Foi de repente no meio da consulta médica. Olavo ficou surpreso, pois afinal eram amigos desde a infância. Rui, seu médico há quase 30 anos, havia acabado de analisar sua bateria de exames de rotina.
Reuniu tudo, colocou em ordem dentro dos envelopes, levantou-se e estendeu a mão a Olavo:
—Aqui eu me despeço de você!
—Como é? — surpreendeu-se Olavo. Que brincadeira é essa?
—Sério. Não vou mais ser seu médico.
Tinham morado na mesma rua quando pequenos e em mais de cinquenta anos de amizade, nunca houvera uma briga ou divergência relevante entre eles.
—Você ficou maluco? O que eu fiz?
—Não é o que você fez. É o que não fez! Quantas vezes já te disse para deixar o cigarro? Tem muitos anos e você continua uma chaminé.
—Ah, Rui. Que bobagem.
—Tudo bem. É bobagem, mas eu não quero cuidar de você quando se agravarem as consequências de tantos anos de fumaça. Eu sei o que acontece com um fumante de longo prazo e seus exames já apresentam indicativos ruins.
—Você também já fumou, lembra?
—Todo garoto de 14 anos na nossa época fumava. Era um glamour. Mas aos 19 anos parei definitivamente. E você não.
Rui continuava de pé, para demonstrar que sua decisão era irrevogável. Olavo permanecia sentado, para demonstrar que era inaceitável.
—Eu pensei que você era meu amigo…
—É exatamente por ser meu melhor amigo e por gostar muito de você que não quero continuar a ser seu médico. Eu não vou suportar ver todo o seu sofrimento. Não tenho condições de tratá-lo nesta situação.
Olavo procurou argumentos, mas estava difícil. De fato, Rui vinha há muitos anos, em todas as consultas, exigindo que ele parasse de fumar. Agora estava pagando um preço alto por ter ignorado esta orientação do amigo ao longo de tanto tempo.
—Então a nossa amizade acabou? — apelou Olavo.
—De jeito nenhum. O que acabou é a nossa relação médico-paciente. Continuaremos sempre amigos. Enquanto o cigarro permitir… — cutucou Rui.
Olavo foi levantando-se aos poucos. Balançava a cabeça negativamente, quase não acreditando no que estava acontecendo. Rui estendeu novamente a mão, que Olavo apertou de leve, sem olhar para ele e saiu cabisbaixo.
No elevador sentia-se como um bêbado: sem conseguir pensar direito, meio tonto. Precisava de um cigarro para se acalmar e colocar os pensamentos em ordem. Como um amigo de tantos anos podia fazer uma coisa dessas? Não se conformava.
Chegando à calçada dirigiu-se a um pequeno recuo, onde ao longo de todo aquele tempo, parava e acendia um bendito “cigarrinho”. Usava o diminutivo para reduzir a importância daquele mal. No percurso, pensou:
—Aquele traidor! Abandonar a nossa amizade por causa de cigarro. Não fiz nada a ele. Dificilmente vai continuar meu amigo depois desta recusa de continuar a ser meu médico.
Sacou o maço de cigarros do bolso da camisa. Estava fechado, novo, pois havia fumado o último cigarro do maço anterior naquele mesmo local, antes de subir para o consultório. Puxou a fita solenemente, como quem faz uma inauguração. Removeu o celofane da parte superior e abriu, sentindo o agradável cheiro que dali emanava. Mas sua cabeça não parava:
—Onde vou conseguir um médico bom e amigo como o Rui? Isso não é coisa que se faça!
Bateu o maço e extraiu um cigarro. Com os dedos amarelados de nicotina pendurou-o na boca. Do bolso da calça tirou o isqueiro. Adorava aquele ritual. Acendeu o isqueiro e parou. Aquela pequena chama acesa pareceu iluminar sua mente:
—É uma estratégia do Rui para me fazer parar de fumar. Claro! Não é coisa de traidor, mas de amigo. Se eu parar, ele continua sendo meu médico. É isso. Jogou tudo para me ver livre dos males do cigarro. Ficou ali parado.
O isqueiro esquentando, o cigarro aguardando nos lábios e ele travando um duelo contra si mesmo. Uma ânsia difícil de controlar, queria trazer o isqueiro para a extremidade do cigarro, acender e proporcionar aquele prazeroso entra e sai da fumaça em seu interior. Por outro lado, um pensamento racional, voltado para sua saúde e muito fortalecido pelo dilema criado por Rui, mostrava outro caminho. Continuar a fumar passou a ser uma renúncia à saúde e ao melhor amigo. Que encruzilhada...
