Matilda estava atrasada.
Ela sabia disso não porque tinha olhado o celular e verificado a hora, mas porque podia sentir.
Enquanto escovava os dentes e os encarava no espelho por tempo demais, certificando-se de que havia alcançado todos os cantos, ela podia sentir o tique-taque de um relógio invisível.
Correu para a cozinha, comeu um pedaço de torrada e engoliu café preto. Voltou correndo ao banheiro e escovou os dentes mais uma vez, para tirar o gosto amargo: ela detestava café.
Finalmente, depois de pegar a bolsa e se certificar de que tinha tudo o que precisava — chaves do carro, absorventes, carteira, elásticos de cabelo, fio dental, um par extra de brincos, balas de menta, uma garrafinha de água, remédio para dor de cabeça, remédio para cólica, um saquinho de castanhas, carregador—, Matilda abriu a porta da frente.
Estava frio, e ela viu o vapor sair de sua boca quando soltou um suspiro. São Paulo em julho, e tudo que Matilda queria era ir para a praia.
Deu um passo para trás, surpresa. No capacho, alguém havia deixado um lindo buquê de rosas. Ela o pegou, curiosa, sabendo que não era para ela. Não é que ela achasse que ninguém lhe mandaria flores — era solteira, mas poderia ser de sua mãe, uma amiga… Mas era porque, assim como sentira estar atrasada mais cedo, ela podia sentir que o que fazia era errado, como espiar pela fechadura a vida de outra pessoa.
E ela estava certa. Ao examinar o buquê, percebeu que vinha com um envelope endereçado a Claudia Oliveira. Matilda pensou um pouco sobre aquilo, observou as flores: eram vermelhas como o batom que sua mãe costumava usar, aquele que Matilda desejava desesperadamente roubar quando era pequena; lembrava-se de observar os lábios da mãe quando ela bebia uma taça de vinho, da forma como o batom manchava os cantos. Era tão adulto, tão de outro mundo. Aos trinta, porém, Matilda mal usava gloss.
Talvez a curiosidade tenha matado o gato, mas Matilda sempre gostara mais de cachorros. Abriu cuidadosamente o envelope, de modo que pudesse fechá-lo depois, e desdobrou a carta. Estremeceu sob seu longo sobretudo e começou a ler.
Minha querida Claudia,
Sinto sua falta mais do que as palavras podem dizer. Sinto falta do seu sorriso jovial, de como ele parecia me manter jovem mesmo quando minhas costas começaram a doer e eu já não conseguia ler as letrinhas minúsculas dos documentos. Fui ao casamento do João no último fim de semana, e embora tenha ficado tão feliz de ver meu filho se casar, tão abençoado por ser seu pai, não pude evitar sentir inveja, lembrando como você estava linda todos aqueles anos atrás.
Sinto falta dos seus olhos de topázio verde e de como iluminavam o ambiente quando você ria. Sinto falta da sua pele macia e da maneira como seu toque podia tornar qualquer dificuldade mais suportável. De como você nunca desviava o olhar enquanto falava, de como seu olhar era suficiente para enlouquecer qualquer um, se assim desejasse.
Eu sei que te magoei muitas vezes, meu amor. Sei que fiz você sofrer e que não mereço você. Mas não tenho notícias suas há tanto tempo; você não atendeu minhas ligações, e me pergunto se bloqueou meu número. Se o fez, eu a deixarei em paz. Mas se achar que ainda podemos ter mais uma chance no amor antes de estarmos velhos demais até para beijar, podemos nos encontrar, nem que seja por uma noite.
Com amor, Jorge.
Quando Matilda terminou de ler, seus olhos brilhavam de lágrimas, que ela rapidamente enxugou com o punho. Sabia que era errado ler sobre desconhecidos, e ainda assim sentia uma vontade estranha de ajudá-los de alguma forma. Aquilo claramente fora entregue no endereço errado; talvez essa Claudia de quem Jorge falava fosse uma de suas vizinhas.
Matilda nunca fora uma vizinha muito vizinha. Nunca fora às reuniões do bairro, nunca participara de um grupo de vigilância. Agora era a hora perfeita de conhecer as pessoas que viviam ao lado dela há seis meses e talvez ajudar uma delas a reencontrar um amor perdido.
Pegou o celular e escreveu para a mãe. Oi mãe, digitou. Desculpa, tô atrasada. Seu voo já chegou?
