Entrei naquela fase da vida em que uma parte dos meus amigos começa a se casar e ter filhos. Isso me levou a frequentar uma esquina da internet que eu, por mais curiosa que fosse, não visitava muito por conta própria: a área dos pais. Como uma mulher que ainda não sabe ao certo o que quer fazer com a própria vida e que nunca teve interesse profundo em se tornar mãe, me choquei um pouco ao perceber o quanto essa temática, na verdade, me interessa.
Talvez porque ser mãe é uma variável que impacta tudo na vida de alguém, especialmente agora que estou perto dos trinta anos e casada. É quase o que se espera de uma mulher na minha posição.
Mas, mais do que entusiasmada pela posição de mãe, me vi curiosa pela paternidade; motivada, possivelmente, pelo fato de ela ser uma escolha muito mais conveniente do que o maternar. Na maior parte dos casos, não se é pai sozinho. O cuidado é conjunto, existe rede de apoio, existe algum meio de suporte. Evidentemente, não são todos os contextos, mas aqui faremos algumas generalizações para melhor compreensão do texto e das reflexões que se seguem.
A paternidade é tão mais cômoda que pode até fazer alguns homens viverem mais. Uma pesquisa de 2006 apontou a correlação entre tornar-se pai de meninas e um aumento na expectativa de vida. Estima-se que pais de meninas tendem a viver cerca de 74 semanas a mais por filha. O mesmo efeito não foi observado com filhos do sexo masculino, enquanto as mães tiveram a experiência contrária1.
Essa correlação pode não ser um fato científico evidente quando pensada sozinha, mas aponta para algumas realidades interessantes quando discutimos gênero.
O primeiro ponto, claro, é que esse efeito acontece somente para pais de filhas. É provável que isso aconteça porque os rapazes não são criados para o cuidado ou para a abertura sentimental — algo tido como quase natural às mulheres. As principais teorias sobre essa diferença usam justamente essa lente: por socializarem as filhas para o cuidado, os pais acabam se vulnerabilizando mais.
Além disso, as filhas tornam-se também um suporte emocional e social, agindo como uma rede de apoio na velhice. Por assumirem esse papel, essas mulheres garantem o seguimento correto de tratamentos médicos e incentivam hábitos saudáveis (alimentares, físicos e afins). Por isso, muito dessa longevidade que os pais ganham ao ter filhas é, na verdade, entendido como um resultado da expectativa de cuidado e gestão doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
A paternidade costuma consumir menos tempo e tornar os pais mais adeptos a comportamentos de autopreservação. Ou seja, durante essa experiência, homens se arriscam menos e podem se usufruir do maior desenvolvimento de áreas do cérebro ligadas à empatia e à desenvoltura social, especialmente quando se envolvem diretamente na criação dos filhos.
Enquanto para os homens a paternidade parece estar associada à diminuição dos níveis de agressividade, a uma melhor saúde mental e a um senso de propósito, uma história muito diferente emerge, de maneira paradoxal, para as mulheres que escolhem essa rota.
Para as mulheres, o custo da reprodução já começa alto, com um investimento físico e biológico. Há desgaste celular, alterações hormonais, mudança corporal e, em vários casos, transtornos de saúde mental associados. As mulheres são cidadãs do cuidado, tendo de absorver uma dupla ou tripla jornada de trabalho — empregadas, cuidadoras, faxineiras, cozinheiras.
Por isso, no caso das mães, filhas e filhos tendem a diminuir sua expectativa de vida de maneira igualitária.
Espera-se que mulheres permaneçam cuidando, seja em uma relação romântica, como filhas ou como mães. E, mesmo com essa carga a mais, são também elas que tendem a viver uma vida significativamente mais longa. Porque a mesma coisa que protege as mulheres é a que as exaure e a que as impede de acessar plenamente alguns setores da sociedade.
Nos dois casos, o problema é o mesmo: o que se espera da masculinidade. Enquanto mulheres são socializadas para um comportamento docilizado e submisso, homens sofrem a expectativa oposta: dominância, ausência, agressividade, força. Isso apaga, para os homens, a possibilidade de experienciar seus sentimentos e de se engajarem afetivamente em suas comunidades.
Podemos especular que esse é um dos motivos pelos quais só observamos aumento na longevidade dos pais de meninas: a socialização para a masculinidade é a prisão perfeita. E ela é passada adiante há séculos, de pai para filho, na ausência, no grito ou no silêncio.
Homens vivem uma epidemia de solidão. Dessa insensibilidade ensinada advêm índices maiores de violência, menor senso de autopreservação e rejeição ao senso de cuidado, consigo e com o outro. Através dessas lentes adoecidas, o que passa a vigorar é a agressividade, a rejeição, a raiva.
Enquanto isso, as mulheres nessas relações se tornam filhas, esposas e mães sobrecarregadas, responsáveis por gerenciar as emoções, as amizades, as famílias… Por cuidar.
Mas cuidar não é somente um ônus. É uma cola, é o ato que tece comunidades, cria um senso de propósito, de responsabilidade e de realização. A melhor solução aqui talvez seja justamente o ato de repensar os comportamentos vistos como masculinos.
Homens engajados em cuidar, homens que amam, homens gentis podem viver mais e, assim, ajudar a criar pessoas mais saudáveis e felizes no futuro, independentemente do gênero.
Referências
1 Jasienska, G., Nenko, I., & Jasienski, M. (2006). Daughters increase longevity of fathers, but daughters and sons equally reduce longevity of mothers. American journal of human biology. The official journal of the Human Biology Council, 18(3), 422–425.















