Descubra os desafios de ser escritor na era dos podcasts, o declínio da leitura no Brasil e como o storytelling pode aproximar leitores e ouvintes.

Hello, caro leitor (ou deveria dizer, caro ouvinte?)

Eu não sei você, mas eu nasci em 1982. E o que isso significa?

Dentro do que vamos conversar aqui, significa muita coisa.

Hoje quero refletir — e talvez até desabafar — sobre o quão desafiador tem sido permanecer escritor em um mundo que quase não lê. Um mundo onde o conteúdo precisa ser rápido, quentinho, mastigado, entregue sob demanda… e, de preferência, com trilha sonora.

Você já sabe do que estou falando, não é?

Do papel ao fone de ouvido, os podcasts roubaram a cena. Eles atraem curiosos, jovens adultos, multitarefas que vivem na correria, profissionais em trânsito que transformam o deslocamento em aprendizado, além dos fãs de nichos culturais cada vez mais diversos: música, esportes, saúde mental, True crime, religião, filosofia… a lista não tem fim.

E nós, escritores, onde ficamos nessa história?

Bem antes de os podcasts ganharem formato e voz, o escritor já deixava suas marcas no bom e velho papel. É dessa época que eu venho. Minha história com a escrita começou ainda na pré-escola: quando a professora me entregava uma folha A4 em branco, eu a transformava em mundos coloridos com canetas hidrocor. Não eram apenas desenhos — eram narrativas que eu apresentava para a turma, como se já intuísse que contar histórias seria parte de quem eu sou.

Também guardo viva a lembrança do meu pai: toda semana, ele levava um dos meus desenhos para o jornal local. Havia uma seção dedicada às criações infantis, e a expectativa de ver minha arte publicada era, para mim, uma mistura de sonho e descoberta. Era ali que eu percebia, ainda criança, o poder de dar forma às ideias e de compartilhá-las com o mundo.

Sem perder o fio da meada e seguindo a linha do tempo, aos 11 anos ganhei um diário da minha mãe. Você sabe o que é um diário?

Para a geração atual, dá para imaginar como um blog ou uma rede social, só que totalmente privada — sem curtidas, sem comentários, sem seguidores. Antes do surgimento da internet, a gente escrevia à mão em um caderno, muitas vezes com capa colorida e até um cadeado, como quem guarda um tesouro secreto. Ali, a pessoa registrava sonhos, medos, segredos e pensamentos que não ousaria contar a ninguém.

Se quiser visualizar melhor, pense nas notas privadas do celular transformadas em páginas de papel. Era um espaço só seu, onde ninguém podia bisbilhotar (ao menos era essa a ideia!). Consegue imaginar?

Depois daquele diário infantil, todo rosa e com cheirinho de morango, vieram muitos outros. Eles cresceram comigo, como cúmplices silenciosos de cada nova primavera. Ali estavam guardadas minhas primeiras vezes: o primeiro show, o primeiro fora, a primeira grande decepção com uma “amiga”, as primeiras viagens e até a escola que mudaria o rumo da minha vida.

Até que, em um certo momento, o querido diário deu lugar a algo maior: um instrumento de teclas mágicas que, ao serem pressionadas, faziam tipos metálicos dançarem e marcarem o papel com letras, números e símbolos. Senhoras e senhores, apresento a protagonista dessa fase: a máquina de escrever!

O barulho ecoava pela casa — um tlec tlec tlec ritmado, seguido do ding do retorno da tecla batendo na fita. Para mim, aquilo era música. Era como se as ideias não apenas ganhassem forma, mas também som, criando sua própria trilha sonora. Às vezes parecia um suspense vibrante, digno de “O Iluminado”, de Stephen King. Outras vezes, um concerto particular, em que minhas palavras eram as notas. Na época da máquina de escrever, as estórias eram arquivadas em pastas físicas, de plástico com elástico (e não em subpastas do word, como conhecemos hoje).

Mas, como a única coisa permanente é a mudança, em 1999 ganhei meu primeiro computador: pesado, branquinho, de tubo, com uma grande torre CPU, cheio de fios, e uma fenda discreta para adicionar um disquete. Está confuso? Peraí que eu explico: a tal “torre” da CPU (unidade central de processamento), era uma espécie de “cérebro do computador”, responsável por executar as instruções e processar dados.

Ao contrário dos notebooks, em que ao abrir, nos deparamos com o teclado e a tela plana, os computadores da década de 1990, vinham com o teclado separado da tela. Os monitores eram de tubo, grandes e pesados, que ocupavam grande espaço na mesa. Os mouses, utilizavam uma pequena bola de borracha (para gerar o movimento para a tela), que facilmente acumulava sujeira, dificultando assim a sua utilização. Os disquetes, por outro lado, eram estruturas quadradas que cabiam na palma da mão, responsáveis por armazenar arquivos e trabalhos acadêmicos. Podem ser comparados aos Pen-drives atuais. Quanto ao sistema operacional, um dos mais utilizados na época, era o Windows 98.

Agora vamos para a melhor parte: a internet!!

Se hoje a internet cabe na palma da mão, instantânea e silenciosa nos celulares que nos acompanham por onde vamos, no passado a história era bem diferente. Para se conectar, era preciso usar a linha telefônica da casa. Isso mesmo: ou você conversava com um amigo no telefone, ou entrava no chat do UOL — nunca os dois ao mesmo tempo.

