Vivemos tempos diferentes, rápidos, inquietos e cheios de vírgulas, aspas, muitas aspas, além de reticências, parênteses e hiatos. Um tempo ao qual se denomina digital, ainda tão novo, mas tão avassalador. Não é um tempo de maturidade, não deu tempo ainda de vivermos com longevidade esse tempo, ou de aprender nada sobre ele, mas sentimos de perto uma sensação de celeridade, solidão e urgência individual, que nos gera um cansaço insano e uma busca incessante por algo que não conseguimos materializar. Estranho me parece estar atrasado para viver um tempo que é só seu e não do outro.

Bem, esse é o agora que nos levará ao depois, a depender de nossas escolhas. Acertadas ou não, serão sempre nossas escolhas.

Pessoas que se atropelam em seus desejos e necessidades, confundindo um com o outro de forma absurda. Uma atmosfera impiedosa de não escuta, de não acolhimento para com o outro, pois não há tempo para trocas reais. O imaginário e o virtual são mais possíveis. O outro pode me incomodar, tirar meu foco e me distrair daquilo que julgo mais urgente. E se isso for verdade, qual seria o problema se mais inteligente é quando nos reconhecemos no outro, para voltar para o caminho de casa. Sem o outro, isso não se faz verdadeiro.

É na paz que se perdeu e no abuso da solitude que passamos a não desejar mais o outro humano. Tudo é instantâneo pois não se pode esperar, tudo pede passagem para algum lugar, estágio ou conquista, mas chegar aonde, de que forma, se os cacos vão ficando pelo caminho. As conexões funcionais subestimam as pessoas e as jogam para um campo da performance. O interesse é condicional em cem por cento das relações.

Criar valores, hábitos e regras não é uma coisa da atualidade, gera sentido e direção na verdade, mas o que é cruel é o esgotamento a paralisação do pensamento criativo, diferenciado, que dá lugar ao custo incessante de estar incluso, de ser uma cópia validada ou ainda supostamente abençoada, mas quanto mais se clama por isso, mais distante do centro se fica, é uma equação não tão simples que nos afasta, empobrece e rouba nossa energia.

O que trai a própria essência da vida é o ato de não saber viver construindo diferenças a partir do quanto você pode enriquecer uma tratativa. Se o saber for mal usado ou usado de forma periférica, ele se vinga humilhando quem o subestimou, mesmo que de forma sutil. Parece estranho dar vida ao saber dessa forma descrita, mas é assim mesmo que diferenciamos o sábio do não sábio.

Inteligência cognitiva e sabedoria emocional transformadas em competência podem ajudar muito nas transições da humanidade, mesmo que tenhamos poucas informações ainda, para criar um modelo ou repertório. As narrativas ainda são apelativas e abundantes, porém menos acertadas. Ainda é um tempo de perguntas internas, sem qualquer possibilidade de respostas que nos resolvam. Quando elas chegarem, certamente estaremos diante de novas transformações, entretanto, viver cada processo entendendo onde ele te levará e muitas vezes pegar as rédeas da vida, pode ser um bom começo para tanta coação e submissão.

Nunca vimos tanta gente cansada com tão pouco tempo de vida, desistindo de seus caminhos que lhe deram vida até então, desistindo de seus amores, trabalhos, família, e assim seguem perdidos em conexões supostamente mais frenéticas, intensas e falsas. A resiliência, a força e a coragem deram lugar àquilo que não se é, para caber em estereótipos atuais. Um exercício de troca de figurino, elevando a margem de suposto acerto no mundo da fantasia.

Então tudo muda… e mudamos também, e é por isso que estamos aqui a falar dela. A ideia é que podemos fazer diferente a partir de todo esse contexto, não de forma ressentida ou fazendo apologia ao antigo, mas revisitando memórias que deram sentido ao que trouxemos até aqui. Tem um ditado que diz que “a criatura se torna maior que seu criador” e de fato em todo tempo essa afirmativa tem sido verdadeira, mas em que pese a sua plenitude absoluta, podemos fazer muitas coisas para não nos sentirmos acometidos por uma preguiça e paralisia cerebral que leva os humanos a entregar as vidas, pensamentos, gostos, desejos e inteligência a uma ferramenta criada pelo próprio homem.

Já existem estudos e vivências querendo correr da modernidade fugindo como naqueles dias de apocalipse, que vemos em filmes de ficção. De algum modo, as pessoas parecem penduradas em um penhasco, seguras apenas por um galho, buscando se agarrar à corda ou ao tronco que esteja por perto.

Gente que está colocando tudo dentro de casa novamente, para derrubar o minimalismo vigente, porque esse endureceu e mimetizou as casas. Um alô ao telefone porque percebeu que alguém querido não está mais acessível. Outros se dando conta de que essa palavrinha tão empoderada “solitude” deixou um gosto de isolamento e solidão, abaixando a imunidade e trazendo doenças. Podemos ver a volta das comunidades temáticas, seja para cozinhar, rir ou jogar. Gente grande querendo ser criança e brincando de ser criança, para distrair o medo, a falta de afeto. Abraços apertados e longos ao mínimo encontro, para eternizar um momento tão fugaz.

E talvez seja bem esse equilíbrio entre o virtual e o presencial, entre o digital e o espiritual que nos salve. Sempre acreditei que não é a exclusão que nos trará a tão desejada certeza do sucesso, validação ou ainda qualidade de vida. Se pensarmos nas palavras felicidade, amor, sucesso, percebemos o quão individuais elas são com definições tão particulares. O que é validado é o conceito da certeza que estamos trilhando um caminho mais suave, que no simples, e não simplório podemos nos encher de alegria, e que na ação verdadeira e legitima podemos alcançar o sucesso. Seguimos..., mas de forma auto e coletivamente responsáveis.

Feliz vida compartilhada entre o virtual e humano em 2026

Nos vemos já! já!