Há algum tempo me pesa o pedido de meu irmão mais velho para que eu escreva algo sobre a minha aposentadoria. Com nove anos a mais que eu, ainda permanece vinculado a uma empresa, cumprindo compromissos e afazeres.
Decidi pagar com crônicas as dívidas de gratidão que tenho com ele, que não são poucas. Passo então a contar apenas uma passagem sobre o tema e deixo o saldo da dívida para quitar em outras ocasiões, se for da vontade da tal inspiração que me comanda. Vamos ao caso.
Eu estava numa lenta fila de Banco — o que é um pleonasmo, pois em Bancos não existem filas rápidas. Na minha frente, uma senhora de uns 50 anos também aguardava, naquela monotonia cansativa. Éramos eu e ela dançando separados naquele arrasta-pés sem música.
Pareceu-me receptiva a uma conversa e, para reduzir o tédio, comentei com ela:
—Pegamos a fila mais lenta do Banco, não é?
—Verdade. Felizmente consegui um lugar para meu pai ficar sentado até a hora de chegar ao caixa — respondeu, virando-se um pouco em minha direção e apontando com o queixo um senhor de uns 75 anos.
Olhei na direção dele e não tive uma boa impressão. Estava com a barba feita, cabelos prateados e penteados, porém vestia uma surrada calça de moletom cinza e trazia nos pés uma sandália de tiras, tipo franciscana. Eu acho que o uso de calça de moletom fora de casa, especialmente as de cor cinza, é algo a ser classificado como maus tratos contra a terceira idade... E aquelas sandálias de mau gosto deveriam ser de uso exclusivo da congregação que lhes deu o nome.
Para completar, o tal senhor estava envelopado numa camisa de tecido xadrez verde e branca, formando uma combinação esdrúxula de roupas. Com estas vestimentas, acho que nem Brad Pitt se salvaria de passar uma má impressão…
Sem saber o que dizer, resolvi mentir àquela senhora:
—Ele parece muito bem
—Ah, sim. Tem boa saúde. Mas daqui a pouco vai começar a olhar o relógio — prenunciou.
Observei então que ele possuía um relógio de pulso avantajado, com mostrador redondo e pulseira preta.
—Com razão. Deve estar impaciente com esta longa espera — deduzi.
—Não. É que já são 11 horas.
—Hein?
—Eu explico. Ele gosta muito de cerveja. Mas já há alguns anos o médico limitou a bebida e permitiu que tomasse apenas duas latinhas na hora do almoço. Pois o senhor sabe que todo dia, perto das 11 horas, ele já se senta à mesa e fica olhando o relógio o tempo todo, até chegar a uma da tarde. É quando almoçamos e eu permito que tome a cerveja.
—Não diga…
—É sério. Onde estiver, a partir das 11 horas começa o frenesi do relógio. Em casa ele fica duas horas olhando para as paredes e para o relógio, torcendo para o tempo passar rápido e chegar a hora da sua cerveja. Nunca vi gostar tanto de uma bebida.
E eu nunca vi um desperdício de tempo e de vida tão descabido, pensei.
Não me conformei com a história e queria saber mais. Porém, a esta altura o arrasta-pés já havia nos conduzido próximo ao caixa e ela encerrou a conversa, absorta nas complicações da questão que tinha para resolver.
Eu, que por aqueles tempos já começava a pensar na aposentadoria, fiquei apavorado. Meu Deus, viver por duas latinhas de cerveja por dia era a última coisa que eu desejaria. Melhor trabalhar até a véspera do cemitério.
O fato me marcou e depois deste episódio banal demorei mais uns 5 anos para me aposentar. Aprendi que ter certeza daquilo que não queremos pode ser um bom caminho para descobrir o que realmente desejamos. Em busca disso li alguns livros, onde apesar de muita teoria e obviedades, angariei algumas informações realmente úteis. Resolvi então ir para a prática e esquadrinhar a experiência de amigos que estavam já aposentados ou vivendo o mesmo momento que eu. Consultei-os com uma insistência irritante. É provável que ao me verem chegar, pensassem: lá vem ele novamente com aquelas perguntas constrangedoras sobre aposentadoria…
Encontrei de tudo.
Alguns que tomaram a decisão mais por insatisfação e aborrecimento com seu trabalho, do que seduzidos por uma nova vida que poderiam ter — não era o meu caso. Outros, arrependidos, que perderam o entusiasmo e viviam a frustração do ócio. Houve também os que adoeceram e peregrinavam entre médicos, exames e remédios, sem encontrar alívio duradouro. Outros ainda, carregavam pesados fardos de queixas contra a nova etapa da vida, por passarem a realizar tarefas domésticas ou de apoio a filhos e netos, que antes não lhes cabia.
Claro, também encontrei os felizes. Aqueles que desfrutavam da vida como nunca e, se alguma lamentação havia, era por não terem se aposentado mais cedo. Dormiam melhor, comiam melhor, conviviam ricamente com a família e tinham finalmente as condições para exercer seus hobbies e preferências pessoais. Eram ocupados, trabalhavam, só que não mais por dinheiro e sim fazendo aquilo que realmente lhes dava prazer e trazia realização. Era para este clube que eu queria entrar.
Enfim, ouvi muito, falei pouco e fiz boas reflexões a partir da experiência alheia. Aquelas duas latas de cerveja me fizeram garimpar conselhos e amadurecer meus próprios planos. Posso dizer que aquele senhor e seu relógio de pulso me ajudaram a entrar para o clube que eu desejava. E no clube, entre outras coisas, escrevo hoje esta crônica.
É óbvio que, assim como as demais questões principais da vida, não há como repetirmos o caminho de outra pessoa. Portanto, nem para meu irmão nem para ninguém, posso oferecer fórmulas prontas. Para alívio do leitor e talvez frustração de meu irmão, deixo de relacionar os aprendizados e prescrições que me guiaram, já que só a mim se aplicam. A vida é muito rica e diversa para admitir script.
Um terno sob medida só veste bem no dono!
Nossa individualidade nos obriga a desenhar nosso próprio trajeto, singular e único. É como ensina um sábio dito popular:
O corcunda sabe como se deita.
Somos todos corcundas!















