Uma pergunta ou constatação que nunca se cala e não se encerra no contexto da morte física. Existem inúmeras finitudes que nos atravessam e de alguma maneira nos damos conta ou não.
Certo dia, ao conversar com uma paciente, ela disse que o marido estava desempregado há algum tempo. Acostumado a ter projetos, estar inserido e pertencente, ver a agenda ocupada integralmente dando uma sensação de importância, logo se sentiu inútil, sem função, alijado do processo e da margem.
Então ele teria dito a ela que, algumas vezes, ao se olhar no espelho, ele sentia como se tivesse morrido e ninguém havia dado conta do corpo. Não houve pronunciamento, velório nem enterro. Estaria ele se sentindo tão só que a morte em vida era real.
Essa fala me tocou profundamente, pelo tamanho da dor que ali era sentida por aquele sujeito, beirando um desespero e ao mesmo tempo a invisibilidade sem que houvesse um acordo anterior combinado sobre isso. Temendo o horror dos horrores, me pus a pensar o que o espelho também poderia estar me dizendo.
Estar fora do jogo, independentemente de qual game está sendo jogado, é uma espécie de paralisia e isso pode transitar pelo tema parar de viver ou morrer de alguma forma.
A morte física, aquela tradicional à qual estamos acostumados a ver ou vivenciar de alguma maneira, até que cheguemos ao nosso próprio término, é muitas vezes aceita ou acostuma-se a ela ou até se torna aceita, mesmo antes de acontecer de fato, em algumas situações, porém são as outras mortes que nos acossam no sentido. Nos inquietam, nos tiram o chão.
A paralisia da vida se dá de maneira chamativa, quando o sujeito murcha no olhar, na compreensão dos dias e ainda na paixão, sobretudo, ao seu redor. Quando se acredita que algum tipo de perda é tão maior que sua possibilidade de ganho que te invalida em seus projetos, seu trabalho, seus amores, seu lugar de fala. Algumas sementes foram plantadas, mas por algum motivo não houve frutificação ou florescimento, o estágio de aprendizado foi barrado de algum jeito, a partir desse fato se enxerga um vazio e uma solidão, que remetem ao buraco, se entra em pânico.
Quando a dor grita e sangra travestida de inúmeros sintomas, dá falta de pertencimento, de validação, de ser amado ou enfim... Ela se apropria da razão, ocultando a mesma do pensamento amigável e favorável. Ao invés disso, o sujeito é tomado de sentimento e emoção apontando para a perda de suas referências, se é que já as teve. Por isso, entra em rota de colisão com sua valia e vivências. Invalida sua história construída e ao mesmo tempo sinaliza essa conjuntura para o externo que a rejeita de volta.
O grito é um pedido de socorro para algo que incomoda, chateia e distrai do aprofundamento de si mesmo. Um sentimento de que alguma coisa precisa ser reparada, sofrer uma redenção, um cuidado no final das contas.
Ainda podemos perceber um silêncio ensurdecedor que te leva a crer que o tempo se esgotou e não há mais saída. Renunciando ao aprendizado que se deu ao longo da vida, que te faz capaz de catapultar de forma literal para um outro estado de coisas.
O olhar piedoso e gentil consigo mesmo, fazendo ajustes à nova realidade em andamento, é um dos caminhos para não soltar a alça do caixão.
De algum jeito morremos todos os dias em vida e renascemos, e entendo que ao renascer existe um reset da máquina humana, que gera um esquecimento de coisas já vividas, e ao reiniciar inaugura uma reconfiguração para receber novas experiências, habilidades e compreensões.
Se um amor nos faz morrer, o ato de reviver te faz entender que há outras milhares de pessoas para conhecer, se alguém te desprestigiou, há outros ávidos pela sua essência. Se você faliu, há outras direções que vão te levar a novos sucessos; se você não cabe mais em uma região, vale lembrar que o mundo é gigante. Dessa forma a vida se movimenta e com isso vai-se de um lugar para outro.
Arrisco dizer de forma bem particular que a gente para de viver, ou morre, quando paramos de acreditar que há mais vida em cada um de nós do que aquele momento nos mostra. Que há uma força de vida tão poderosa quanto a força de morte. Que as lentes pelas quais nos enxergamos mudam e os cenários também, e isso acontece em fração de segundos.
Quando delegamos a qualquer outra coisa ou pessoa, que não seja a nossa própria dominância, a responsabilidade de nos salvar das mortes subjetivas, e abrimos mão da limpeza mental, bem como da chance do movimento corporal pela dança, escrita, fala, ou talvez outras ferramentas simples e naturais, será sempre mais difícil reinstalar os dispositivos necessários a uma outra vida.
Uma grande psiquiatra uma vez ensinou que é pelo lado “são” que desenrolamos o novelo da loucura, é alguma parte sadia que nos faz levantar da parada da vida. Combinados de fé, amigos, novas ideias e ainda de bons encontros, que reencarnamos, mas genuinamente somos nós que saímos do nevoeiro ou da morte em vida.
Nos vemos já! Já!















