Que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? Perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?

Escrever é comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo.

(Agustina Bessa-Luís)

De vez em quando é assim. Como se o dia fosse tragédia ou piada embalado numa caixa de marfim, uma inquietação vadia, falta de Fé no novo, esperança engarrafada na ilusão. Sempre tive o vício de contar com o renovado esforço de imitar os outros, aqueles que sempre achei melhores que eu. Imerso em prazeres solitários, nunca consegui arranjar melhor caminho para o destino.

Nos alicerces do dia, as várias mortes em que durmo, a vida transformou-me numa pessoa quebradiça, sem vontade, anestesiou-me até ficar prisioneiro da memória de coisas desaparecidas, cinema, mentiras, paralelos na estrada, barricadas, algibeira vazia, corpo frágil entre os dedos, o espanto da infância, dores, sonhos e sorrisos. Para além das memórias continuo a sonhar contigo a preto e branco, por preguiça, nas madrugadas, com o teu sorriso torto, meio dissolvido, que faz as horas mais largas e mais bonitas tal como as minhas personagens que vivem desamparadas numa espécie de redenção nessa narrativa a que chamamos romance, um ofício de depuração contínuo em que se resgatam frases, sem saber quase nada do surrealismo do mundo.

Amarrotados pelo cansaço, ficamos a contemplar o mar, numa paciência sem queixas, um coração estranho que bate como o teu, de militância obstinada, tu defines a distância, retomas a conversa onde a deixámos, no canto de outra voz, eleva-se a lua e a demora da sua presença ilumina os contornos do teu rosto num silêncio de margem a margem.

Moves as mãos em direção ao meu rosto, não sei se numa breve despedida, se num longo reatar, o meu cérebro não sabe como processar o gesto, o embalo, o desassossego, uma aventura do tacto, teatro ou pano de fundo que supera a armadilha da linguagem, a moral necessária para criar uma morada com chão, paredes e código postal num intervalo sem ruído para o exílio.

Junto à raiz destas coisas elementares, o gosto doce da tua boca é o lugar para o lume dos corpos, singularidade mais-que-perfeita, maternidade lenta, exercício de memória, sombra do desejo e outros clichês estapafúrdios da literatura de cordel.

Na espuma dos dias, com o frio na pele, a vertigem e a semente, pedra angular da exaustão, sucumbimos entre duas vontades ao abandono no delito conjugal de um amor que ainda não está em rigor mortis, como testemunha, insónia, movimento, marinheiro de águas turvas enlaçado no cordame tenso das horas escuras. As gargantas cerram-se, os lábios unem-se, perdemos a voz, o silêncio consome os corpos, interrogo-te com o olhar, dolorosa perseverança do ser, algures na manhã que avança de forma incompleta, suspende-se o lento ruminar do medo. Abre os olhos e deixa cada coisa por igual, máscara ou poema, lenda ou mito, na linha da respiração rouca a desaguar na mesma fenda, no mesmo mar.

Navegamos à bolina em aparente fragilidade, sobretudo na pertença, no sentido, na falta de espaço da ficção em contínuo em que se tornou a nossa vida. Em cada frase o teu nome, em cada gesto o teu sorriso, guarda um pouco dessa trama para manter a ideia de ti, excesso de zelo e caligrafia com que afasto as sombras.

Todo o nosso amor é volátil até prova em contrário, um esmerado atleta da ruína. Nenhuma distância é longa para o nosso passado, nem suficientemente fria para arrefecer o desejo. À distância da tua boca está um beijo, pássaro a voar nos teus olhos, com uma luz que me devora por inteiro. Pode ser um passo, um suspiro, um domingo, talvez, mas debaixo de todo o peso, o tempo é um processo com brechas, um traço solto ao abandono, sem princípio nem metáfora, na noite em que o barro se molda na superfície improvável do teu corpo, que eu já não sei como navegar. Envelheço na memória, tu disfarças melhor.

Palavra a palavra volto à tarde quente de verão onde te conheci, tão irrequieta como tudo o que vivemos juntos, por um caminho sem espaço para dores antigas, nem expiação dos pecados que ganhei por mérito próprio. Sem baixar a guarda depois do absurdo, os limites existem para darmos o passo em frente. Dei por mim a caminhar dentro de uma frase limpa, sem vírgulas, sem ornamentos, e eu que só queria ser simples, fácil e pouco, alheio aos escombros da inquietação enquanto o inverno se fez ao convite e a chuva se reduziu à lembrança do perfume da terra molhada, queria voar para lá da tua voz sem passado, ousadia imensa. No meio, o abismo e a queda, uma dor irregular, traço primeiro de uma vida a rasgar caminho. Foi curta, a nossa memória, o tempo de um beijo em suave contraluz e saliva debaixo de uma chuva que engole a cidade, com a voracidade de animal esfomeado, encostado a ombros estranhos, sempre a dizer adeus.

Quando as palavras não dizem nada… Shhhhhhhh…

Silêncio.

É melhor não falar, se não o mundo acaba.