O cinema nunca foi apenas a experiência de ver um filme: é também um espaço de sociabilidade e de cultura. Frequentar a sala costumava ser o grande programa do fim de semana, evento para o qual as pessoas se preparavam; era ponto de encontro de jovens e famílias, uma oportunidade de se encontrar e conviver. Desde a chegada do cinema ao Brasil, tornou-se comum que cidades do interior tivessem uma ou duas salas de exibição. Nas grandes metrópoles, como São Paulo, onde a primeira sala fixa foi inaugurada em 1907, o cinema de rua foi um fenômeno tão marcante que surgiram verdadeiras “Cinelândias”.

A Avenida São João, por muito tempo, representou o principal polo de salas da capital. No país, as salas ficavam preferencialmente nos centros urbanos, em terrenos valorizados, e atraíam grande público: não era raro encontrar cinemas com capacidade para centenas de pessoas. Até a década de 1960 viveu-se uma era de ouro, quando o cinema de rua se consolidou como o principal lazer, movimentando bairros inteiros. Ao redor das salas proliferavam cafeterias, bares, lanchonetes e até produtoras, gerando empregos e dinamizando a economia local.

A partir da metade do século XX, porém, essa era começou a declinar. Em São Paulo, com a decadência econômica do centro, muitas salas fecharam ou migraram para a programação adulta; outras deslocaram-se para a Avenida Paulista. Na década de 1970, a popularização da televisão e do VHS, que permitiram assistir a filmes sem sair de casa, provocou uma reconfiguração do mercado audiovisual. O crescimento das metrópoles e o aumento da produção cinematográfica tornaram impossível que uma única sala comportasse a oferta de títulos lançados semanalmente.

Muitos cinemas antigos viraram igrejas, farmácias, estacionamentos ou outros estabelecimentos comerciais; não houve, na época, uma intervenção pública consistente que permitisse sua manutenção. Hoje, o mercado de exibição no Brasil ainda enfrenta o desafio de um grande volume de obras para um número restrito de salas — muitas das quais são ocupadas por produções internacionais — e uma disputa por espaço que dificulta a circulação do cinema nacional.

Na virada dos anos 1980, as salas migraram para os shopping centers, que ofereciam tamanho, estrutura e segurança que os cinemas de rua já não garantiam. Essa mudança transformou também a forma de consumir filmes: o cinema passou a ser percebido mais como entretenimento inserido em um complexo de consumo do que como um programa cultural autônomo.

Mais recentemente, sobretudo desde a pandemia, plataformas de streaming deslocaram parte do público das salas. Assim como na década de 1970, o conforto de assistir em casa se tornou prioridade para muitos, pressionando ainda mais a sobrevivência das salas físicas.

Ainda assim, o cinema não desaparecerá; o público caminha para um hábito híbrido. As salas têm uma experiência única a oferecer e precisam se consolidar como centros de entretenimento diferenciados, enquanto o streaming segue expandindo opções sob demanda. O principal desafio do setor exibidor é valorizar o diferencial da sala: investir em experiências imersivas, ampliar e diversificar a programação e recuperar o sentido de comunidade que só o encontro coletivo proporciona.

É cada vez mais urgente democratizar o acesso às salas. O público tende a preferir ver filmes em casa enquanto deslocamento, preço do ingresso e do consumo no local forem barreiras reais. Até mesmo nas plataformas existe desigualdade: o custo de assinaturas e o alto preço do acesso à internet limitam o consumo de conteúdo entre as camadas mais vulneráveis.

Felizmente, já existem iniciativas que levam o cinema até o público: sessões itinerantes, cineclubes comunitários e exibições em praças e escolas; práticas que precisam ser ampliadas. A formação de público continua sendo essencial: quanto mais cedo as pessoas se acostumam a ir ao cinema, especialmente para assistir ao cinema nacional, maiores as chances de manterem esse hábito na vida adulta. Exibições comunitárias, debates e oficinas são ferramentas poderosas para incluir grupos historicamente marginalizados no circuito cultural.

Reconhecer o cinema como instrumento de formação cidadã é reconhecer seu papel no estímulo ao pensamento crítico, na valorização da identidade nacional e na promoção de narrativas diversas. O acesso à cultura não pode ser tratado como privilégio: levar o cinema a todas as camadas da sociedade fortalece a diversidade cultural e a cidadania.

Para reduzir desigualdades, é preciso ampliar políticas públicas e investimentos: reativação e cumprimento de cotas de tela para produções nacionais, incentivos fiscais para restauração e manutenção de salas históricas, editais que apoiem cineclubes e circuitos periféricos, e parcerias entre instituições culturais, escolas e produtores locais.

Apesar das dificuldades, muitos cinemas de rua resistem e seguem atendendo um público fiel. Com políticas públicas efetivas, investimentos privados responsáveis e um público engajado, o cinema pode não apenas sobreviver, mas reencontrar seu lugar de protagonismo cultural: um espaço de encontro, debate e transformação.

Além disso, fortalecer a memória audiovisual do país é fundamental, pois a preservação de acervos e a difusão de obras históricas permitem que novas gerações compreendam a trajetória do cinema brasileiro e percebam sua relevância cultural contínua, ampliando vínculos entre passado, presente e futuro.