Desde o ano passado, Chico César comemora o 30º aniversário do seu primeiro álbum Aos vivos. A turnê pelas terras lusitanas encerrou-se em Vale de Cambra, e eu tive a alegria de assistir ao penúltimo espetáculo em Estarreja.

O cantor paraibano cantou o repertório original do disco, na íntegra sequência, com sua voz e sotaque deliciosamente inconfundíveis, acompanhados da precisão rítmica e criativa do seu violão.

A partir deste trabalho na década de 90, o mundo conheceu Mama África e se apaixonou À primeira vista (ahhh... os meus 20 anos, meus pobres enganos, como diria o outro Chico). Catolé do Rocha despontou no mapa da Paraíba, e o Brasil aplaudiu e reconheceu a música e a poesia que vinham de lá.

O começo da apresentação foi Beradêro, à capela, como no disco que eu sei de cor. Observo que só sei de cor, hoje em dia, o que já sabia há tanto tempo, e só. O que acontece com o espaço no disco da memória?

A primeira faixa do álbum é cantada como aboio, com as variações harmônicas a cada desdobramento da melodia. O compositor nos surpreende com sua diversidade: regionalismo e contemporaneidade.

Beradêro, enquanto quem está na margem, na beirada, dialoga com o centro e o inclui. E, de uma beirada a outra, linguagem e silêncio dão margem a inúmeras possibilidades criativas. É a canção que une e cose o sertão à cidade com a linha do Equador. A fronteira está sempre presente como a cigana que lê a mão de Paulo Freire. São as margens diversas que se encontram. Chico César afirmou que “todos somos migrantes”, e a nossa humanidade tece a vida no planeta.

Beradêro tem a força de todo início, o impulso, o aboiar do seu pai, também Francisco. É a energia que permeia não só o disco, mas também o trabalho como artista brasileiro que abraça a ancestralidade na vanguarda cultural.

Junto a Mama África e À primeira vista, se fez o trio encantado. O encanto de todo começo. Sucessos há 30 anos, não só eu cantava de forma emocionada as antigas canções. Estarreja misturava português europeu e o original do músico — o nosso — num alegre acompanhamento. Confesso que senti muita vontade de dançar, mas permaneci na cadeira do cineteatro, mesmo quando o Chico começou Tambores.

Uma música que ele adoraria ter escrito, segundo contou, foi a próxima, Alma não tem cor. Chico César reforçou seu talento poético, interpretando de forma magistral a sabedoria que ele compartilha com André Abujamra.

O texto de Itamar Assumpção, Dúvida cruel, ganhou a música do Chico e fez a união perfeita entre as genialidades, poesia e sonoridade únicas. Como eu aprecio esse casamento!

E, para homenagear Caicó, cidade potiguar, A prosa impúrpura do Caicó descreve o interior com sua dualidade que forma um mosaico de amor e desamor, sagrado e profano, o arcaico e o moderno, onde “Tudo rejeita e quer”. Foi uma delícia cantar os trocadilhos e a mistura de linguagens “Sexo no-iê, Oxente! Oh Shit!”. É a tradição e a transformação do compositor, traço que se segue em seu trabalho.

Com toda espontaneidade, Chico César contou algumas histórias de sua trajetória no Brasil e casos engraçados. Lembrou-se de cidades onde esteve, usando uma narrativa leve e bem-humorada.

Saharienne, intimista, melancólica e até um pouco depressiva, conclui com a ideia de imortalidade da arte: “o amor morre, só a arte, não”.

Benazir, Mulher eu sei e Clandestino formam um trio panfletário sobre liberdade e crítica social que rendeu a interação do público nas letras e refrões. Dessas três, Mulher eu sei é a minha preferida. E Chico, todo empático, provocou a plateia masculina para ter convicção ao cantar: “Já fui mulher, eu sei”. O compositor desafia, desde o primeiro álbum, os seres humanos vivos a transpor as fronteiras tradicionalistas que nos aprisionam num mundo controlador e reacionário.

Quando cantou Templo, uma grata surpresa me emocionou. Além da versão original, acrescentou um pot-pourri onde contemplou Milton Nascimento com trechos de San Vicente, além dos versos de Desenredo, do Caymmi. Foi um deleite só.

Na sequência original do disco, Paraíba. Bela releitura do Gonzagão que mereceu um toque Chico César ao mudar parte do refrão. Ele contou que a primeira vez em que “testou” a mudança foi numa apresentação que traduziu como uma espécie de woodstock junino, numa fazenda no sertão de Pernambuco. Nós, em Estarreja, repetimos a alteração: “Paraíba feminina, mulher massa, sim senhor”.

E, ao encerrar o disco, Dança e Nato, constatando: “Pois é, é de certa forma o que faço”.

Muitos aplausos depois, o bis ficou por conta da romântica Onde estará o meu amor, da oração Deus me proteja, da parceria com Zeca Baleiro, Pedra de responsa. E, vestido de amor, em estado de poesia, bradou sua Pedrada no ar. Cantei bem alto com o Chico: “Fogo nos fascistas! Fogo, jah!”.

Saí do auditório nutrida. Um show para revigorar a alma, para ouvir meu português em versos e narrativas de consciência, humanidade e resistência. Em voz e violão, a sonoridade perfeita.

Não bastasse toda a simpatia de uma noite excepcional, Chico ainda nos presenteou com um doce momento para fotos e pequenas trocas no hall do cineteatro.

Não é à toa que a pessoa encantadora dentro e fora do palco entenda que o amor é um ato revolucionário, na versatilidade e subjetividade do termo.

Voltei para casa feliz, inebriada pelas canções, e a minha admiração pelo artista brasileiro fez com que eu vislumbrasse e subvertesse sua letra: nem o amor nem a arte morrem. Viva Chico César! Viva a cultura brasileira!