Apagou o isqueiro que já lhe queimava os dedos. Tinha que decidir: era agora ou nunca. Um pênalti decisivo. Se acendesse aquele cigarro não haveria outra oportunidade de largar o fumo. Era fazer o gol ou amargar a derrota.
Tirou o cigarro apagado da boca, mas o manteve nos dedos, em prontidão. Resistia. Olhava o isqueiro e o cigarro, um feito para o outro. E ambos feitos para ele. Um maço cheinho no bolso.
Olhou em volta tentando ganhar tempo. Ninguém notava sua aflição. As pessoas passavam apressadas, indiferentes ao drama que ele estava vivendo.
Voltou o cigarro apagado à boca. Com a mão livre pegou o maço no bolso. Pela primeira vez prestou atenção nas fotos e avisos impressos. Uma coisa horrível. Trombose, gangrena, enfisema, câncer, infarto. Um menu completo de sofrimentos.
Respirou fundo.
—Rui tem razão — decidiu finalmente.
Sua mão fechou-se com força esmagando o maço de cigarros. Foi até a lixeira mais próxima e descartou primeiro o maço, depois o isqueiro e por último, corajosamente, o cigarro retirado dos lábios.
Sentiu como se estivesse jogando fora aquele monte de doenças e sofrimentos que o aguardavam. A sensação era de cura. Teve vontade de lavar as mãos, purificar-se. Sabia que a abstinência seria sofrida e que teria que resistir ainda por muitas vezes à vontade de fumar. Mas o primeiro e mais importante passo havia acabado de dar.
Foi para casa disposto a levar a decisão até o fim. Os fumantes passivos de lá gostaram da novidade. Olavo fez questão de anunciar solenemente o acontecimento à mulher e aos dois filhos, pois assim seria também uma questão de honra. Um tripé sustentaria sua perseverança: a saúde, a amizade do Rui e a sua honra perante a própria família.
Foi muito mais difícil do que pensava.
A vontade de fumar vinha a toda hora. E demorava a passar, se é que passava. Sua esperança era que o tempo, que tudo cura, reduzisse e até eliminasse aquela sofreguidão pelo cigarro. Pelo menos não ficou com aquelas manias de ex-fumante que carrega um maço ou fuma cigarros apagados. Levava adiante a sua decisão com altivez.
Um mês depois ligou para marcar uma consulta com o amigo. Pediu para falar diretamente com ele e, num tom vitorioso, comunicou que não fumava mais. Rui vibrou com a notícia!
As consultas periódicas voltaram a ocorrer normalmente a cada seis meses. Rui ia relatando ao amigo os avanços na sua saúde, decorrentes da ausência do fumo. Claro que todos aqueles anos de fumante deixaram sequelas, mas ao longo do tempo os exames iam revelando que o organismo reagia.
O tempo passava, as consultas ocorriam e Olavo desfrutava das melhoras de saúde, da amizade com Rui e do reconhecimento dos familiares.
Porém, no seu íntimo algo não ia bem. Nunca externou nada, para ninguém, mas a cada dia crescia nele uma insatisfação, no início incômoda e aos poucos dolorosa. Transcorrido uns 5 anos teve certeza de que o tempo ao invés de atenuar, agravava. Todos os dias, seu sono era antecedido por pensamentos e buscas para resolver o que o atormentava.
Chegou para mais uma consulta com Rui, levando os exames recém-realizados. Tinha algo em mente e este era o dia.
Foi no meio da consulta. O médico avaliava cuidadosamente cada um dos resultados, mergulhado naquela papelada de laudos e números. Subitamente, Olavo levantou-se atraindo o olhar de Rui, estendeu a mão e disse:
—Aqui eu me despeço de você.
—Que isso?
—Vou voltar a fumar. Hoje.
—Você enlouqueceu!
—Rui, nestes 5 anos, todos os dias, sem faltar um, várias vezes por dia, eu tive vontade de fumar. Resolvi fazer o que tenho vontade.
—Não acredito! Veja seus exames: tudo melhorou.
—Nem tudo…
Olavo continuava de pé, para demonstrar que sua decisão era irrevogável. Rui permanecia sentado, para demonstrar que era inaceitável.
—Não me conformo — disse Rui derrotado.
—Nossa amizade continua. O que acaba aqui é a nossa relação paciente-médico — mentiu Olavo, consciente de que perdia o amigo.
Rui apertou sua mão de leve, sem olhar para ele.
Olavo retirou-se célere, buscando aquele pequeno recuo de calçada próximo à entrada. No bolso um maço cheinho e um isqueiro novo.
Morreu dois anos depois.
Rui não foi ao enterro.















