Face a pandemia, COVID-19 que assolou o mundo inteiro, o governo em geral foi se redobrado na criação de estratégias de modo a conter a propagação rápida da COVID-19. Moçambique não sendo uma ilha isolada, veio a declarar estado de emergência ao nível nacional, no dia 21 de Março de 2020. Dentre as medidas anunciadas pelo Chefe do Estado, consta a suspensão de aulas em todos os estabelecimentos de ensino, públicos e privados, desde o ensino pré-escolar até ao superior, e ainda a redução de número de pessoas nos eventos de carácter social, salvo actividades de interesse estritamente público e uso obrigatório de máscaras nos aglomerados e higienização das mãos.

Como destaca a Revista moçambicana de Psicologia e Educação, (2020):

Moçambique, tal como os outros países, como forma de travar o crescente alastramento da doença teve tomar medidas drásticas, entre as quais a limitação de direitos fundamentais dos cidadãos, mormente a restrição de seus movimentos, a suspensão das aulas em todo o sistema nacional de educação, a instauração de serviços mínimos em instituições públicas e privadas, a interdição de aglomerações em eventos religiosos, de entre entendimento, entre outros (p.6).

Perante a medida de encerramento das aulas, o Ministério de Ciências e Tecnologia e Ensino Profissional e Educação e Desenvolvimento Humano, foram desafiados a criar estratégias, de modo a garantir a continuidade das aulas através de outros mecanismos/plataformas virtuais a que chamamos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA). Dentre eles, destaca-se: Google meet, Zoom, Google class, whatsaapp, skype, telescola, rádios comunitários entre outros. Tendo-se notabilizado massificação da utilização dos Ambientes Virtuais de aprendizagem em Moçambique no âmbito da pandemia COVID-19.

No entanto, a escola deve desde o ensino primário preparar os cidadãos de forma a promover futuros profissionais competitivos e competentes. O aluno/estudante deve ter ao seu dispor um conjunto de ferramentas, as mais actualizadas possíveis, que lhe permitam acompanhar as exigências socialmente e cientificamente impostas, Akker (1999). Infelizmente, uma boa parte instituições de ensino, no contexto moçambicano, foram encontrados em contra pé ou seja, de surpresa. Sem meios informáticos (salas de informática equipas, docentes de TICs qualificados, internet…..), este fenómeno, não foi apenas notório nas instituições de ensino, também nas organizações do estado e demais.

Constitui o objectivo central deste trabalho, analisar de forma crítica, o processo de massificação da utilização dos Ambientes Virtuais de aprendizagem (AVA) em Moçambique no âmbito da pandemia COVID-19. Não obstante a implementação emergencial e a consequente massificação do uso dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) em Moçambique, no contexto da pandemia da COVID-19, persistem evidentes desigualdades no que respeita ao acesso às Tecnologias de Informação e Comunicação, à conectividade, à disponibilidade de dispositivos electrónicos e às competências digitais de estudantes e professores. Apesar dos esforços do Governo e das instituições de ensino para garantir a continuidade do processo educativo através de plataformas virtuais, uma parte significativa da população estudantil encontrou-se limitada ou completamente excluída desta modalidade de ensino, sobretudo nas zonas rurais e em contextos socioeconomicamente desfavorecidos.

Deste modo, coloca-se a seguinte questão-problema: em que medida a massificação da utilização dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem em Moçambique, no âmbito da pandemia da COVID-19, contribuiu para a melhoria ou para o agravamento das desigualdades no acesso à educação e no rendimento académico dos estudantes? E que impacto gerou volvidos 5 anos?

Em termos metodológicos, recorreu-se ao método de consulta bibliográfica (artigos, mídia entre outras) e experiências profissionais enquanto actor activo do processo de ensino aprendizagem em tempos de COVID-19.

Conceitos básicos: aprendizagem

O termo aprendizagem deriva do latim apprehendere, que significa adquirir o conhecimento de uma arte, ofício ou através do estudo ou da experiência.

Para Fischer, 1989, citado por Inácio (2007, p.1), conceitua "aprendizagem como mudança durável, no conhecimento ou no comportamento, resultante do treino, experiência ou estudo, ou o processo que ocasiona tal mudança".

TICs (Ambientes virtuais)

O termo Tecnologias de Informação e Comunicação tem vindo a ser utilizado para representar a fusão entre a informática, telecomunicações e diferentes médias electrónicos, (Amante, 2004).

O objectivo das TICs é promover a cultura e a formação essencial ao desenvolvimento da sociedade da informação e propor uma visão estratégica. As Tecnologias de Informação Comunicação, nomeadamente, a Internet têm vindo a ser integradas na actividade humana, mas este processo não é neutro nem homogéneo, no sentido em que não chega a todos os lugares nem a todas as pessoas da mesma forma, nem com os mesmos propósitos. