É o primeiro filme que eu assisto do diretor francês de origem grega, Konstantin Costa-Gavras. Konstantin foi radicado em Paris aos 21 anos onde começou a estudar Literatura. Interrompeu seus estudos dois anos depois para se inscrever no Instituto de Altos Estudos Cinematográficos (IDHEC), iniciando sua carreira no cinema. Atualmente com 92 anos, acumula uma lista brilhante de filmes premiados sendo nomeado presidente duas vezes na Cinemateca Francesa, uma vez em 1987 e posteriormente em 2007.
O que mais chama atenção em seus filmes são os temas políticos, tendo abordado temas como a ditadura na América Latina nos filmes Desaparecidos, Um Grande Mistério (Missing), de 1982. Seu filme, Amém, de 2002, criou polêmica ao retratar a relação da Igreja Católica com o Nazismo e O capital de 2012 cuja temática é o capitalismo na sua essência que retrata grandes corporações e corrupções no mercado de capital. Já estão na minha lista para assistir!
Eu tenho o hábito de ir ao cinema sozinha e às vezes, quase que uma vez a cada 15 dias, me levo ao cinema. Não escolho o filme, escolho o horário, ônus e bônus de quem tem a agenda flexível. Bônus de poder ir ao cinema e ônus de não ter a chance de escolher o filme pois eu vou em uma brecha da minha agenda. Devido a isso, eu só frequento um cinema que oferece filmes que são certeiros no gênero do meu gosto. E, tão certo como a luz do sol, sempre acerto. Comprei o ingresso e entrei na sala em que estava passando o último filme lançado pelo Costa-Gavras, Uma Bela Vida.
A inspiração vem do livro escrito pelo médico Claude Grange em parceria com o jornalista, ensaísta e ex-guerrilheiro Régis Debray, e ambos levam o mesmo título, Le Dernier Souffle (O Último Suspiro). A distribuidora, ao trazer o filme para o Brasil, decide apostar em uma versão mais esperançosa, alterando para Uma Bela Vida, o que muda toda a perspectiva.
O filme apresenta dois protagonistas. Um é o Dr. Augustin Masset, interpretado pelo ator Kad Merad, médico especializado em cuidados paliativos, totalmente humanista e que faz da sua profissão uma missão de vida. O seu objetivo é oferecer o máximo conforto nos últimos instantes de vida dos seus pacientes, sejam eles dias, meses ou anos. O outro protagonista é Fabrice Toussaint, interpretado pelo ator Denis Podalydés, renomado filósofo e escritor.
Não podemos deixar de dar destaque também aos atores que fazem os pacientes e que são muito conhecidos no cinema europeu, como a espanhola Angela Molina (interpretando uma líder cigana), a palestina Hiam Abbass, a anglo-francesa Charlotte Rampling, Karin Viard, Georges Corraface, entre muitos outros, incluindo vários membros da família Costa-Gavras nos bastidores do filme.
O filme começa com Fabrice Toussaint (Denis Podalydés) fazendo exames inconclusivos em Boston, nos EUA. Os médicos então o orientaram a manter uma rotina de acompanhamento em sua cidade, Paris. Já na sua cidade, ele procura o Dr. Augustin (Kad Merad) e em um bate-papo despretensioso, Toussaint se interessa pelo tema de tratamento paliativo e o médico, generoso, leva seu novo amigo para uma visita aos seus pacientes. O médico junto ao escritor nos leva de paciente em paciente, de família em família, de contexto em contexto, num mergulho de dor, indignação, entendimento e finitude.
Toussaint se mune dessas histórias para escrever o seu próximo livro e com essa experiência ao lado do seu novo amigo, aprenderá novas formas de lidar não só com a doença e morte, mas também com a própria vida.
O filme é lindo, sensível e traz questionamentos pertinentes sobre como cada pessoa lida com a vida e com a morte. E, principalmente, como cada núcleo familiar enfrenta com a vida que se esvai e com a morte que se aproxima. Até que ponto vale a pena sofrermos? Até quando vale a pena fazermos o outro sofrer?
Para quem já viveu isso de perto pode ser difícil assistir ao filme pois revisitar esses momentos podem ser gatilho para questionamentos mais profundos e filosóficos e que não há respostas. Afinal o que aconteceu, já aconteceu. E se a família tenta pelos seus meios compartilhar com o médico que está tratando aquele ente querido pesquisas feitas de um alimento ou um tratamento alternativo que também possa trazer conforto nesse momento doloroso, será que é porque realmente ela é egoísta e não quer libertar aquela pessoa doente de um sofrimento maior? Ou é só porque está tentando ajudar?
Quando perdemos um parente que não seja de maneira drástica, ou seja, por um acidente ou por meios violentos, apesar da doença fazer com que essa pessoa sofra e os que estão ao redor sofram também, de certa forma temos a chance de nos despedirmos. A vida e a passagem dela para o outro plano qualquer que seja, envolve crenças familiares, culturas e uma educação baseada no que traz conforto pessoal, portanto é um assunto delicado.
Eu penso muitas vezes que se não tratássemos a morte como um assunto tão distante talvez fosse mais fácil ser encarado na hora necessária. Claro que a tristeza e a dor da perda existirá, mas se pudermos antecipar assuntos burocráticos e desejos pessoais, eliminaríamos etapas a serem enfrentadas nesse momento delicado. O luto por si só já é uma dor insuportável e, pasmem, o tempo não faz com que ele diminua. Você só aprende a lidar com a vida e com o luto ao mesmo tempo.















