Durante as últimas décadas do século 20 e as primeiras do novo milênio, os famosos quadrinhos japoneses se tornaram um verdadeiro fenômeno cultural no Ocidente, especialmente na América Latina. O formato possui fãs leais por todo o mundo, que têm uma apreciação tão grande pela arte que formam grandes comunidades de admiradores, conhecidos como otakus, e até mesmo fazem eventos onde comparecem fantasiados como seus personagens favoritos, conhecidos como cosplays. Mas qual é a razão para tamanha popularidade? O que os quadrinhos japoneses têm de tão interessante?

Os mangás, e seus equivalentes para televisão, os animes, são herdeiros de uma longa tradição cultural dentro da sociedade japonesa. As histórias dos mangás são marcadas por um ecletismo narrativo, juntando elementos de vários gêneros e estilos diferentes, o que contribui para que desenvolvam uma personalidade própria e original, vista a combinação de vários ingredientes disparates em sua fórmula. Uma das principais fontes de inspiração são as mitologias orientais, como as histórias da Índia, China e Japão. Grande parte da arte japonesa bebeu dessas fontes, mas este não é o único elemento presente nos mangás.

O Japão sempre foi um país que absorveu a cultura de outros povos e a combinou com sua própria. Desde os tempos antigos, assimilou os avanços da China e da Coreia à sua tecnologia; durante o período moderno, aprendeu com a Alemanha e depois com os Estados Unidos como se tornar um país avançado. Esse elemento de miscigenação cultural também está presente na sua arte. Os mangás combinam as narrativas tradicionais da Ásia com elementos da cultura ocidental. Isso pode ser observado em alguns dos mangás e animes mais bem-sucedidos dentro e fora do Japão, como os clássicos Dragon Ball e Cavaleiros do Zodíaco.

Dragon Ball começou como uma história de fantasia e artes marciais inspirada na cultura oriental. Sua principal fonte foi o clássico literário chinês A Jornada para o Oeste, em que o mítico macaco-rei Sun Wukong ajudava um monge budista a resgatar escrituras sagradas atravessando vários desafios e perigos. O mangá começou bebendo muito do clássico, mas à medida que a história evoluía, o autor mudou o tom da narrativa, afastando-se da fantasia e transformando-a em um quadrinho de ficção científica.

A partir desse ponto, o mangá passou a ser inspirado pelas histórias de ação americanas, como a raça alienígena dos saiyajins, modelada com base nos kryptonianos dos quadrinhos do Superman.

Cavaleiros do Zodíaco tem como fonte principal a mitologia grega dos deuses do Olimpo, mas durante toda a narrativa há muitos elementos da cultura oriental presentes na obra, como um dos personagens que fala diretamente com Buda e a revelação de que todos os guerreiros costumam reencarnar a cada duzentos anos, também tirada do budismo. Não apenas isso, mas o senso de dever que move os personagens, sendo guerreiros cuja missão sagrada é morrer e viver para proteger seus superiores, os deuses, é extremamente similar ao código de ética dos samurais.

Os guerreiros japoneses também deviam estar prontos para perder a vida por seus mestres e idolatravam o imperador japonês como um deus na terra.

Essa combinação de estilos tão disparates ajuda a entender por que os mangás e animes se destacaram no mercado internacional, já bastante saturado de repetições, após o público assistir às mesmas histórias contadas milhares de vezes por Hollywood durante várias décadas. Além de seu estilo particular, os animes contam com outros elementos, como boas cenas de ação e forte carga melodramática em seu bojo.

Todo protagonista de uma história de mangá carrega dificuldades ao longo da vida, mas se recusa a desistir até superá-las, muitas vezes auxiliando outros a atravessar seus medos interiores no processo.

Mangás, especialmente os feitos para jovens adolescentes, chamados shonen, costumam contar histórias de superação, em que os protagonistas vão da irrelevância à grandeza. Geralmente, shonens contam a história de um protagonista jovem, hiperativo, bobo e pateta, sem nenhuma habilidade real, mas extremamente determinado e que nunca se rende, não importa o quão difícil seja, e que tem um bom coração, sempre querendo ajudar os outros, ainda que seja ingênuo.