O ritual era lento e barulhento. Primeiro, o toque discado lembrava uma ligação comum. Em seguida, vinha um ruído metálico e ensurdecedor, capaz de acordar quem estivesse dormindo se você não baixasse o volume a tempo. Por fim, a aguardada melodia robótica anunciava: a internet estava conectada! Era quase um hino de iniciação digital.

Mas a conexão tinha seu preço. Cada minuto online era contabilizado em “pulsos telefônicos”. Se você se empolgasse demais no bate-papo da meia-noite, a conta chegava no fim do mês com um susto daqueles, fazendo seus pais se perguntarem se ter comprado um computador tinha sido mesmo uma boa ideia. Por isso, muitos adolescentes viraram especialistas em virar a noite, esperando ansiosamente a madrugada, quando os pulsos ficavam mais baratos — e a liberdade digital, enfim, começava.

Cada fase da tecnologia marcou uma forma de escrever, até chegarmos aqui: a era do áudio, dos podcasts e da atenção fragmentada.

O que os escritores podem aprender com os podcasts

Sempre me dediquei à escrita, aprendendo com grandes autores como Stephen King, que defende que todo escritor de sucesso deve ser, antes de tudo, um leitor voraz. Além disso, King recomenda que os aspirantes a escritores escrevam pelo menos 500 palavras por dia — um hábito poderoso para qualquer escritor.

Mas há um desafio nos tempos atuais: as pessoas já não leem tanto quanto antes. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada pela Veja, revela uma queda de 6,7 milhões de leitores nos últimos quatro anos. Entre os principais motivos estão:

  • Falta de tempo;

  • Preferência por outras atividades, como assistir vídeos ou navegar na internet;

  • Falta de interesse ou gosto pela leitura.

O crescimento dos podcasts no Brasil

Enquanto a leitura enfrenta esse declínio, outra forma de consumo de conteúdo cresce exponencialmente: os podcasts. Segundo a mesma publicação, a audiência de podcasts no Brasil aumentou significativamente nos últimos anos, principalmente entre a Geração Z — jovens entre 15 e 24 anos que consomem conteúdo digital em ritmo acelerado. Para esse público, os Podcasts devem despertar não somente o interesse por determinado tema ou assunto, mas também conectá-los com o entrevistador do conteúdo online.

Da leitura ao áudio: a mudança de hábito

Podemos perceber que, de forma quase quântica, a sociedade migrou do papel para o áudio. Os escritores precisam se adaptar a essa nova realidade, encontrando maneiras de engajar leitores que agora se tornaram ouvintes ávidos de conteúdo online. Uma das formas mais eficazes de se fazer isso, é transformar o ofício de escrever estórias, por contar estórias. Falo um pouco sobre a arte do storyteller em um outro artigo que desenvolvi para a Meer.

De forma prática, para você entender melhor, um escritor é um profissional que utiliza palavras escritas para comunicar uma ideia. Já o storyteller, é aquele quem domina a arte de contar estórias de maneira envolvente, no intuito de transmitir uma mensagem que emocione, cative e inspire o público. Percebeu a semelhança com o Podcast?

Sendo assim, um escritor pode não ser necessariamente um storyteller, visto que, escrever um texto técnico ou um artigo científico pode não ter o objetivo de cativar um público através de uma narrativa emocional, como faria um storyteller. O livro “Storytelling: Aprenda a Contar Histórias com Steve Jobs, Papa Francisco, Churchill e Outras Lendas da Liderança”, destaca:

Existe uma diferença entre uma história, uma boa história e uma história que inspira.

Semelhantemente ao storyteller, um Podcaster visa construir uma narrativa que cative o público, com personagens, ambientes e conflitos a fim de criar uma experiência imersiva. Este tipo de conteúdo virtual prende a atenção por transformar informações em experiências concretas, proporcionando um contexto que capta a atenção e mantém o público envolvido. Afinal de contas, entre um texto chato e um áudio envolvente, qual dos dois você escolhe?

O mundo mudou, e precisamos nos adaptar a ele. A grande questão aqui não é o que você escreve, mas como você escreve. Não basta ver com os olhos de carne, é preciso enxergar com os olhos da alma o que toca o coração, o que pulsa, o que envolve. É preciso convidar o Podcast para fazer parte da escrita, para inspirar, para dialogar, para retornar ao prazer de ser leitor. Para isso, é preciso focar em nichos específicos do público-alvo, ao invés de querer atingir todo mundo.

O texto precisa conversar com o leitor, respondendo a perguntas e gerando discussões. Tal como em um Podcast.

O desafio do escritor na era dos Podcasts é a competição por atenção, em um mundo com menos foco. Uma alternativa para atrair mais leitores seria o de adaptar textos literários para formatos digitais como áudios ou vídeos. Desse modo, a produção de Podcasts pode ser uma ferramenta facilitadora de produção e promoção de artigos e trabalhos literários.

Se os podcasts dão voz às histórias, cabe a nós, escritores, dar palavras que ecoem além do silêncio — para que ler continue sendo tão urgente quanto ouvir.