Eu, como alguém que nasceu nos anos 1980, presenciei o surgimento de muitas facilidades tecnológicas e em diversas áreas da vida — como comunicação, transporte, saúde, computação, energia biológica, entre outras. Fica impossível listar tudo o que aconteceu de lá para cá, mas posso citar alguns: popularização dos microcomputadores pessoais, início do uso comercial dos celulares, desenvolvimento do world wide web, crescimento das redes sociais, surgimento de dispositivos eletrônicos de consumo (CDs, videocassetes, videogames), internet para todos, e-mails, telefonia móvel digital, GPS para uso civil, e-commerce, smartphones, avanços em biotecnologia, energia renovável, inteligência artificial, carros elétricos, realidade aumentada, realidade virtual, drones, expansão do uso de streaming e a lista segue.
Ter vivenciado isso tudo até o presente momento é incrível, mas também é uma loucura. Recordo de uma infância descomplicada, simples em que eu ia para a escola e, ao chegar em casa, almoçava, colocava uma roupa confortável e descia (morava em prédio) para brincar com a turma que eu tinha. Lembro da minha mãe gritando o meu nome da janela enquanto eu dava voltas e voltas de bicicleta no pátio do prédio, me chamando para subir, tomar banho e jantar.
Lembro também das férias tão esperadas no interior, na casa dos meus avós. Eu passava uns dois meses direto lá, descalça andando pela cidade de nem cinco mil habitantes tendo vivências com os meus primos que só nós sabemos o que está nas nossas memórias e nos nossos corações. Sem videogames, sem celulares e sem redes sociais gerando ansiedade para expor o que estávamos fazendo.
Ao mesmo tempo, recordo da dificuldade de reunir em um só lugar todas as músicas do meu gosto que eu queria ouvir. Se eu comprasse uma fita K-7 para ouvir no meu walkman, eu ficava presa às músicas que vinham gravadas nela. Até que em um Natal eu ganhei um aparelho de som com a função que permitia gravar fitas K-7 e a minha única responsabilidade era deixar tudo no jeito para quando começasse a tocar a música na rádio.
Os passos consistiam em colocar a fita virgem no toca-fitas e eu a apertar as teclas "Play" e "Rec" ao mesmo tempo para começar a gravação. Era uma responsabilidade e tanto! Por mais que eu me dedicasse, nunca (nunca!) começava a gravar no início da música e a rádio sempre colocava propaganda no meio da música. Conclusão: as minhas fitas eram puro retalho das minhas músicas selecionadas.
Com o avanço tecnológico, não tenho mais esse problema e as gerações que vieram depois de mim não precisaram sofrer com isso. A criação de plataformas de áudio facilitou a nossa vida com relação a isso, pois podemos montar nossas playlists de acordo com nossos gostos musicais e como somos seres multifacetados, podemos ter diversas playlists, uma para cada momento do nosso dia. Por exemplo, neste exato momento não consigo ouvir a minha seleção de músicas, pois sei que elas não me ajudam na minha concentração para escrever; portanto, recorro à lista de “Lo-Fi”. Quando estou lendo, eu tenho uma lista de músicas chamada “Trilha sonora de leitura”. Para dar ânimo na academia, “Rock 2026”. E no ano que vem, “Rock 2027”.
Dia desses eu estava ouvindo minha lista de músicas selecionadas, as que eu gosto e que coloco para ouvir e cantar junto. Por conter uma seleção enorme e meus trajetos nunca serem o suficiente para eu ouvir essa playlist completamente, acabo deixando no modo aleatório. Essa funcionalidade sempre revela uma surpresa, porque pode trazer uma música que foi adicionada recentemente, uma música que eu sempre gostei a minha vida inteira ou ainda pode trazer uma música que eu adicionei num momento específico do passado e que me trará uma lembrança peculiar.
Foi aí que entrou uma música que eu não ouvia fazia um bom tempo. Era “Fala”, dos Secos & Molhados. É interessante quando ficamos um bom tempo sem escutar uma música que gostamos e de repente ela surge nos nossos ouvidos, pois a sensação é bem parecida de como se fosse a primeira vez que estivéssemos escutando.
A começar pelo conjunto, Secos & Molhados foi uma banda icônica de rock brasileira que surgiu em 1970 composta por João Ricardo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad. Eles misturavam o rock com ritmos do MPB e o samba. Causaram frisson devido às suas apresentações ousadas em meio à ditadura civil-militar no Brasil, pois não economizavam no figurino e na maquiagem. Recomendo fortemente ouvi-los e assistir aos clipes. E então eu comecei a prestar atenção nos mínimos detalhes da música como se ela não estivesse tocando por acaso.
Eu não sei dizer nada por dizer
Então, eu escuto
Se você disser tudo o que quiser
Então, eu escuto
A primeira estrofe da música já nos faz refletir sobre a importância da escuta e do espaço que o silêncio pode exercer em um diálogo, além de que podemos ficar calados produzindo mais efeitos do que simplesmente falar por falar. A mensagem principal da música é nos fazer perceber que a comunicação efetiva é baseada na empatia e em dar espaço para o outro se sentir confortável em desabafar.
Se eu não entender, não vou responder
Então, eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então, eu escuto
Aqui no Brasil temos um ditado que diz: “Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas.” Particularmente, acho um pouco agressivo e, se pudesse, alteraria para uma forma mais gentil. Acredito que essa segunda estrofe fez exatamente isso, alterou esse ditado para um aspecto mais amoroso onde o ouvinte está em uma posição total de escuta não somente porque o outro está falando, mas sim porque está realmente interessado na conexão que se estabeleceu e na comunicação que está ocorrendo.
Fala
La-la-la-la-la-la-la-la
FalaLa-la-la-la-la-la-la-la
Fala
La-la-la-la-la-la-la-la
Fala
Essa última parte da música é pensada, na minha opinião, justamente como se fosse para dar abertura ao diálogo, um espaço de conversa, como se o ouvinte dissesse: “Estou aqui para lhe ouvir, sem julgamentos. E, se você pedir, darei a minha opinião.”
Afinal, no mundo hiperconectado que vivemos, bombardeado de informações, estamos prestando cada vez menos atenção no outro. Acabamos fechados em nossas próprias necessidades, preocupados em otimizar tudo o que podemos, inclusive acelerar áudios de Whatsapp e, quando menos percebemos, não estamos prestando atenção no que realmente importa: um amigo que quer comemorar uma conquista, o cônjuge que precisa desabafar sobre uma situação do dia, um parente que enfrenta um momento difícil há tempos ou um colega do trabalho que busca sua opinião sobre uma proposta que recebeu.
A vida é corrida para todos; temos obrigações e prazos a todo momento. Essa ânsia de pensar o futuro e não viver o presente, além de nos adoecer, tem nos privado de observar o extraordinário. Vale a pena reservar um momento de pura conversa e escuta plena com familiares ou amigos deixando o celular no silencioso e, se possível, bem longe.















