A comunicação é uma das expressões mais sofisticadas da humanidade. Ela pode ser abraço ou muro, acolhimento ou exclusão. E, como toda construção social, ela se transforma com o tempo, com o contexto e, sobretudo, com as escolhas que fazemos. A linguagem não é neutra: ela carrega valores, intenções e consequências. E quando usada com consciência, pode ser instrumento de inclusão, dignidade e até mesmo de sobrevivência.

No Brasil, a Semana de Arte Moderna de 1922 foi um marco na desconstrução da linguagem excessivamente formal. O movimento modernista celebrou a queda do rebuscamento elitista que afastava o povo da arte e da literatura. A população, em sua maioria, comemorou o fim da obrigatoriedade de termos como “vossa mercê” — que evoluiu para “vosmecê”, depois “você” e, hoje, “vc” nas mensagens digitais. Curiosamente, o “você”, antes considerado vulgar, hoje é plenamente aceito em redações de concursos públicos e textos acadêmicos, pois já integra a norma culta. Em contrapartida, palavras como “destarte”, “outrossim” e “quiçá” tornaram-se raras, sobrevivendo apenas em ambientes jurídicos ou em textos excessivamente formais.

A linguagem, portanto, é viva. Ela se adapta às necessidades sociais e culturais. Termos como interseccionalidade, afrofuturismo, agroflorestais, cisgênero, gamificação e antirracista não existiam nos dicionários antes de 2010. Eles surgiram para nomear realidades antes ignoradas — e para incluir vozes antes silenciadas. No cotidiano, vemos isso quando uma assistente social, utilizando um tablet em campo, registra dados de famílias vulneráveis com precisão e respeito, empregando termos atualizados que reconhecem identidades plurais e contextos diversos. Essa profissional, embora não esteja em uma cátedra universitária, representa o verdadeiro culto: aquele que comunica com consciência e empatia.

Em 2016, o Brasil passou por uma reforma ortográfica que buscou padronizar a grafia entre países lusófonos. Palavras como autoescola e antirrugas perderam o hífen, mas tão importante quanto escrever corretamente é falar com responsabilidade. Expressões como “mercado negro” e o verbo “denegrir” ainda são usados por professores e comunicadores, mesmo após amplas discussões sobre seus significados racistas. A associação do negro ao ilícito ou ao negativo perpetua estigmas que já custaram vidas. Afinal, por que tornar algo “negro” seria sinônimo de torná-lo ruim?

A linguagem pode matar. Pessoas trans, não-binárias e racializadas enfrentam diariamente o peso de palavras que as excluem, ridicularizam ou invisibilizam. Há quem se suicide por não se sentir pertencente a espaço algum — nem na família, nem na escola, nem no trabalho. E isso não é exagero. É realidade. Quando um prefeito de uma cidade brasileira fez comentários homofóbicos após um convidado utilizar o pronome neutro ao cumprimentar a população, ele não apenas expressou preconceito: ele reforçou a exclusão institucional de pessoas que já lutam para existir. A comunicação, nesse caso, deixou de ser ponte e tornou-se muro.

Dominar a norma culta é importante, mas não suficiente. É preciso dominar também a ética da linguagem. A desconstrução de uma fala racista, homofóbica ou transfóbica não é apenas uma questão de estilo — é uma questão de humanidade. A palavra “antirracista”, por exemplo, é recente, mas urgente. Sua ausência no vocabulário de muitos revela mais do que desconhecimento: revela escolha. E essa escolha comunica. Comunica quem é bem-vindo e quem não é. Comunica quem merece respeito e quem será ignorado.

A comunicação é escolha. E escolher comunicar com respeito, inclusão e afeto é um ato político. O uso do pronome neutro — como “elu”, “delu”, “amigue” — não é obrigatório, mas é possível. E necessário para quem deseja incluir pessoas não-binárias em sua fala. Dizer que “não existe” é ignorar que muitas palavras do nosso cotidiano também não existem formalmente, como “startar uma ideia”, “hora do rush” ou “free flow” — expressões adaptadas, incorporadas e legitimadas pelo uso. O mesmo processo pode — e deve — acontecer com o pronome neutro.

A linguagem culta não deveria ser sinônimo de elitismo. Ser culto é ser consciente. É entender que a comunicação não serve para humilhar, excluir ou segregar. Ela serve para conectar. E, nesse sentido, o verdadeiro culto é aquele que escolhe a empatia antes da norma, o afeto antes da rigidez, o abraço antes da barreira. É aquele que, ao corrigir um erro, o faz com acolhimento. Que, ao ensinar, reconhece a diversidade de saberes. Que, ao falar, considera quem está ouvindo.

A comunicação é construção. E como toda construção, ela pode ser reformada. Reformar a linguagem é reformar o mundo. É mais do que escolha. É mais do que inclusão. É salvar vidas.

E agora, diante de tudo isso, cabe uma pergunta que não exige resposta imediata, mas exige honestidade: você é a favor ou contra o uso do pronome neutro? E por quê? Sua resposta não revela apenas uma posição gramatical — ela revela o grau de consciência que você tem sobre o impacto da sua fala. Você se preocupa em não reproduzir discursos homofóbicos, racistas, elitistas, misóginos, capacitistas, degradantes ou excludentes? Ou acredita que a norma culta é um escudo que justifica qualquer expressão, mesmo que ela fira, silencie ou exclua?

A linguagem que você escolhe diz muito sobre o mundo que você ajuda a construir. E mais do que isso: pode determinar quem se sente pertencente — e quem se sente invisível. Pessoas morrem por não se sentirem parte de lugar algum. A comunicação, portanto, não é apenas estética ou técnica. É ética. É política. É vida. E talvez seja hora de parar de perguntar se o pronome neutro “existe” e começar a perguntar se você está disposto a existir para quem mais precisa ser reconhecido.

Você constrói pontes ou muros?