Eu sinto começar este artigo com a constatação de que não existe fórmula para o sucesso. Especialmente no Cinema. Muitas vezes em que se tentou aplicar uma fórmula num filme, o resultado comercial, artístico ou ambos foram decepcionantes.
Por outro lado, a imprevisibilidade é reconfortante. Os filmes que nos surpreendem são precisamente aqueles que guardamos na memória, e no coração. O cinema disruptivo de Ladrões de Bicicleta, 2001, Taxi Driver, e outros muitos que quebraram os clichês e fórmulas, é o que será venerado por gerações de cinéfilos.
Projeto Hail Mary, ou Devoradores de Estrelas, tem tudo para fazer parte do seleto grupo de filmes memoráveis, por, de certa forma, reverter os elementos que compõem um sci-fi de sucesso. Não há super-heróis, não há um elenco de superestrelas, não há alienígenas ameaçadores, não há efeitos extravagantes de computação gráfica, não há personagens gerados por “captura de movimento” e CGI, enfim, um filme de ficção científica feito à moda antiga, como no auge do género nos anos 80.
Eu bem poderia dizer que aí reside o charme de Projeto Hail Mary, mas não seguir a fórmula dos blockbusters do século XXI não é por si uma garantia de sucesso. Afinal, se existe uma receita de bolo que vai garantir o resultado e o retorno comercial para os investidores, não segui-la é uma estupidez.
Os muitos filmes de super-heróis, especialmente do universo Marvel, estão entre as maiores bilheterias da história do cinema, enriqueceram os estúdios e provaram que a indústria do entretenimento é poderosa e altamente lucrativa. Os filmes ficaram cada vez mais caros, as verbas de marketing explodiram e obrigaram o Cinema a um sucesso global para tornar-se viável comercialmente. Os estúdios e investidores apostam suas fichas nos potenciais “blockbusters”, mas haverá sempre um risco.
No negócio do Cinema, garantia é uma palavra a ser usada com moderação. Comercialmente, se investirmos centenas de milhões de dólares na produção, mais um punhado de dinheiro em efeitos visuais, nem tanto nas interpretações de atores de carne e osso, muitos milhões em marketing global, e conseguirmos um nome de peso a dar um respaldo criativo, como um James Cameron, Spielberg ou Nolan... Voilá! Talvez tenhamos a chance de um grande sucesso comercial ou até artístico.
Filmes recentes como Avatar, Fogo e Cinzas ou Barbie, que obtiveram receitas acima do bilhão de dólares, certamente, não serão considerados grandes obras do Cinema, nem serão lembrados na sua história. No entanto, qual cinéfilo não se emocionou com filmes como Star Wars, Alien, Blade Runner, 2001 ou Interestelar, clássicos do género de ficção científica das décadas de 1960, 70, 80 e deste século?
A beleza de Projeto Hail Mary vai bem além do modo como foi realizado, com efeitos práticos e pouquíssimo uso de CGI. Ela reside na qualidade da história original. O cinema americano vem apostando há anos nas sequências de filmes de sucessos, nas franquias. Projeto Hail Mary trouxe o frescor de uma nova história, de uma excelente história, baseada no livro de mesmo nome de Andy Weir (coautor do roteiro também).
Acompanhamos a história do professor do ensino básico Ryland Grace, interpretado pelo carismático Ryan Gosling, lançado ao espaço para uma estrela situada a onze anos-luz da Terra, onde a nossa ciência acredita estar a cura para evitar a morte do nosso Sol e o fim da raça humana. Bem, essa é a sinopse da história, que terá desdobramentos geniais. Mas não darei spoilers.
Como nos bons filmes de aventuras de “antigamente”, nosso herói, o homem comum, é lançado numa missão sobre-humana, muito além de suas capacidades. Nesse caso, a missão é simplesmente salvar o planeta Terra e a espécie humana. Começa então a jornada do herói, em que ele inicialmente tem de entender a situação, adquirir condições para desempenhar a missão e completar seu destino.
Espera aí! Essa é uma fórmula narrativa conhecida, um clichê de filmes de heróis. Poderia ser sim, se analisássemos a estrutura da história. Primeiro ato: a descoberta do problema, a apresentação do herói improvável, sua recusa em embarcar na missão; segundo ato: o herói está há anos-luz da Terra e só conta com ele mesmo, e precisa adquirir as habilidades para resolver o problema; terceiro ato: a resolução e conclusão.
Contudo, os desdobramentos do roteiro e a interpretação carismática do Ryan Gosling irão bagunçar por completo o género e surpreender o espectador. O género do filme irá se transformar ao longo das 2 horas e 36 minutos de filme (que passam voando à velocidade da luz). De um filme de aventuras, ao hard sci-fi, aos buddy films, à comédia e ao drama humano, tudo junto e misturado.
