—Já estou saindo. Se alguém perguntar, você diz por favor que na segunda-feira já terei voltado, ok?

—Pode deixar, mon chéri. Bon voyage!

François Pourmondot, de 23 anos, preparava-se para sair de casa para mais uma “viagem inspiracional”, como costumava chamar. Pintor, principalmente de aquarelas, gostava de vez ou outra sair de sua cidade natal, Phlarmonsy, e viajar para algum lugar, perto ou distante, a fim de se inspirar. Costumava rascunhar vários desenhos para depois aproveitar alguns deles em suas obras.

Aquela seria bem curta: sairia na sexta-feira à noite e retornaria na segunda-feira depois do almoço. Quando viajava assim, preferia ir só, então disse à mãe, aos irmãos e ao namorado que não se preocupassem: daria notícias sempre que possível. E, afinal, Krantournac não ficava tão distante: bastariam duas horas no Train-Concorde (o trem-bala terrano) para chegar lá.

Passava das oito da noite e a Gare Centrale estava tranquila àquela hora. Como o trem só sairia às 20h32, François teria algum tempo para dar uma rápida olhada pela estação, que ele frequentava desde criança. Visitou a pequena e antiga livraria, o Café de la Reine (onde pegou um chocolate para a viagem) e a loja de flores – na volta, compraria uma para a mãe.

Às 20h20, dirigiu-se para a Plataforma 2, de onde o trem sairia, sentido sul. Seriam poucas paradas até seu destino final, incluindo Alboumard e Tryzou-en-Parsterce, quando o TC passa a seguir pela mesma linha que liga Dunquerqueville a Krantournac.

Havia escolhido uma poltrona isolada, para ter um pouco mais de privacidade, mas percebeu que o vagão de segunda classe em que estava não sairia lotado – talvez houvesse mais passageiros depois. Colocou o smartphone para carregar e, depois de parear o fone de ouvido, escolheu sua playlist “Viagens” no Spotify: a primeira música era um noturno de Chopin.

O trajeto percorreu sem problemas até a Gare Corneille, a principal de Krantournac. Eram exatamente 22h34 quando foi anunciada a chegada à cidade sulista e, cinco minutos depois, o trem parava na Plataforma 7. O rapaz pegou seus pertences e desceu, já imaginando como seria sua estada. Chamou um Uber e foi para o hotel que havia reservado.

O L’Élégance é um pequeno hotel duas estrelas a três quadras da Marina de Krantournac. Charmoso e localizado na região boêmia da cidade, não raro tem entre seus hóspedes diversos artistas, mesmo aqueles que já gozam de alguma fama. Foi inaugurado nos anos 1950 por Constantine Bougantosy, sobrinha do então Barão de Zalmontard, e tornou-se conhecido entre os artistas desde aquela época.

François fez uma extensa pesquisa sobre a cidade antes de decidir onde iria se hospedar. Acabou encantado com a ideia de um “hotel boêmio”, recheado de artistas de todas as vertentes, e optou por ele – também porque o preço era bastante atrativo.

Eram 23h10 quando entrou na recepção, que ainda tinha um quê do estilo art déco lanesano, o qual perdurou até os anos 1970 no reino. À direita, um retrato de Constantine, falecida em 1992; na recepção, um homem de meia idade que tinha os traços muito semelhantes aos da retratada – depois François descobriria que era seu sobrinho-neto.

Bonsoir. Tenho uma reserva, por favor.

Bonsoir. Pois não, monsieur. Qual o nome?

—Pourmondot, François Pourmondot. – disse o rapaz, à moda lanesana de apresentar-se e identificar-se.

—Ah, sim: quarto 207. O café da manhã é servido no salão principal das 7h00 às 10h00 e a senha do wi-fi está no seu cartão de acesso. – entregou o cartão – Qualquer dúvida, pode discar 100 no telefone do quarto e alguém na recepção irá atendê-lo. – tocou uma sineta – Florian irá acompanhá-lo. – François agradeceu com um sorriso.

Surgiu um rapazote que deveria ter recém-entrado na maioridade – no Reino de Lanes, isso acontece quando um ou uma jovem completa 17 anos. Com uma roupa clássica de bellboy, cumprimentou François com um aceno, elevando o chapéu por um instante. O jovem pintor queria rir, mas achou simpático o gesto.

—Pode vir comigo, ’sieur. – disse Florian, caminhando meio desajeitadamente por causa do estirão de crescimento em sua fase final. François seguiu, observando a decoração dos corredores por onde passava – era de bom gosto, mas às vezes havia coisas demais em determinados ambientes.

Quando chegaram ao segundo andar, Florian parou diante do número 207. François agradeceu com uma moeda de 50 cêntimos e o rapazote se foi, assobiando uma cançoneta familiar. O pintor abriu a porta e, ao colocar o cartão no slot da parede, as luzes se acenderam.

Não era muito grande, mas parecia bem confortável. A pequena suíte, com cama de solteiro à veuve (o que se costuma chamar de “cama de viúva”, com 110cm de largura), oferecia bastante espaço para quem estaria dormindo sozinho. Olhou rapidamente pelo quarto, em tons pastel bem suaves, colocou suas coisas no armário e se preparou para dormir.

Decidiu que acordaria cedo no dia seguinte, para aproveitar ao máximo. O que as ruas de Krantournac lhe reservariam? Deu uma última olhada em seu caderno de desenhos e, com um sorriso satisfeito, adormeceu.