Deixara de ver o seu amigo Anacleto sem que houvesse uma despedida clara, apenas um afastamento progressivo, como se as pessoas não terminassem, apenas se esbatessem. Anacleto era um homem bom — de uma bondade grave, quase triste, dessas que parecem pedir desculpa por existir. Falava baixo, com suavidade, como quem mede as palavras antes de as libertar. Tinha boa aparência: loiro já a inclinar-se para o baço, encorpado, alguns pelos discretos nos braços, uns óculos que ampliavam o olhar e lhe davam uma ambiguidade difícil de decifrar, entre firmeza e fragilidade. A voz transmitia segurança, uma espécie de chão sob os pés. Depois veio o azar. O corpo começou a diluir-se na doença, a carne a ceder terreno, e com ela uma irritação surda contra tudo o que não vivera, contra os sonhos que não concretizara antes da tarde descer sobre a floresta da sua vida.

Era doce e inocente, quase brando em demasia, com o perdão sempre pronto a oferecer, como se antecipasse as falhas alheias antes de estas acontecerem. Tinha a sensação — confessara-lho numa noite longa — de que envelhecera sem ter aprendido nada de essencial. Amor, sonho e ambição formavam nele uma espécie de triângulo fatal, mas nunca lhes vira continuidade. Havia que lembrar apenas o passado, dizia, não reconstruí-lo. Não inventava, não retirava arestas; limitava-se a expor, como quem coloca objectos gastos sobre uma mesa e os contempla. Andava à procura de um lugar seguro na vida, ou pelo menos de uma forma de passar o tempo sem mossa.

E um dia, ao fim de um par de anos, que afinal eram mais do que dois, percebeu que ele e a mulher não se amavam. Entendiam-se. Espécie de pacto de sobrevivência, com o silêncio instalado como um móvel pesado na sala.

Chegou a casa numa dessas tardes suspensas e deixou-se cair no sofá com vontade de desaparecer, de ser teletransportado como nos filmes de ficção científica que via em adolescente, onde bastava um feixe de luz para escapar. Fazia meses que removia o entulho da vida: gente que não interessava, empregos sem futuro, papéis inúteis. E, no meio dessa arrumação, deu por si a pensar: “Só agora reparei que ainda estavas aqui — a tatuagem, o ombro a roçar a minha intimidade, o teu hálito sobre a minha boca, os olhos no relógio, a empregada de quartos a bater à porta, o táxi à chuva, a fuga para casa.” O passado não saía inteiro; regressava em fragmentos.

Apesar de se sentir perdido, acreditava que talvez fosse preferível procurar esperança em lugares decadentes do que não procurar esperança nenhuma. Havia bares de luz mortiça onde se sentava a observar casais a discutir, homens sozinhos a beber, mulheres de olhar cansado — como se ali, na ruína dos outros, pudesse reconhecer a sua própria forma de resistência.

O tempo que vivia era a ruína daquilo que definira, por contraste, como vida ideal. Todos constroem um cenário onde acabam por ser figurantes. Ele, dono de uma imaginação pródiga, via imagens encavalitarem-se umas nas outras, para lá da memória; deixavam de ser recordações e tornavam-se arquivo, fichas guardadas num armário invisível. O mais pequeno detalhe projectava-o para um mundo onde era maior do que a frustração, onde vencia os seus fantasmas.

Num café próximo de casa ou no jardim da praceta, observava quem passava. Passava horas nesse ofício silencioso. Decalcava modelos para as suas histórias — personagens-tipo; retratava a ganância sempre que via o homem da pastelaria, alto e outrora robusto, que sofrera um AVC mas continuava a trabalhar. Pulôver cinzento, boina da mesma cor, passos curtos. A mão esquerda, afectada, movia-se em gestos descoordenados enquanto levantava loiça suja e enxotava pombos com a vassoura.

Do outro lado da rua, uma avó atlética, fato de treino rosa, empurrava o carrinho da neta com energia estudada — contraste absoluto com a sogra dele, de sorriso cínico e apreço pelo exótico, sempre pronta para exposições e palestras sobre música erudita e astros, mas incapaz de pegar no neto ao colo: demasiado cedo, demasiado frágil, demasiado pesado, demasiado pegajoso.

Sempre tivera o vício de imitar os que considerava melhores do que ele. Esforço renovado, imerso em prazeres solitários, nunca conseguiu transformar a vida em destino. As manhãs erguiam-se como sempre, trazendo à superfície fragmentos da infância: os refrescos Dawa que a mãe preparava, as cores garridas dos pacotes, mais vivas do que o líquido real; o tilintar da colher no jarro; as bolachas Maria que imaginava scones das aventuras d’Os Sete. Lera a colecção inteira, volume após volume, comprados pela mãe que saía do trabalho de limpezas e passava na tabacaria antes de regressar a casa. Havia ali um amor silencioso que nunca soube agradecer.

Ainda sonhava, por preguiça ou necessidade, com a mulher a preto e branco das madrugadas — sorriso torto, meio dissolvido, presença que tornava as horas menos largas. As personagens que criava viviam nesse mesmo limbo: desamparadas, à procura de redenção.

Era escritor — ou queria sê-lo. Um ofício de depuração contínua, de resgate de frases. Sabia pouco do surrealismo do mundo, mas intuía-o. De um lado, o desencanto e o cinismo; do outro, a elegância, o rigor, a verdade. Impunha a si próprio uma única regra: a liberdade. E nessa liberdade, por vezes, encontrava o único lugar onde ainda respirava inteiro.