Sabe aquela pessoa para quem você pergunta:

—Oi, tudo bem com você?

Ela mal ouve a pergunta e logo responde:

—Então, vou indo na medida do possível.

Se você continuar o diálogo, é provável que ela (como uma boa contadora de histórias) discorra sobre a última dor muscular que a acometeu, a última gripe que ela pegou, o chefe que não a valoriza, o filho que não telefona com a frequência que ela gostaria, o marido que a ignora, o telefone que não para de tocar etc. A lista de queixas é longa na vida dos queixosos crônicos. Sim, o termo já está sendo cunhado na área da saúde mental justamente porque queixar-se constantemente pode causar prejuízos à saúde física e emocional, além de acarretar danos significativos nas conexões neurais como a plasticidade negativa1.

A plasticidade cerebral negativa ou desadaptativa ocorre quando as mudanças estruturais no cérebro prejudicam a vida diária do sujeito, afetando sua saúde física e mental. Isso ocorre em casos de condições neurológicas ou lesões que levam a déficits cognitivos ou motores, experiências traumáticas, vícios, estresse e maus hábitos, como a reclamação crônica. O cérebro se acostuma a reclamar e a interpretar tudo pelo viés da negatividade, pois acaba construindo comportamentos e crenças disfuncionais.

A BBC2 publicou uma reportagem sobre o assunto, destacando que reclamar está relacionado a uma questão evolutiva de proteção. Isso faz com que sejamos mais suscetíveis a identificar ameaças e problemas, em vez de apreciar os cenários agradáveis ao nosso redor.

Reclamar sobre um mundo imperfeito e sobre as adversidades da vida é natural. O problema ocorre quando o ato de reclamar se torna um comportamento habitual, a ponto de a pessoa não perceber que essa tendência negativa gradualmente tomou conta da sua vida. Assim como na síndrome do sapo fervido, em que o sapo (dentro de uma panela) não sente a temperatura da água, que aquece progressivamente, e morre “quentinho” e aconchegado no ambiente prejudicial que escolheu para permanecer.

Semelhante à síndrome do sapo fervido, o queixoso crônico se acostuma a reclamar constantemente, sem perceber que, aos poucos, esse comportamento o "matará". Trata-se de um comportamento que, de tão crônico, se tornou natural na vida do sujeito. Isso afeta não só quem reclama, mas também as pessoas com quem ele convive.

Neste artigo, pretendo discorrer sobre a síndrome do sapo fervido à luz do comportamento humano e sobre como o hábito de se queixar pode alterar a estrutura das regiões neurais.

Vejamos a seguir a seguinte situação:

João é um idoso de 75 anos que sofre com dores intermitentes nas pernas causadas por má circulação venosa. O médico lhe indicou uma cirurgia para a remoção de varizes e a prática regular de exercícios físicos em uma academia. Ele perguntou se tanto a cirurgia quanto a academia seriam obrigatórios em seu caso. O especialista respondeu que, embora importantes, não são obrigatórios. João decidiu não fazer nem a cirurgia nem os exercícios físicos e saiu do consultório reclamando. Hoje, leva uma vida com dor e queixa crônica.

Laura tem 64 anos e sempre cuidou da casa e dos filhos. Nunca trabalhou fora e sua vida se resume a cuidar de parentes doentes. Mesmo tendo escolhido assumir todos os problemas da família e ser acometida por um burnout (que a fez “perder a voz”), Laura não estabelece limites nem busca por mudanças para ter uma melhor qualidade de vida. Ela se transformou em uma queixosa crônica e, assim como no "dia da marmota", acorda todos os dias da mesma forma, reclamando.

A característica em comum entre os dois casos é que os dois personagens, mesmo percebendo que se encontram em uma situação difícil, não reconhecem a necessidade de mudança, tornando-se "fervidos" pelo declínio gradual.

No contexto dos reclamantes, a síndrome do sapo fervido se refere às pessoas que de tanto se acomodarem às situações negativas em sua vida, as percebem como algo normal, corriqueiro (mesmo que isso mate a sua produtividade aos poucos). Quanto maior a apatia e a falta de reação diante de um problema, maiores são as possibilidades da situação se agravar mais ainda.

O ato de reclamar faz parte da condição humana. Afinal, somos seres pensantes e refletimos constantemente sobre o que nos acontece diariamente, e nem tudo nos agrada. No entanto, há que se tomar cuidado quando paralisamos na reclamação, e não percebemos que ela afeta nossas relações em casa, no trabalho ou com a família. Como consequência os reclamantes podem perder grandes oportunidades de mudança, e sentirem-se frustrados como se “tudo acontecesse na vida do outro, menos na minha”.

Do ponto de vista neurológico, o pensamento negativo repetitivo pode levar ao fortalecimento de conexões neurais que farão com que a pessoa repita esse mesmo comportamento mais facilmente no futuro. Isso ocorre porque reclamações repetidas religam o cérebro para comportamentos negativos, mesmo diante de situações positivas, segundo artigo publicado no Fórum Econômico Mundial3. Ainda segundo um estudo da Universidade de Stanford, reclamar por até 30 minutos pode danificar o hipocampo, região do cérebro responsável pelo aprendizado e pela consolidação de memórias.

Diante disso, não é difícil supor que o hábito de reclamar é como a síndrome do sapo fervido: as reclamações começam de forma branda, como uma queixa, e gradativamente "fervem" a mente do queixoso sem ele perceber.

