, a voz da mãe a dizer “já falta pouco” e o calor dos braços do pai que nos levava ao colo para a cama sem nos acordar. E nesse breve segundo, entre a vigília e a lembrança, voltamos a ser crianças. E é como se por um momento só, ainda coubéssemos nesse velho banco de trás, onde o mundo era pequeno e o sono sabia a eternidade.