Matilda tinha um plano. Primeiro, iria correr para o aeroporto, torcendo para vencer o trânsito e pegar a mãe rápido o bastante para que a pobre mulher não ficasse horas esperando. Depois, contaria à mãe sobre a história das flores, esperando que ela tivesse uma ideia de como encontrar aquela mulher misteriosa. Por fim, juntas uniriam a mulher e Jorge, e o amor venceria. Era perfeito, como se ela estivesse vivendo dentro de uma comédia romântica.
Oi, querida, respondeu a mãe. Matilda deu uma leve encolhida ao ler a palavra “querida”. A mãe mandou outra mensagem: Já cheguei. Mas não se preocupe, estou tomando um café. Espero.
Matilda xingou baixinho. Claro que a mãe estava furiosa. Ela não gostava de brigar por telefone, mas Matilda tinha certeza de que, quando chegasse ao aeroporto, ganharia uma bronca de uma hora sobre como a mãe estava cansada, como Matilda era ingrata e como ela a criara para ser pontual.
Era a primeira vez que Matilda a via desde que se mudara seis meses antes e sua mãe viera ajudar a arrumar o novo apartamento. Matilda sabia, no entanto, que a mãe só queria se afastar um pouco de casa. O pai de Matilda costumava ser roteirista; tecnicamente ainda era, mas bem tecnicamente. Ultimamente, tentava escrever um romance, algo que Ruth, a mãe, certa vez achara uma ideia maravilhosa, já que o marido sempre sonhara em ser autor publicado.
Três anos depois e nem um primeiro rascunho pronto, ela já não tinha tanta certeza. Ruth observava o marido passar os dias olhando pela janela, mais uma página em branco no computador, a luz refletindo nos óculos. Ele escrevia algumas frases, depois parava, ia almoçar, fumava um cigarro, tomava um café, tirava um cochilo. Depois voltava para o computador, para encarar a página em branco e escrever mais uma frase ou outra. Nesse ritmo, pensava Ruth, ele teria um romance pronto em uma década.
Quando Matilda a buscou no aeroporto, começou a falar freneticamente sobre o buquê e a carta misteriosa. Ruth repreendeu a filha por vinte minutos depois: dez sobre se meter na vida alheia e outros dez sobre se atrasar para buscar a própria mãe, que só queria ajudar. Quando terminou as reprimendas, começaram a discutir o que fazer sobre as flores.
“Você não conhece nenhum dos seus vizinhos?”, censurou Ruth. “Está claro que isso foi endereçado a uma mulher mais velha, de olhos verdes, chamada Claudia Oliveira. Seria fácil encontrar se você conhecesse alguém.”
Matilda tamborilou os dedos no volante ao parar no sinal vermelho. “Mas eu mal falei com meus vizinhos. Só com o da frente, mas ele é pai solteiro.”
“Provavelmente é a sua vizinha de porta”, disse a mãe. “Devem ter confundido os números da casa. Você nunca a viu?”
Matilda estalou a língua. “Não, mãe, já falei. Eu quase não fico em casa, não vejo meus vizinhos. Eu tenho que trabalhar.”
“E eu não? Eu trabalhava, cuidava de três filhos e ainda tinha tempo para conhecer meus vizinhos e fazer amigos, não tinha?”
Chegaram à casa de Matilda e ela ajudou a mãe a tirar as malas do carro. Notou que a mãe tinha trazido mais do que uma mala de fim de semana. “Mãe,” disse ela, “quanto tempo você vai ficar?”
Os olhos de Ruth se arregalaram como faziam quando Matilda era criança e começava um escândalo em público. “Por quê?”, perguntou. “Acabei de chegar e você já quer que eu vá embora.”
“Não, só… Só perguntando, mãe. Você pode ficar o tempo que quiser.”
Depois de instalarem as coisas de Ruth no quarto de hóspedes, mãe e filha sentaram-se juntas na cozinha, enquanto Ruth lia a carta que vinha com as rosas. “Isso é muito bem escrito”, observou. “Vou mandar uma foto pro seu pai. Talvez sirva de inspiração. Deus sabe que ele precisa.”
Matilda e a mãe decidiram bater na casa da vizinha; se a mulher atrás da porta fosse Claudia, elas saberiam na hora. Levaram as flores e a carta, torcendo para acertar.
