—O vô… olha isso! Eles voam!
—Aham, voam sim. Fórmula 1 é joia!
—E esse barulhão?
—Vou aumentar o volume. O motor fica dentro da sala.
—Vô, a vó vai acordar…
—Se ela acordar, vamos ter que correr mais que os pilotos.
—Haha. Tá. Então vamos aquecer.
Essa conversa dominical permanece como um presente para mim. Não ocupa espaço, abrilhanta o tempo — de 1990 até hoje. Na casa de madeira, assoalho alto, janela pequena da sala, meu avô assumia o sofá como quem abre um templo. Exagerava detalhes, misturava datas, confundia nomes. A memória dele nunca foi precisa, mas sempre foi viva. Eu, pequeno, ficava ao lado, com a sensação infantil de participar de algo proibido e sagrado.
Na sala perfumada com cheiro de café passado, a TV com bombril na antena, tremia o chão de madeira pelo som do motor que invadia cada canto. Minha avó, ainda deitada, gritava cada vez que o volume aumentava:
—Vocês querem derrubar a casa?
Era piada pura. O trio formava um concerto com tilintar da chaleira: motores, risadas e broncas. Uma sinfonia doméstica que só fazia sentido ali.
Meu avô, que hoje conta histórias em algum canto do céu, oferecia muito mais do que corrida. Narrava personagens como quem conta causos na família, pistas como se fossem ruas do bairro, riscos como parte natural da vida. Não era professor; jamais teve vocação pedagógica. Tinha paixão; amava aquilo. E o amor transmitido sem esforço é um tipo raríssimo de educação.
Aquela sala virou meu primeiro autódromo. Sentado no chão de madeira que rangia a cada movimento, sentia a vibração da casa acompanhar cada ronco do motor — e minha paixão nasceu e atravessa décadas. Cada temporada deixa marcas e renova a mesma pergunta simples: o que virá na próxima volta?
Cresci, mas a busca por esse barulho nunca amadureceu por completo. Ainda tem algo juvenil nessa espera.
Com o tempo, passei a olhar para trás. Não por nostalgia social, e sim por curiosidade legítima: de onde veio esse fascínio que ainda me arrasta para a frente da TV?
Meu avô falava nomes como quem invoca entidades: Farina, Fangio, Lauda. Eu não entendia direito quem eram, só sabia que fizeram coisas grandes demais para caber em explicação curta.
Farina abriu caminhos de um mundo que ninguém sabia onde iria dar. Fangio, com cinco títulos em oito anos, parecia correr antes que os outros percebessem que a corrida tinha começado. Meu avô dizia que ele “sabia antes”. Não explicava como. Eu aceitava. Memória de criança aceita exagero como método.
Décadas depois, surgiam histórias que ele contava com outro tom. Quando falava de Maria Teresa de Filippis e Maria Grazia Lombardi, baixava a voz, como se contasse algo que o mundo ainda não sabia ouvir direito. Dizia que não deixaram espaço para elas, então elas entraram mesmo assim. Não discursava sobre preconceito. Apenas comentava que coragem não costuma pedir autorização.
O duelo entre Lauda e Hunt ele narrava como um caso mal resolvido. Dois homens opostos, ligados por respeito e disputa, vivendo num limite que não admitia meio-termo. Eu não entendia tudo, mas sentia o peso da história no jeito como ele falava.
Essas figuras deram forma à Fórmula 1, mas foi naquela sala que ela ganhou sentido. Cada uma deixou um clima, um caráter, uma maneira de estar na pista. Ainda assim, nenhuma presença se impôs mais do que meu avô naquela sala. Ele era narrador parcial, comentarista enviesado, guia afetivo. O resto vinha depois.
A Fórmula 1 mudou. O passado invade o presente em forma de dados, gráficos, sensores. Hoje, o carro confessa tudo: temperatura, pressão, erro, ansiedade. O curioso é que, mesmo cercado de telas e números, o coração ainda reage como antes, analógico. A lembrança insiste em sentar no assoalho rangente.
A temporada de 2025 trouxe intensidade, disputa, emoção até a última prova. Verstappen, teimoso e veloz como sempre, recusou qualquer possibilidade de entregar o campeonato. Norris atacou com a maturidade que finalmente alcançou talento. Piastri mostrou serenidade de veterano no âmago do corpo jovem.