É importante salientar que o indivíduo exposto a reclamações também pode sofrer consequências negativas tanto na saúde física quanto na saúde mental. O fato de termos neurônios espelhos, que é a capacidade de espelharmos o comportamento do outro por meio da observação, nos torna susceptíveis a imitarmos com facilidade as mesmas narrativas de uma pessoa queixosa na medida em que convivemos com ela. Ademais, a reclamação recorrente pode facilitar o surgimento de pensamentos intrusivos, depressão, ansiedade e baixa autoestima.

Outro efeito nocivo, é que a reclamação constante eleva os níveis de cortisol, hormônio do estresse, tornando a pessoa mais vulnerável a desenvolver hipertensão, por exemplo.

Muitas vezes, os reclamantes crônicos esperam que as pessoas sintam pena de sua queixa, empatizem com ela e, principalmente, a validem. Dessa forma, eles se sentem pertencentes e acolhidos em seu "mundo de calvário". Em vez de amigos sinceros, buscam apoiadores em suas causas intermitentes de lamúrias e angústias. Nas redes sociais, isso tem se tornado cada vez mais frequente para captar seguidores. Os chamados haters (do inglês hate, ódio) são internautas que postam e disseminam comentários ofensivos e/ou agressivos a pessoas ou conteúdos.

A insatisfação crônica também ultrapassa o contexto familiar e social, podendo estar presente no ambiente de trabalho. É aquele colega que reclama do salário, da falta de oportunidades dentro da empresa, da comida do refeitório, das conversas paralelas no corredor, das festas de final de ano etc. Diante de uma lista de reclamações como essa, é preciso se perguntar por que esse funcionário trabalha onde trabalha.

A boa notícia é que, mesmo que a insatisfação tenha se tornado uma rotina em sua vida, é possível "quebrar o ciclo" da reclamação crônica e ter uma vida mais leve e positiva. A seguir, veja algumas dicas segundo a Verywell Mind4, plataforma especializada em saúde mental:

  • Escreva: tenha um diário, agenda ou caderno e expresse livremente seus problemas do dia, como você se sentiu em relação a eles, e quais estratégias utilizou para lidar com eles. Transfira suas dores para o papel, em vez de deslocá-las para outras pessoas (que não têm nada a ver com o que você está passando). A escrita pode ser uma ferramenta terapêutica eficaz, pois ajuda a organizar pensamentos, reavaliar sentimentos e autorregular emoções, na medida em que colocamos no papel o que estamos sentindo.

  • Busque ajuda psicoterápica: em vez de apenas reclamar, busque auxílio! O atendimento psicológico pode ajudá-lo a superar problemas e questões emocionais, permitindo que você se conheça melhor e desenvolva habilidades de regulação emocional e outras competências importantes para a vida cotidiana. A psicoterapia também pode contribuir para o desenvolvimento de relacionamentos mais satisfatórios, fortalecendo a confiança e a autoestima para uma vida mais leve e equilibrada.

  • Converta a reclamação em ação: o ato de reclamar está intimamente ligado à insatisfação, seja com situações ou pessoas. Reclamar, não fará o seu problema sumir, mas aumentará os seus níveis de cortisol. Concentre-se no que você pode fazer para dar certo, busque estratégias para resolver o que não está bom no momento, execute-as!

  • Pratique a gratidão: se reclamar é uma doença, a gratidão é o tratamento para a cura. Faça uma lista das situações ou pessoas mais agradáveis com as quais você teve a oportunidade de conviver. Estudos5 já comprovaram que ser grato auxilia a pessoa a se sentir mais satisfeita com a vida e a alcançar uma saúde mental melhor. Além disso, ao prestarmos mais atenção às situações favoráveis (em vez de nos concentrarmos nos percalços), podemos acentuar sentimentos de emoção positiva.

  • Evite co-reclamar: é bastante comum queixar-se a amigos ou familiares sobre alguma dificuldade ou dilema enfrentado. Isso ocorre principalmente porque o reclamante deseja que sua reclamação seja reforçada e validada. No entanto, quanto mais contamos sobre um problema, mais o revivemos. E quanto mais o revivemos, mais o ruminamos e isso pode ter efeitos bastante prejudiciais para nossa saúde. É o que aponta um estudo6 feito por psicólogos da Universidade de Liverpool no Reino Unido, com mais de 32.000 pessoas, em que se constatou que “pessoas que não ruminavam ou se culpavam, tinham níveis muito mais baixos de depressão e ansiedade”.

Mude a perspectiva e transforme sua reclamação em uma ferramenta de mudança. Não permita que os pensamentos "fervam" sua mente, mas que eles a refresquem com novas ideias. Toda e qualquer mudança começou como uma reclamação. Como dizia Sigmund Freud, pai da psicanálise:

Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda.

Reclamar cronicamente pode ser tão viciante quanto fumar, pois se trata de um hábito "prazeroso" que vai te "matando aos poucos". A pessoa fica em uma zona de conforto e não percebe os efeitos da estagnação pela falta de realização e propósito. Vê o mundo pelo "vidro do carro": a vida passa, e ele fica parado. Quentinho e confortável, como na síndrome do sapo fervido, até morrer sem perceber. E então virá o fim.

Notas

1 Effects of complaining versus gratitude on brain health.
2 O ignorado impacto na saúde de quem reclama o tempo todo.
3 Why complaining rewires your brain to be negative.
4 How and Why You Should Stop Complaining.
5 The Science of Gratitude.
6 Rumination: The danger of dwelling.