Logo depois de baterem, uma mulher de cabelo curto e grisalho, que um dia fora loiro, abriu a porta. “Bom dia”, disse docemente. “Posso ajudar?”
Os olhos de Matilda brilharam. Era ela, ela sabia. A mulher tinha os olhos verdes que Jorge descrevera e parecia tão genuína, tão gentil. Matilda reparou, animada, que não havia anéis em seus dedos finos. “Bom dia!”, disse Matilda, com a voz muito mais aguda do que de costume. “A senhora seria, por acaso, a Sra. Oliveira?”
A mulher sorriu com ternura. Usava um avental de cozinha, e Matilda podia imaginá-la assando algo no forno, quase sentia o cheiro de bolo de fubá saindo dali. “Sou eu mesma.”
Matilda olhou para a mãe, e as duas ergueram as sobrancelhas juntas. “Sra. Oliveira,” disse Ruth, “este buquê foi deixado por engano na porta da minha filha. Achamos que deve ser para a senhora.” Ruth entregou as rosas, e a mulher ficou boquiaberta. Perguntou: “Diz quem enviou?”
Ruth assentiu. “De um homem chamado Jorge.”
“Jorge!” A mulher riu, levou a mão aos dentes. “Ah, meu querido Jorge. Eu nem achava que ele lembrava de mim! Obrigada, muito obrigada. Vou ligar para ele agora mesmo.”
“Tem uma carta”, disse Matilda. “Um envelope que veio com as flores.”
“Ah, não preciso nem ler. Vou convidá-lo aqui e conversamos pessoalmente. Obrigada! Vocês me fizeram muito feliz.”
Matilda sorriu. “É um prazer.”
Naquela noite, Matilda levou a mãe para jantar no melhor restaurante da cidade. Elas riram sobre taças de vinho de um jeito que nunca tinham rido; falaram sobre o passado, brincaram sobre os irmãos de Matilda e seu pai. Matilda olhou para a mãe, pela primeira vez, como uma pessoa inteira, e não apenas como uma mãe. Mais tarde, deitou na cama com a barriga cheia e o coração tão orgulhoso do que tinha feito que se sentiu finalmente esperançosa. Não sabia o que viria, mas tinha certeza de que seria bom.
Na manhã seguinte, preparou panquecas para si e para a mãe, enquanto Ruth dormia até mais tarde. Pôs música e dançou sozinha na cozinha. Era um domingo cinzento, e ela estava confortável em seu pijama. Quando ouviu alguém gritar pela primeira vez, nem deu muita importância.
Foi o segundo grito que a assustou. Parecia vir de fora, então correu para a janela. E lá, bem em frente à casa da Sra. Oliveira, estava um homem de setenta e poucos anos, usando um suéter igualzinho ao que o avô de Matilda costumava usar. Outro grito ecoou e Matilda viu que uma pilha de livros estava sendo jogada pela janela em direção ao homem. Ele protegeu a cabeça com os braços, e os livros o acertaram antes de despencar na calçada.
Matilda saiu correndo pela porta da frente, ainda de pijama, preocupada. “Senhor!”, ela gritou, aproximando-se dele. “Senhor, o senhor está bem?”
“Eu estaria!”, esbravejou o homem. “Estaria muito bem se essa mulher maluca parasse de jogar as coisas dela em mim!”
Matilda olhou para cima, para a janela, onde viu a Sra. Oliveira, com os cabelos desgrenhados, nada parecida com a senhora doce do dia anterior; parecia até possuída.
“Sra. Oliveira!”, Matilda chamou. “O que está fazendo?”
“Querida, volta para casa!”, respondeu a Sra. Oliveira. Matilda percebeu que ela segurava um vaso de plantas. “Não chegue perto desse homem!”
A Sra. Oliveira arremessou o vaso. Ela errou, e o vaso se espatifou no chão, pedacinhos de cerâmica voando. Matilda deu um salto para trás, assustada.
“Chega!”, disse o homem, erguendo as mãos. “Eu achei que pudéssemos conversar como pessoas civilizadas, mas você continua tão louca quanto era quando te conheci! Desisto!”
A Sra. Oliveira rebateu: “Você gostava quando eu era louca!”
O homem, que Matilda agora tinha quase certeza de que era Jorge — embora não fosse nada como ela imaginara —, virou-se para ir embora. Ao passar por Matilda, murmurou: “É melhor ficar longe dela. Ela não é nada como a irmã.”
