Chega um momento da vida em que as escolhas sobre quem queremos ser e o que desejamos ter ficam cada vez mais explícitas. Entre a pressão social para ter ou não ter filhos, a idade considerada ideal para construir um império pessoal e a sensação constante de que o tempo não desacelera, somos levadas a revisitar o significado da vida adulta.
Os modelos de família são diversos, plurais e estão em constante transformação. Ainda assim, há papéis afetivos pouco discutidos socialmente. Um deles é o da tia presente, aquela que oferece carinho, escuta e atenção, mas que não carrega sozinha o peso das responsabilidades que recaem sobre a maternidade.
A maternidade é, sem dúvida, uma das fases mais intensas e simbólicas na vida de uma mulher. Ser tia, por outro lado, fortalece os vínculos familiares e cria uma rede de apoio afetivo fundamental. Como tia de sete sobrinhos, cada um em uma etapa distinta da vida, da infância à adolescência, posso afirmar com propriedade que aprendo diariamente com eles. Cada idade, cada fase e cada costume ensinam algo novo. Ser tia é experimentar um amor profundo por alguém que, como costumo dizer de forma coloquial, é “amar alguém que nem saiu da gente”.
Essa vivência me fez refletir ainda mais sobre o assunto e sobre a dimensão da responsabilidade que é acompanhar a formação e o desenvolvimento de um ser humano. Educar alguém sem qualquer garantia sobre quem essa pessoa se tornará no futuro talvez seja um dos maiores desafios da existência. Ainda assim, observar e valorizar cada etapa do processo, sem a obrigação de controlar o percurso, é um privilégio. Um prazer que existe independentemente da escolha entre ser mãe ou não.
Para os mais ultrapassados, a expressão “ficar para titia” carrega um tom pejorativo e ainda é muito utilizada para associar mulheres que, por escolhas individuais, decidiram não ser mães. Trata-se de um conceito moldado por uma lógica machista, que insiste em julgar mulheres a partir de suas decisões reprodutivas. A realidade, porém, aponta em outra direção. A escolha de ser apenas a tia, ou de não exercer a maternidade, tem crescido de forma consistente.
Dados das Estatísticas do Registro Civil, divulgados pelo IBGE, mostram que 2,37 milhões de crianças nasceram e foram registradas até o primeiro trimestre de 2025, 146,3 mil a menos do que em 2023, uma retração de 5,8%. Ainda que se trate de uma das decisões mais íntimas na vida de uma mulher, são muitos os fatores que levam à escolha de não ser mãe ou, ao menos, de adiar a maternidade. O crescimento da autonomia feminina e uma visão cada vez mais consciente sobre a divisão desigual das responsabilidades parentais têm levado muitas mulheres a refletirem sobre os custos emocionais, profissionais e financeiros envolvidos, e sobre tudo aquilo que historicamente precisaram abrir mão. A insegurança financeira e social também compõem esse cenário. Diante disso, torna-se necessária uma reflexão: a maternidade não é um instinto universal, é uma escolha pessoal.
No sistema atual, vivemos em uma sociedade cada vez mais polarizada, onde escolhas individuais são tratadas como disputas morais. Quando o assunto é ser ou não ser mãe, isso se intensifica. Para algumas pessoas a sensação do “vínculo eterno” é algo que assusta já para outras, o sentimento do ‘para sempre’ e de construir uma família é sinônimo de realização. Seja qual decisão seja tomada, as nossas escolhas individuais não deveriam ser julgadas, mas compreendidas. A maternidade não é uma obrigação, assim como a ausência de filhos não significa falta de afeto. É uma escolha. E escolher, em si, já é um ato de coragem.
Somos educados socialmente a nos casar e a ter filhos como parte de um roteiro previamente estabelecido, quase como uma linha do tempo obrigatória do que se entende por sucesso e realização pessoal. Esse modelo, porém, desconsidera trajetórias individuais, desejos legítimos e diferentes formas de amar, cuidar e construir vínculos. Nem toda vida precisa seguir o mesmo caminho para ser plena, assim como nem todo afeto precisa se expressar pela maternidade. Reconhecer isso é ampliar o entendimento sobre família, pertencimento e liberdade de escolha.
De uma forma ou de outra, a vida sempre nos mostra que precisamos sustentar as nossas escolhas, sejam elas quais forem. Ao longo do caminho, não há como fugir disso. Essa, sem sombra de dúvidas, é uma das poucas certezas que temos quando o assunto é esse. Não existe certo ou errado, existe aquilo que faz mais sentido quando pensamos no nosso papel no mundo. As pressões sociais que recaem sobre a mulher sempre existirão, ela optando por ser mãe ou não. O ideal é quebrar o tabu e lutar pela nossa legitimidade, pela estabilidade financeira e, principalmente, pelo direito de escolher o que faz sentido. Que a pressão social jamais estrague a nossa história.
Para os tios que já são pais e para os que ainda não são, ter um sobrinho é símbolo de continuidade, afeto e pertencimento. É um amor que atravessa gerações, sem cobranças ou expectativas rígidas, mas cheio de presença.
Meu sobrinho nasceu. Diz que o rosto dele é parecido com o meu. É, diz um pivete, eu sempre quis. Meu irmão merece ser feliz.
(Racionais MC’s. Tô Ouvindo Alguém Me Chamar)















