Canta o despertador traduzindo o amanhecer. O sentimento é o da sirene da fábrica, a agressão que desperta as obrigações, a vida, o quase não-existir. O tempo de ficar à vontade, nus, brincando livremente com o lençol chega ao fim de forma abrupta, a violência nossa de cada dia começa.

O movimento de se levantar é arrastado, mas quando saem da cama e vão direto para a borracha dos chinelos é um estrondo matinal, lá estão eles suportando desconfortavelmente o corpo até o banheiro. Uma ducha rápida que não dá para relaxar e a partir de então não param.

[As lembranças de quando vieram ao mundo ficam cada vez mais distantes. Nasceram perfeitos como parte de um todo perfeito. De parto natural foram os últimos a sentir o frescor da vida. Cresceram e sentiram a terra, o chão, o asfalto, até que conheceram um invólucro de materiais vários para escondê-los, sufocá-los, torturá-los (protegerem?).]

Do plástico tapetinho do box para o tecido que rapidamente tem de fazer sua função, nem percebem e já estão os dois ensacados dentro do calçado. Calor, suor, aperto. Ainda em casa, vão à cozinha, café e pão correm para dentro do organismo assim como inicia todos os dias a correria normalizada.

Na rua têm de andar até o ponto do ônibus para que cheguem à estação do metrô, o destino ainda está depois de uma pequena caminhada. Em alguns momentos nesse percurso ficam sem o peso total, mas a posição não muda, estão voltados para baixo no escuro mundo do material sintético das botas.

O trabalho é desenvolvido em pé, vendedor de loja do centro tem de ficar em pé, tem de mostrar serviço em pé, tem de tratar bem o cliente em pé. Anda e anda pelo estabelecimento, pega mercadoria, mostra as opções, devolve para o estoque, organiza o ambiente, sorri. Dentro das botas estão queimando de desconforto o que sustenta o todo perfeito.

[As lembranças de quando brincavam com o ar e depois eram levados à boca com prazer ficam cada vez mais perdidas num passado tão passado... Eram pequenos assim como o bebê que descobria o seu corpinho e, a sensação de serem sugados e explorados por aquela boquinha inocente era de derreter. Até que cresceram e não cabem mais na ingenuidade.]

A hora do almoço é um cheiro de bálsamo, não consegue ser alívio, mas pelo menos não estão sobrecarregados, é pequena a pausa. O trabalhador quer tirar o calçado, mas não pode. Cabe aos pés aguentarem as próximas horas, fazendo as mesmas coisas até que seu horário seja cumprido e ele possa finalmente fazer o caminho de volta, contando, é claro, com seus pés cansados para o conduzirem a casa.

E o tempo passa como sempre passou, as horas para se chegar ao trabalho mais as horas do trabalho mais as horas para voltar a casa. Aquele dia passou, a vida vai passando. Desgasta o relógio, desgasta os transportes, desgasta a rua, e desgasta o homem. O salário não dá para menos desgaste nem para mais gosto.

Dentro do ônibus os pés ainda tentam analisar em sua planta o mapa do sujeito, é difícil, pois estão ardendo em brasas, mas ainda conseguem refletir um pouco, como ter saúde assim? Está tudo em colapso, circulação, rins, fígado e até pulmões... não consegue cuidar de forma adequada do seu todo, do holismo que é a sua natureza, pensam os pés afogueados.

[As lembranças dos primeiros passinhos a brincar ficam amarelecidas no álbum da memória. Tudo era festa, cair e levantar, tudo era liberdade. Depois pular, saltar e dançar, uma alegria que se movimenta com saúde. Crescem mais e jogam bola na rua, no campinho, na praça. Correm sem parar. Brincam com água. Até que os tênis escolares aprisionaram a diversão.]

Em casa, pelo menos o espaço é reduzido, os pés já sabem que não têm de andar muito. Descalçar é a primeira coisa a ser feita, um ritual de fim de expediente. O trabalhador e seus pés sentem o alívio como uma epifania. Tão sagrado é o instante que o homem até suspira. O suspiro leva o recado para o corpo, por hoje chega. Antes do banho, andar descalço é uma recompensa, a medalha de ouro da superação, o nobel da paciência.

O momento tapetinho no box é menos corrido agora. Os dedos sentem até cócegas de água e sabão, os pés preferiam uma banheira, ou bacia, ou balde, mas se contentam com a limitação cotidiana. Pensam que não deveriam se contentar; inchados e exaustos, nem sabem o que pensam mais. Sabem que desejam pernas para o ar e sabem que não terão esta oportunidade. Desejam um escalda-pés com ervas e sal grosso, sabem que não terão este mimo.

A rotina noturna da pessoa é solitária. Alimenta-se enquanto transita pelas redes sociais e fica preso em mais um congestionamento. Agora de bobagens, estratégias de marketing e consumismo inalcançável. Não sabe o que está comendo, mas enquanto isso ri. As comidas pouco nutritivas servem ao corpo e servem à mente.

O cansaço vence e chega a hora favorita dos pés, quando o corpo está na horizontal e finalmente eles podem sentir o ar e, com a luz apagada sonham com o vento, com massagens, com carinho de areia e água do mar, sonham com passos de dança e corrida na grama fresca, sonham com asas... O sujeito não sonha, continua na tela, olhos a faiscarem. O sono também vence. Ele adormece sem saber se relaxa. A exaustão atropela. Ele não consegue sonhar, o despertador está pronto, engoliu o hábito, engessou a respiração.

O oráculo da reflexologia podal pressagia doenças a caminho, mas os pés nada podem fazer, quando esse caminho chegar, eles terão uma trégua. Os pés sabem que o sustento do homem em essência e alma é o sonho. E sonho é o que falta no dono daquele todo perfeito. O todo perfeito que foi imperfeitando ao longo dos trilhos da vida, deixando as pegadas num pungente cotidiano.