Outros personagens costumam inicialmente menosprezá-lo, mas sua força de vontade e dedicação vão lentamente conquistando o respeito deles e acabam inspirando-os a serem como ele. Este protagonista costuma possuir um rival, geralmente não maligno, mas ainda assim arrogante e frio, autocentrado, com grande potencial, sempre respeitado, diferente do protagonista. Ainda que sempre tenha levado vantagem por seu talento, o rival possui certo temor do protagonista, pois sua determinação inabalável parece ser a única coisa que pode realmente superá-lo.

Grande parte das histórias gira em torno da conexão simultânea de amizade e competição entre essas duas figuras contraditórias, mas similares.

Essa dinâmica diz muito sobre o próprio público-alvo das obras: jovens meninos e adolescentes japoneses. Os protagonistas enérgicos, mas sem concentração, representam como os garotos japoneses são nessa idade, enquanto o rival talentoso e autoconfiante representa como eles gostariam de se tornar no futuro.

À medida que a história avança, o protagonista sem talento descobre que possui um poder oculto dentro de si, mas que esse poder tem uma fonte maligna. Entretanto, com sua determinação e pureza de coração, ele consegue usar o poder para o bem maior, ascendendo ao status de alguém poderoso e marcante, quando não se tornando o mais forte do mundo.

Ainda que shonens de menor destaque sejam curtos, geralmente com apenas 26 episódios, boa parte das tramas shonen são longas, com mais de 100 capítulos, durando vários anos e atravessando várias fases com o protagonista se tornando mais forte, indo da insignificância completa a ser quase invencível.

Um clichê comum é que a meta dos protagonistas é ser o mais poderoso dentro de uma categoria de guerreiros de elite, o que novamente reflete a velha tradição dos samurais do Japão. Inicialmente isso parece impossível por o protagonista ser fraco, mas com o tempo seu poder cresce até quase se tornar um deus.

Essas histórias costumam envolver mundos de fantasia muito grandes e elaborados, com vários perigos no caminho. A jornada do herói shonen acaba assim lembrando as epopeias clássicas dos grandes heróis antigos que fascinaram gerações e marcaram o mundo antigo.

Os níveis de poder em shonen são assustadores, com os personagens conseguindo feitos muito além do ser humano normal, como se mover na velocidade da luz, destruir planetas com seus golpes, vencer exércitos com um único ataque, voar ou mesmo enfrentar divindades em igualdade. Esse nível de poder acaba sendo uma das principais diversões dos quadrinhos, pois nenhuma outra mídia explora tamanha força e combates tão intensos e extremos, que muitas vezes desobedecem à própria lógica.

Não apenas as batalhas, mas também as emoções são pontos fortes dos animes. Os personagens falam de seus sonhos, esperanças, traumas e medos, e de como seu passado de dor não os impedirá de seguir em frente e alcançar seus objetivos. Também há sempre um forte senso de amizade, pois, não importa quantas vezes briguem ou se afastem, protagonista e rival permanecem unidos e se apoiam.

Muitas vezes, a história se passa em um mundo de fantasia distante do cotidiano ou em um submundo separado da vida das pessoas normais. Animais místicos e poderes mágicos são comuns. Geralmente, os personagens liberam algum tipo de poder oculto, como o Ki em Dragon Ball, o Cosmo em Cavaleiros do Zodíaco, o Chakra em Naruto ou o Nen em Hunter x Hunter.

Esses poderes ocultos são herdados da filosofia chinesa, na qual a escola neoconfuciana pregava que o ser humano possui uma energia vital chamada Qi (ou Ch’i), presente em todos os seres e lugares. O domínio desse poder permitiria feitos sobre-humanos, chegando até à divindade. Esse elemento também está presente nos filmes chineses do gênero Wuxia, mas é melhor explorado nas animações japonesas pela liberdade visual da mídia.

Outro elemento comum nos universos de animes são monstros e robôs gigantes. Os orientais são fascinados por criaturas colossais e destrutivas, herança da mitologia japonesa e do gênero Kaiju, que inclui monstros como Godzilla, Gamera e Mothra, populares no Japão há várias décadas.

Os animes, mesmo com todo o amor dos fãs, correspondem ainda a uma parcela pequena do audiovisual consumido no Ocidente. Ainda assim, sua relevância tem aumentado com produções cada vez mais voltadas ao mercado internacional. Ainda é cedo para dizer até onde o formato continuará crescendo, mas é inegável o impacto que teve entre os jovens nos últimos 30 anos.