Eu esperava na estação. O vento cortava a minha pele, arrastando consigo folhas secas e pedaços de jornal sem nenhuma data registrada, apenas com marcas amareladas denunciando o tempo que já se havia ido. As pessoas ao meu lado seguravam malas com firmeza, como se o peso delas não fosse somente físico. Não se ouviam risos ou conversas — apenas o som do vento e o esporádico tilintar dos sinos anunciando a chegada do próximo trem.

Eu não sabia o destino. Ninguém sabia. Mas todos fingem saber. Ora, como não saber o destino da passagem comprada a prestações? Horas, dias, meses, anos… Era estranho o conforto da incerteza que pairava no ar, fantasiada com um sonho real.

O relógio da estação marcava sempre o mesmo horário, 17:17, como se o tempo tivesse se curvado à vontade daquele lugar. O trem se aproximava com seu som metálico e estridente, e eu podia sentir a hesitação crescer nas pessoas ao redor. Algumas ajeitavam as malas, outras trocavam olhares rápidos, tentando buscar coragem nos olhos de desconhecidos.

Quando as portas do trem se abriram, um vapor espesso saiu, misturando-se ao frio da tarde. As janelas eram opacas; de dentro, não se via nada. Ainda assim, as pessoas começaram a embarcar, uma a uma, atraídas pelo preço já pago de se ter nascido. Eu fiquei para trás por um instante, olhando o trem como quem encara o reflexo no espelho antes de tomar uma decisão importante.

"Para onde vai?" perguntei ao fiscal parado na plataforma. Ele levantou os olhos do relógio dourado que segurava, deu de ombros e respondeu:

-Para onde você quer ir?

Segurei minha maleta com força, tentando enrolar o tempo até ter uma resposta. Não tive, mas, mesmo assim, embarquei. Talvez para fugir da pergunta, talvez por falta de escolha ou pelo pingo de curiosidade que me restava. O trem começou a se mover antes mesmo que eu me acomodasse, como se soubesse que não tinha tempo a perder, como se soubesse da minha insignificância.

Assim que me sentei, no único banco vazio no fundo do vagão, algo inesperado aconteceu. Do lado de fora da janela opaca, começou a surgir um reflexo: uma rua, um rosto conhecido, um sorriso que há muito tempo eu havia esquecido. Não era apenas uma paisagem — era uma memória.

Estava sendo transportada para algum ponto perdido em mim mesma, para uma encruzilhada de lembranças que havia enterrado.

E eu? Eu só podia me perguntar: quando o trem parar, quem eu serei?

O trem não parou. Continuou seguindo o destino do desconhecido. E, de repente, avistei uma outra estação mais à frente. O trem reduziu gradualmente sua velocidade e uma voz abafada tomou conta do ambiente:

-Se você já sabe para onde quer ir, esta é a sua parada.

Eu só queria descer e ir para onde aquilo me levasse, sem rota, sem planos, sem sonhos a serem alcançados. Mas algo me prendia àquele assento desconfortável. Eu não podia me mover, diferente de alguns dos passageiros, que se levantaram e saíram sem olhar para trás.

Uma mulher de cabelo vermelho correu para o abraço de um homem que a esperava na estação segurando um cartaz “bem-vinda de volta".

Um senhor de meia idade desceu apressado, como se tivesse atrasado para um compromisso ou se já estivesse deixado passar tempo demais.

Eu fiquei, e, sem me dar conta, ouvi o sino tocar e o trem partir. Novamente.

Hesitei em olhar para as janelas, assustava-me ver-me assim, tão de perto.

Apoiei o pescoço no encosto da cadeira e encarei o teto que cintilava pelo verniz recente. E foi então que, mais uma vez, aquele trem em movimento me congelou. O teto se abriu, a claridade entrou, e tentei cobrir meus olhos assustados com o meu braço. Nada se moveu, meu corpo estava paralisado, meus olhos não piscavam, minha respiração não saía. Difícil dizer se estava viva ou morta. Mas o teto me mostrou dentro do azul de um céu desconhecido, sonhos perdidos, vontades encobertas com o peso do cotidiano e das contas a serem pagas pregadas na porta da geladeira.

Aquele sonho morto; poeira escondida debaixo do tapete.

Tudo o que eu poderia ter sido e tudo o que fui se misturavam como tinta diluída na água.

Pisquei, e o teto se fechou abruptamente. O trem tremeu, como se tentasse me arrancar de um sonho dentro de outro. O silêncio voltou, denso, sufocante. As janelas opacas refletiam apenas sombras borradas, mas, em um movimento quase involuntário, meus olhos captaram algo que não tinha visto antes: no vidro embaçado, bem no canto, havia uma rachadura. Uma brecha. Uma fragilidade exposta.

E então, sem aviso, um grito abafado — não de fora, mas de dentro de mim. Uma urgência cega em aceitar o imperfeito. Esmurrei a janela, mirando no centro da rachadura. Uma, duas, três vezes, até que finalmente vi a teia de aranha se espalhar pelo vidro, rachaduras se alastrando como uma doença. Minha mão estava coberta de sangue, cacos cravados na pele, mas não importava.

Na quinta pancada, ouvi o tilintar dos cacos avermelhados se despencando uns contra os outros. Naquele momento, algo se quebrou junto com a janela. Para onde o trem está indo?

Viajar é decidir o próprio destino.

O trem não parou.

Mas, sem pensar, eu desci, ainda em movimento.

Afinal, essa é a minha estação.