Existe uma comoção mundial em torno da trilogia que J. R. R. Tolkien criou e, apesar de não ser o gênero de livro ou filme que me desperta o interesse, eu entendo tanta gente ter se encantado pelo universo que ele inventou.

A começar pela própria vida do Tolkien que já desperta certa atenção. Ele nasceu em Bloemfontein, na África do Sul, e perdeu o pai ainda quando estava na primeira infância. Após esse evento trágico, a mãe decide retornar para a Inglaterra com ele e o outro filho. Na juventude aprende diversas línguas e tem o interesse por mitologias e línguas antigas despertado. Forma-se em Oxford e todo esse contexto serve como base para pano de fundo das suas obras.

Por ter participado da Batalha de Somme, um dos conflitos mais mortíferos da história, durante a Primeira Guerra Mundial, Tolkien teve marcas profundas em sua vida. Não precisamos mencionar o horror da guerra, mas o companheirismo e o contraste entre o que se é perdido e a constante esperança que é necessária manter para que haja força para seguir, seriam temas constantes em seus livros posteriormente.

Apesar de frequentemente traçarmos esses paralelos entre suas obras e as Guerras Mundiais, Tolkien rejeitava e explicava a diferença entre aplicabilidade e alegoria. Ele dizia que as suas obras não tinham alegoria, ou seja, a imposição do autor de símbolos e analogias. E que era necessária a aplicabilidade: o leitor aplicar as informações adquiridas da leitura para a sua vivência.

Bom, Tolkien teve uma carreira acadêmica vasta. Foi professor em Oxford e em seu tempo livre começou a trabalhar nas suas histórias da Terra-Média. Sua obra mais conhecida, O Senhor dos Anéis, nasce de um universo mitológico junto com outro, O Hobbit. Tolkien foi capaz de criar uma mitologia completa: linguagens (como o élfico e o quenya), mitos e geografia. Tudo extremamente bem costurado abordando temas de amizade, sacrifício, corrupção e o trabalho em equipe onde todos têm o seu devido valor.

Além de tudo isso, podemos pontuar na sua obra magnânima, a famosa jornada do herói, apresentada pela primeira vez em 1949 por Joseph Campbell e que consta nos seguintes passos:

  • Mundo comum: a vida que se apresenta ao herói antes da história começar. Serve também para ambientar o leitor apresentando os personagens e construindo os cenários.

  • Chamado à aventura: um problema se apresenta ao nosso herói e ele é apresentado a um desafio ou chamado para uma aventura.

  • Recusa do chamado: em um primeiro momento, o nosso herói nega o desafio ou existe uma demora em embarcar na aventura.

  • Encontro com o mentor: o herói encontra com um mentor que o encoraja a aceitar o desafio. Esse mentor acaba sendo seu guia ou treinador em seu chamado.

  • Travessia do primeiro limiar: é o momento em que o herói sai do seu mundo a caminho da sua aventura.

  • Provas, aliados e inimigos: o herói enfrenta provas, encontra aliados e batalha com inimigos. Tudo isso o faz aprender sobre o mundo novo que está conhecendo, o mundo que não é aquele em que ele vivia e que abandonou.

  • Aproximação da caverna oculta: o herói obtém sucesso em suas provações ficando próximo assim do seu objetivo.

  • Provação suprema: nessa etapa, o nosso herói tem a maior prova de todas correndo risco de vida.

  • Recompensa: uma vez que ele enfrentou a morte de perto, ganha uma recompensa (elixir).

  • O caminho de volta: o herói retoma o seu caminho de volta para a sua casa, seu mundo.

  • Ressurreição: nessa etapa há um novo teste com o herói, já no retorno do seu mundo e novamente há enfrentamento da morte. Deve ser usado tudo o que foi aprendido.

  • Retorno com o elixir: o retorno para a sua casa é concluído com sucesso e em posse do elixir, o herói usa para ajudar todos em seu mundo.

Para quem já leu os livros ou assistiu aos filmes, fica fácil identificar todas essas etapas. Dito tudo isso, volto a dizer que entendo toda a admiração em torno da vida e obra de J. R. R. Tolkien, mas eu mesma nunca tinha lido nem assistido nada e confesso que nunca tinha me interessado, pois, como mencionei no início, não é o gênero que me atrai. Ao mesmo tempo, é sucesso absoluto aqui na minha casa entre os meus filhos e o meu marido e acabou rolando uma aposta entre eles que me fariam assistir aos filmes. E fizeram! Claro que teve barganha, mas assisti aos seis filmes, a trilogia de O Hobbit e a trilogia de O Senhor dos Anéis.

