Nascemos para trilhar um caminho e muitas vezes podemos viver uma vida sem saber por onde ir. Isso traz angústia, desespero, insatisfação, abatimento e até mesmo traz vícios e doenças. Outras vezes no meio do caminho encontramos saídas. O amadurecimento te faz enxergar com mais clareza possibilidades, e você as aproveita; você se encaixa em algum viés e passa a pertencer a algum coletivo. “Se enquadra”, se descobre, gira a maçaneta, enfim…

Em outras situações, você sabe exatamente o que quer desde sempre e trilha um caminho com fôlego e sobre fôlego. Tem uma força que te impulsiona para frente e te encaminha, mesmo que momentaneamente você duvide de si mesma.

Surgem desafios que você nem sabe bem como conduzir, mas você está lá firme e forte, às vezes, nem tão forte ou corajosa, mas determinada a entender o que é a situação, e com isso, consegue se provar capaz de virar o jogo, buscar encaminhamentos, traduzir a questão de forma a abrir-se para que soluções palpáveis e viáveis tomem forma. Como se num passe de mágica tudo ficasse tão claro e fácil.

É importante reconhecer que seria pequeno e injusto não dar crédito a um trabalho peculiar, firme, necessário e preciso, com entregas individuais sobre-humanas e responsabilidade absoluta na busca de um desfecho favorável e positivo.

Todos esses vieses são parte do humano, e se declaram em uma ou outra pessoa ou mesmo em uma mesma pessoa a depender da fase, mas de qualquer maneira não é nada novo, é do humano testar-se, desafiar-se e encontrar caminhos.

Então, o que é original nisso tudo, a não ser a credibilidade que você se dá, que não é sobre arrogância ou cegueira, mas sobre uma clareza inaugural que te acompanha ao longo do seu caminho. Alguns místicos chamariam de intuição; eu chamo de estruturação de suporte: é aquilo que te serve de base e que te sustenta quando o caminho parece ser o inverso daquele que você está trilhando.

Em tempos assim, o indivíduo certamente ficará confuso e distraído com os ruídos externos, achando-se mesmo medíocre ou controverso, aquele a quem denominam como fora do contexto, dos trilhos, incomum demais ou esquisito. Talvez um pouco fora da roda que gira todos para um mesmo lado.

Não há problema em girar no sentido contrário, desde que você tenha nítido o seu domínio sobre aquilo que está fazendo, sobre os elementos que te compõem, sobre as ferramentas que pode e tem para utilizar, argumentos que podem te salvar e o repertório que te acompanha e contribui de forma definitiva a te diferenciar dos outros.

E se diferenciar dos demais é importante, legítimo e precisa ser resgatado, pois não há como se ter verdade em um discurso que é ao mesmo tempo de todo mundo, padronizado, de respostas e soluções iguais. Os posicionamentos são normalmente superficiais a respeito de uma venda qualquer de algo que parece ser bom para o outro, que leva a indução que tudo aquilo que você sabe, tem ou é ou faz, ainda é pouco, insuficiente.

No final das contas, te desmerece num grau em que você até acha que precisa entregar mais, performar mais, ser diferente daquilo que você é, para caber, para pertencer, para ser significado para alguém. Uma validação performática e inconsistente, que mais adoece do que gera vida.

Interessante que por muito tempo, e principalmente no mundo do trabalho, as pessoas se destacavam pela criatividade, pela inovação e pela forma como conduziam um projeto ou assunto de forma a encantar e surpreender, mas parece que isso não é mais tão necessário a princípio, desde que você esteja fazendo parte de uma tribo, que te isola de todo o resto, te protege e ao mesmo tempo te sufoca tirando sua liberdade. Você consome a ideia de que é legitimado por esse grupo, local ou condição, e para de pensar e emburrece.

Quando olhamos a atuação de algum coletivo padronizado, seja nas roupas, no tipo de sapato, no esporte, na política ou na religião, isso se torna concreto para entendermos essa grande engrenagem. O sujeito some no meio de um bolo de gente que pensa e age igual, e com isso perdemos o indivíduo e a esperança de que venha dele algo surpreendente.

Faz-se necessária uma montanha de coragem para se manter original sem que para isso haja necessidade de deixar o cabelo crescer, usar uma túnica e ir morar no meio do nada indo para lugar algum. Não que isso não seja bom, e por vezes necessário para se manter lúcido, entretanto, entendo que o nosso grande desafio na atualidade é criar essa possível vida inteira como eu gosto de chamar, sem precisar se ausentar tanto, sem se isolar, cortar redes presenciais, digitais ou imaginárias.

Dói! É difícil para o entendimento do outro que você seja tão criticamente analítico sobre política, religião, ideologia, conhecimento, tendências, o que faz parecer que você está cometendo um sacrilégio, que você será duramente julgado ou que já tem uma cadeira efetiva no inferno.

E se o inferno for exatamente não criticar, não se soltar dessa coisa que impregna e que nem bem sabemos o que é, que deixa todo mundo com uma única cor, com ações egoístas e pensamentos partidos. Bora manter as diferenças, porque elas são normalmente mais coloridas, inteligentes e divertidas.

Nos vemos já! já!