As referências à cultura pop, à religião e ao próprio cinema no decorrer da história são inúmeras, e uma brincadeira à parte para os amantes do cinema. Nosso herói brinca com Contatos Imediatos do 3º Grau, ao tentar se comunicar através das notas musicais clássicas daquele filme; as naves flutuam no espaço, não ao som da valsa Danúbio Azul de Strauss, cena clássica de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, mas agora embaladas por um tango (super pertinente à história, sem spoilers...). ET é lembrado, Náufrago, e até mesmo Meryl Streep faz uma ponta, ou melhor, uma voz sintetizada, mas inconfundível.
Numa referência espiritual e religiosa, a nave é denominada “Hail Mary” (Ave Maria) e o protagonista e único tripulante chama-se Grace. Juntando os dois temos “Hail Mary, full of Grace”, o início da oração da Ave Maria, em inglês. Grace é incumbido da missão de subir aos céus (espaço) e retornar à Terra para salvar a humanidade. Será intencional? Talvez. Mas cabe à interpretação.
O que Projeto Hail Mary tem a ver com o cinema dos anos 1980? Primeiro o frescor de uma nova ideia. Nos anos 1980 as sequências de filmes ou franquias estavam engatinhando. Os anos 1980 foram o ápice dos filmes de ficção científica e de aventuras. Os orçamentos eram relativamente baixos (não que os 200 milhões de dólares de Projeto Hail Mary sejam modestos) porque se apostava na qualidade das histórias e na venda de bilhetes.
Os filmes eram consumidos quase que totalmente nos cinemas. A janela para exibição de um filme na TV ou seu lançamento em home video era muito mais larga do que hoje. Os efeitos visuais no cinema explodiram nos anos 80, mas numa era anterior à computação gráfica. Ou seja, tudo era feito de modo prático. Naves em maquetes, explosões reais, atores de carne e osso, cenários pintados à mão, e operadores de puppets altamente qualificados. Vemos tudo isso em Projeto Hail Mary.
O cinema, especialmente os efeitos visuais, evoluíram com o advento da CGI (Computer Generated Images) de forma exponencial, tornando possíveis hoje cenas e movimentos que não se conseguia produzir ou não eram viáveis financeiramente nos anos 1980. Mas com isso, veio também uma espécie de preguiça ao rodar um filme. Tudo pode ser construído e alterado na pós-produção através de efeitos. Sem falar na chegada da IA, em que até mesmo os atores se tornam dispensáveis.
A discussão que temos de ter, na minha opinião, é sobre o limite da arte. O cinema é considerado a arte suprema, pois reúne numa obra os talentos da literatura, da arte dramática, da fotografia, da música, da cenografia, enfim, são centenas de profissionais, técnicos e artistas envolvidos na produção de um filme. E de repente delegamos tudo a um operador de computador que irá gerar cada elemento de forma artificial.
Os filmes dos anos 1980 respiravam a inteligência humana. Mesmo nem sempre sendo tão inteligentes assim. Mas eles conseguiam uma conexão com o espectador que só pode ser explicada pela empatia dos artistas que os produziam com o público. Filmagens reais, fotografia não digital, efeitos práticos. Não, não é saudosismo. É a constatação de que o Cinema evoluiu e adquiriu ferramentas tecnológicas fantásticas e caríssimas, que vêm moldando o formato dos filmes e nos entregando cada vez menos “grandes filmes”.
Projeto Hail Mary é um grande filme, de alto custo sim, mas feito à moda antiga, onde nota-se o humano por trás da sua realização. A história em si já é uma reflexão sobre a humanidade, as relações e a solidão em que chegamos. A conexão do protagonista com a raça humana dá-se através da cultura da ciência. Ele é um professor a ensinar as novas gerações, e permanecerá assim até o final. E a música o liga aos outros seres humanos. Seja num karaoke improvisado ou na comunicação com seres nem tão humanos.
Deixei para o final para falar de música, porque julgo ser um dos pontos altos do filme. Sua trilha e o uso de canções da cultura pop. Absolutamente delicioso.
À medida em que o Cinema evolui, adquirimos ferramentas que nos permitem colocar na tela qualquer coisa que imaginarmos. Será que a nossa imaginação consegue acompanhar a velocidade dessa viagem? Será que veremos o retorno de filmes mais humanos, de todos os géneros, em que a conexão emocional seja a principal razão de irmos ao cinema?
Continuo otimista...