Admito que o filme me fisgou. Fiquei pensando em diversos momentos em como alguém pode ter essa capacidade de criatividade e o que seria necessário na vida para estimular tal poder de criação. Acreditem ou não, quando pequena, eu, minha irmã e meus primos criamos um universo só nosso para brincarmos. Era tão nosso que não cabiam outras crianças, pois jamais entenderiam o nosso conjunto compartilhado e o nosso ritmo. Porém, Tolkien é generoso e, apesar de ter sido difícil no início para mim — atribuo essa dificuldade à idade que não permite certas facilidades mais —, logo você se ambienta e entende aquele mundo de hobbits e orcs.

Dentre todos os temas que o autor traz à tona, o que mais me chamou a atenção foi a amizade e o companheirismo de Sam com o Frodo. O Frodo é o personagem icônico de O Senhor dos Anéis que tem uma jornada pela frente, pois herda de Bilbo, a quem ele chama carinhosamente de tio, um anel e precisa partir em direção às chamas da Montanha da Perdição, em Mordor, para destruí-lo. Nessa tarefa, ele parte com alguns companheiros e dentre eles, Sam lhe promete lealdade até o retorno para o condado.

Sam é o principal personagem coadjuvante e acaba se envolvendo na aventura por ouvir escondido a conversa entre Frodo e o mago Gandalf. É um personagem que é retratado tanto fisicamente quanto psicologicamente forte e acompanha nosso personagem principal desde o início da aventura até o retorno para o condado, passando pelos momentos mais críticos. Sua lealdade é demonstrada em momentos pontuais como quando Frodo está fraco demais ou quando é levado a duvidar de Sam ou até mesmo quando é preciso que o anel fique em seu poder e logo ele devolve para o Frodo para que ele mesmo faça o que tenha que ser feito. Na minha leitura, Sam foi um grande herói ao lado de Frodo.

Trazendo para a nossa vida, nas nossas jornadas, precisamos ter ao nosso lado pessoas que sejam nossos ‘Sam’. Que nos apoiem e estejam prontos para nos carregar quando estamos fracos. Podemos até estar rodeados de muitos amigos e pessoas que até torcem por nós, mas no fundo sabemos quem é aquele que será nosso alicerce e que nos dará forças para continuar mesmo quando tudo parece desabar. A nossa vida não é a definição da jornada do herói pura e simplesmente do Joseph Campbell, mas temos nossas provações e nossos enfrentamentos e justamente nesses momentos que a lealdade e o companheirismo de um Sam que nos faz seguir em frente.

Você tem um Sam ao seu lado? Não se esqueça de que é importante ser um Sam para aquela pessoa que é importante para você.

O legado de J.R.R. Tolkien

A obra de Tolkien abriu caminho para o gênero de fantasia moderna, influenciando milhares de autores, filmes, jogos e séries. Seu estilo — que mistura erudição linguística, mitologia, história e aventura — é visto como referência.

Curiosidades

A colaboração com o colega C. S. Lewis dentro de um grupo literário — os “Inklings” — foi fundamental para sua trajetória.

Tolkien levou muitos anos entre conceber o mundo da Terra-Média e publicar O Senhor dos Anéis. A recepção inicial foi modesta, mas com o passar das décadas, o reconhecimento cultural se ampliou enormemente.

Sugestão de leitura dos livros / ordem para assistir aos filmes

Você pode assistir na ordem cronológica da história:

  • O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012).

  • O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013).

  • O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014).

  • O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001).

  • O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002).

  • O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003).

  • O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (2022).

Ou na ordem de lançamento:

  • O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel (2001).

  • O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002).

  • O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003).

  • O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (2012).

  • O Hobbit: A Desolação de Smaug (2013).

  • O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos (2014).

  • O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (2022).

Eu não assisti ao filme O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder, mas, se eu puder fazer uma indicação, recomendo assistir pela ordem cronológica da história. Aqui em casa, agora, para cada filme do universo de Tolkien que eu vi, eles assistem comigo um filme que considero essencial ter visto na vida! Justo, né?