Os três chegaram à última corrida colados. Norris ganhou o título por dois pontos. Dois pontos: distância microscópica e estado emocional de léguas.
Meu avô comentaria tudo isso sem planilhas, dados, gráficos. Erraria nomes, misturaria episódios, discordaria de mim por esporte. Não importava concordar. Importava o prazer da conversa. Imagino sua reação diante da obsessão atual por centésimos de segundo. Torceria o nariz ao ouvir que uma fita adesiva na largada pode interferir no alinhamento, tração, resultado. E falaria, balançando a cabeça e rindo:
—É sempre o detalhe que ninguém vê. Esses caras inventam cada coisa, moleque.
A fita virou um símbolo da temporada. Um detalhe mínimo com efeito desproporcional. Um pedaço de adesivo interfere numa disputa entre pilotos preparados para tudo. Parece banal, mas resume a categoria: o resultado nasce onde quase ninguém olha. Será?
Tudo indica que sim. A diferença é que agora o detalhe virou divulgação.
Às vezes comparo corrida a um álbum clássico. Mônaco surge como balada tensa, barulhenta e estreita. Spa aparece com atmosfera amplificada, pesada, épica. Interlagos vibra com a energia de estádio lotado. Silverstone tem elegância sinfônica que dispensa tradução.
A F1 sempre dialogou com outras paixões humanas. Futebol, tênis, rock. Em todo esporte há encontro entre técnica e ousadia. Em toda grande banda há risco medido segundo a sensibilidade de quem toca. Nada se conserva sem coragem.
Quando vejo Verstappen domar um carro inquieto, Norris extrair precisão onde parecia não haver espaço ou Piastri avançar sem alarde, volto àquela sala. Vejo meu avô cruzar os braços, franzir a testa e avisar:
—Hoje vai ser fogo.
Costumo imaginar o que ele acharia dessa versão moderna do esporte. Provavelmente se encantaria com telemetria, criticaria a burocracia, reclamaria das punições e escolheria um favorito por pura birra.
Cada piloto que surge carrega gesto, estilo, mania que solidifica as lembranças. As temporadas acendem novas memórias do menino sentado no chão, de frente para a TV, convicto de que o mundo inteiro cabia dentro daquele barulho.
Minha avó gritar do quarto “diminui essa coisa” nunca funcionou. Ainda bem. O motor ganhava a disputa. O sorriso também.
Já se passaram trinta e cinco anos desde aquele diálogo inaugural, às oito e pouco da manhã. O mundo mudou. Pistas, carros, pilotos também. A flama permaneceu intacta, sem pacto de nostalgia, sem esforço plastificado.
A Fórmula 1 nunca foi só velocidade. É encontro entre técnica, susto e desejo de ir além. Um drama sem roteiro fixo. E, acima de tudo, é trilha sonora da minha história.
As rivalidades de cada época, os roncos dos motores, as largadas despertam uma memória antiga e reforçam o vínculo entre passado e o agora. A corrida atual conversa com a primeira que assisti. A fita adesiva conversa com a irreverência do meu avô. O milésimo de diferença conversa com o berro da minha avó. Tudo se mistura sem confusão, numa baita confusão.
Escrever sobre Fórmula 1 é um jeito de enfrentar a linha do tempo. As curvas trazem revelações. As ultrapassagens desafiam os limites.
A temporada de 2025 ampliou essa sensação. Três pilotos disputaram o título até o fim. Pontos como batimentos cardíacos. Estratégias nem sempre afiadas. Erros pequenos com grandes consequências.
A essência segue: coragem, inteligência e a insistência de tirar tudo do carro. Eu continuo lá, sentado ao lado de alguém que já não está comigo, e ainda sorrio ao escutar os berros de quem também não está mais comigo. As vozes ainda conversam no coração toda vez que as luzes vermelhas apagam:
—Olha isso, vô. Eles correm muito.
—Correm sim, moleque. Daqui a pouco, sua vó grita.
E foi dada a largada outra vez.















