Ao longo da minha trajetória como psicólogo, tenho escutado inúmeras narrativas sobre a maternidade. As singularidades dessas experiências clínicas me levaram a refletir, de forma mais específica, sobre algo que tem sido pauta de algumas queixas que chegam a mim: o sonho de ser mãe.

Portanto, quando se fala em “sonho”, pode-se pensar no próprio ato de sonhar, no conjunto de sensações, percepções e representações que nos ocorrem durante o sono ou, ainda, em um ideal ou ideia dominante que se persegue com forte interesse, sendo, este último, o foco da reflexão.

O sonho enquanto um ideal ou ideia que faz parte de nosso interesse veemente significa dizer que ele faz parte de algo que desejamos incorporar à nossa existência enquanto um projeto. Dentro dessa idealização, fazemos para si um projeto existencial, decorrente tanto do desejo quanto das possibilidades que temos de nos reinventar.

Quando Beauvoir (1980) diz que “não se nasce mulher, torna-se”, pode-se entender que não nascemos sonhando ser alguma coisa. Tomamos esse sonho enquanto um projeto — pois que mulher nasce, realmente, sonhando ser mãe? De onde surge, para a mulher, que ser mãe é um sonho?

Da mesma forma que não nascemos sendo um mero gênero, a mulher não nasce querendo a maternidade para si, como se esse desejo não tivesse um plano de fundo, situado em tempos e espaços concretos e sociais. Ser mãe é algo que se dá na relação dessa mulher que sonha, com o mundo, isto é, socialmente. É a própria sociedade que dita esse papel, e assim a maternidade torna-se um ideal situado entre as expectativas atribuídas ao feminino e as experiências concretas vividas pelas mulheres.

Do contrário, a mulher que, por algum motivo não se torna mãe, gera um mal-estar em seu meio social, pois ela não estaria cumprindo um papel que lhe foi pressuposto: seguir seu “instinto materno”, conforme cita Mansur (2003). A mulher em tal situação pode passar a ser vista como incompleta, sem conquistar seu lugar na sociedade — que é o da mãe — tornando-se, nesse sentido, uma pessoa ‘sem-lugar’.

Afinal, qual seria o lugar da mulher no que é considerado feminino, se não seguir esse curso “natural”? Segundo tal autora, a mulher que não alcança esses ideais — casar-se, ter filhos e cuidar deles — carrega consigo um estigma, resultado das expectativas sociais e culturais que lhe são impostas.

Nesse sentido, não é incomum vermos que, na infância, os brinquedos e as brincadeiras já apresentam conotação de gênero e de funções sociais. Para as meninas, muitos deles evocam, sobretudo, o cuidado: como nas brincadeiras de casinha ou de cuidar de bebês.

Segundo Beauvoir (1980), a sociedade ensina que é pela maternidade que a mulher realiza plenamente seu “destino fisiológico”, sendo essa a sua “vocação natural”, já que todo o seu organismo estaria voltado à perpetuação da espécie. Ser mãe aparece, então, como uma “vocação natural”— ou como uma exigência disfarçada de natureza.

Mas até que ponto esse “natural” é, de fato, algo autêntico? Sartre (1978), por sua vez, afirma que o mundo dos possíveis existe, não como algo vago ou indefinido, mas como uma rede situada pela história, com suas próprias contradições. Ser mãe, portanto, é uma possibilidade — entre muitas outras.

Nesta premissa, é ao escolher e realizar uma dessas possibilidades, superando o campo do possível, que construímos nosso projeto existencial, segundo o autor. No entanto, esse projeto dá origem a uma realidade que muitas vezes desconhecemos, mas que, ao manifestar e engendrar conflitos, influencia o curso de nossas vidas. Mesmo as escolhas que parecem nossas, carregam marcas da sociedade e da realidade em que nos situamos.

É nesse ponto que algo como “sempre quis ser mãe” merece ser refletido profundamente. O que essa afirmação carrega? O que a antecede? O sempre é quando? Que imagens foram alimentadas, repetidas, naturalizadas ao longo da vida daquela que diz que sempre quis ser mãe, a ponto de entender este desejo enquanto um sonho? Que determinações sociais e culturais estão implicadas nesse desejo? A maternidade tem sido, historicamente, apresentada como um destino para as mulheres, um modo de ser que se confunde com o próprio feminino.

Mas se nada nos define a priori, como diz Sartre (2014), por que uma mulher “sempre” desejou ser mãe? Até que ponto esse sonho é, de fato, um sonho autêntico? Ou será que ele expressa um devir-ser rigidamente construído? O quanto há de obediência a um ideal? As respostas partem de vivências de sujeitos situados, não existem respostas de natureza “certa” ou “errada”.

Além disso, nenhuma dessas perguntas significa negar o sonho de uma mulher, nem deslegitimar o desejo daquelas que veem a maternidade como parte de seu projeto existencial, dentro do mundo dos possíveis. A legitimidade do sonho é de quem o deseja para si, e o respeito à integridade da mulher para com suas decisões não deve ser negociado, e sim ouvido, acolhido e, também, refletido.

Portanto, o que se propõe aqui é outra coisa: levar ao oculto, ao que não foi refletido ou tensionado. Perguntar a quê este sonho serve. Perguntar de onde ele vem. Perguntar o que significa escolher, quando tantas escolhas já nos chegam prontas. A maternidade é situada e, nesse sentido, pode ser uma escolha refletida e autêntica. Mas, para isso, talvez seja preciso também olhar para aquilo que orienta esse desejo e o seu projeto.

É a mulher, em si?

Referências

Beauvoir, S. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. 4 ed. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1980.
Mansur, L. H. B. Experiências de mulheres sem filhos: A mulher singular no plural. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 23, n. 4, p. 2–11, 2003.
Sartre, J. P. Questão de Método. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
Sartre, J. P. O existencialismo é um humanismo. Trad. João Batista Kreuch. 4. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.