Matilda ficou atônita. Observou o homem se afastar, então ergueu o rosto para a janela da Sra. Oliveira. Gritou: “Sra. Oliveira, o que está acontecendo? Quem era aquele homem?”
“Ah querida, obrigada pela sua ajuda,” respondeu ela. “Acontece que aquele velho idiota do Jorge ainda é apaixonado pela Claudia. Você devia ter visto a cara dele quando chegou aqui e me viu! A audácia! Vir na minha casa para declarar amor por outra mulher!”
“Espera, espera”, disse Matilda, a cabeça girando mais rápido que uma rodinha de hamster. “A senhora não é Claudia Oliveira?”
“Eu sou a irmã dela! Esta casa era dela, mas ela me deixou quando morreu, há três anos. Aparentemente Jorge achou que ela estava viva. Um idiota, isso sim. Minha irmã odiava ele! Eles não se falavam há trinta anos, desde que ela descobriu que ele era casado e que ela era só a outra. Bem, a outra-outra. A outra era eu, mas minha irmã nunca soube. Eu comecei a sair com ele antes dela, inclusive. Eu disse a ele que não acabaria bem se ele se envolvesse com ela, mas Jorge nunca conseguia ficar com só uma irmã, não é?”
Matilda pensou na mãe, dormindo durante tudo aquilo. Pensou nas broncas que ouviria depois, como Ruth certamente culparia tudo aquilo nela, e como diria que ela não devia se meter em assuntos alheios… O pior era que Matilda sabia que a mãe teria razão.
Ela pensou em dizer muitas coisas. Pensou em expressar o nojo que sentia por toda aquela situação, como achara que estava ajudando duas pessoas solitárias que se amavam a se reencontrar… Em vez disso, disse: “Eu… sinto muito pela sua perda?”
“Está tudo bem, querida”, disse a Sra. Oliveira. “Minha irmã morreu muito feliz. Ainda bem que esse idiota do Jorge não veio antes. Eu sempre soube que ele gostava mais dela do que de mim. Mas quando recebi as flores, pensei que talvez… Ah, pensei que poderia me divertir um pouco, como nos velhos tempos. Acho que não. Fico imaginando como está a esposa dele… Quando minha irmã parou de ver Jorge, eu também tive que parar. Morria de medo que ela descobrisse que eu escondia algo dela. Mas eu sentia falta dele. Ele dava presentes ótimos. A ousadia desse homem…”
Matilda ficou sem palavras. Olhou ao redor, vendo as coisas que a Sra. Oliveira havia jogado no pobre Jorge. Mas será que ele era mesmo “pobre Jorge”?
Pensou na esposa dele, que Sra. Oliveira mencionara, e sentiu pena da mulher. Sentiu pena da irmã morta da Sra. Oliveira e até da própria Sra. Oliveira. Até de Jorge. Percebeu que todos ali haviam sido enganados —pelos outros ou por si mesmos. Ela não queria ter nada a ver com eles ou com a vida de estranhos, mas por um instante percebeu como a bagunça da vida era estranhamente bonita.
Ela não estava numa comédia romântica, não como sonhara. Seu pai não era um autor, sua mãe não era sua melhor amiga e ela não tinha feito um único amigo em seis meses. Mas também não era um fracasso. Tinha um trabalho de que gostava mais ou menos; a mãe nem tinha brigado tanto assim; o pai era gentil e amoroso; e mesmo que a história de Jorge e Sra. Oliveira não tivesse acabado como ela imaginara, ela tinha tentado fazer o certo.
Matilda teve uma epifania: a vida nunca era tão boa nem tão ruim quanto ela pensava; estava ali, no meio, era normal, era apenas ok — e ok, na verdade, era maravilhoso.
Ela pegou as rosas agora murchas de Jorge, que Sra. Oliveira jogara na calçada.
“Sra. Oliveira,” disse ela, um pouco tímida, “posso ficar com elas?”
“Não me servem de nada”, disse Ms. Hughes, gesticulando de forma dramática. “Minha vida é só espinhos!” Matilda cheirou as rosas, mas por causa do frio e da poluição, seu nariz estava escorrendo e ela não sentiu nada. Sorriu. “Obrigada”, disse, e voltou para casa para tomar café da manhã com a mãe.















