Em pequeno ia para Castelo Branco passar férias com a minha mãe. Ela passava os dias a arejar a casa dos meus avós, a varrer o pó que insistia em voltar logo depois, a pôr ao lume o almoço ou o jantar, a levar restos às galinhas e aos patos como quem cumpre uma liturgia antiga. Eu, sem crianças da minha idade, vagueava entre a eira e o quintal com uma inquietação muda. O Avelino, que andava com os pais na lavoura, era o mais próximo de um amigo: pobre ao ponto de me parecer impossível que fosse real, como se a miséria não coubesse numa criança. Não tinha brinquedos — apenas uma camioneta sem uma roda — e eu, habituado a ter pouco mas ainda assim o suficiente, tinha dificuldade em acreditar naquela falta de tudo.

Um dia, a mãe dele deixou-o ir brincar comigo depois do almoço. Chuviscava. Ficámos na cozinha de uma vizinha, com o chão de terra batida baço de humidade. Eu levei três brinquedos; ele tinha a camioneta amputada. Rapidamente percebemos que nada nos unia: ele lia devagar, desconfiado das palavras; eu não sabia esconder o espanto. Anos mais tarde, soube que tinha sido preso por roubo. Não me surpreendeu — certas vidas parecem começar já com a porta trancada.

Havia ainda o Acácio, cujo rasto se perdeu como se nunca tivesse existido, e duas irmãs da minha idade que moravam na rua dos meus avós; trabalhavam cedo, casaram-se ainda jovens, uma delas divorciou-se num sobressalto breve. O meu tio andava à boleia na bicicleta do irmão, um dia, numa curva de gravilha caíram, o mais novo raspou a cara no chão, ficou sem pele na ponta do nariz e, mesmo assim, ao domingo ajudava na missa. O padre, homem de poder rijo, distribuía calduços e puxões de orelhas com a mesma autoridade com que dava a bênção. Chamava “velhacos” aos miúdos que o irritavam e bem-aventurados àqueles que sabiam o catecismo de cor. Ninguém protestava.

Recordo-me de tudo isto agora porque toda a família, ou a parte que ainda tem disponibilidade foi recentemente à terra ver a casa antiga, as paredes gastas, o cheiro a abandono. Ainda não conseguimos regularizar o registo das propriedades depois das partilhas. A burocracia, essa erva daninha, impede que a memória passe a papel. A aldeia está quase sem gente; passaram quatro carros e dois camiões de madeira enquanto ali estivemos, como se aquela terra só servisse para ser levada aos bocados para outro lado.

No regresso parámos num café. A minha tia, cansada da estrada, começou a falar de política — sempre política — Trump, Venezuela, manifestações, desigualdade social. Eu, já exausto do mesmo discurso, queria falar de coisas pequenas: o preço do pão, o cheiro da terra molhada, os vizinhos de antigamente, o rumo que a nossa vidas tomou. Ela continuava na espuma do mundo, eu só queria um porto de abrigo. Há vidas que pedem um milagre discreto, desses que reorganizam o invisível. A minha, passada a observar pormenores e a encaixar porquês, já não tinha espaço para grandes revelações. À medida que envelheço, cresce-me esta sensação de expectativas goradas.

A novidade ainda me desperta, mas já não corro atrás dela como quando achava que o mundo podia acabar amanhã. Volto muitas vezes à infância, aos caminhos que não tomei, ao que podia ter sido. Lembro-me dos conselhos da minha mãe — “não sejas mandrião nem aselha como o Quim Zé” — e tinha razão: ele acabou por não ser ninguém. Palavra difícil, esta. O que é, afinal, ser ninguém? Um vazio? Uma desistência?

Às vezes exagero os meus medos, projectando nos outros o que não quero admitir em mim. Fico à janela da sala, a olhar para fora sem ver nada, perdido como um doente de Alzheimer nos primeiros sinais da sombra. Foi assim que começou um velho amigo do meu pai, de Fornos de Algodres. Tinha regressado de França com a reforma, sonhando com o descanso. Em vez disso, encontrou a doença da mulher — uma presença que a devorava devagar.

Um dia ligou à filha: “Passa cá por casa, está uma caixa em cima da mesa.”

Quando ela chegou, não encontrou ninguém. O pai tinha amarrado uma corda à cintura da mulher e à dele e saído para o quintal. Caminhou com ela até ao rio. Saltou. Arrastou-a.

Na caixa de bolachas, em alumínio com flores pintadas, estavam três mil euros e um papel escrito a lápis: “Estou farto.”

A vida, afinal, é mais estreita do que imaginamos. E nós, por mais que tentemos, raramente somos melhores do que as circunstâncias que nos apertam. O resto — o que fica, o que perdura — é só esta memória acumulada, as vozes antigas, os nomes esquecidos, as histórias que regressam quando menos esperamos. Como se o passado insistisse em lembrar-nos quem fomos, para que não fujamos demasiado depressa de quem somos.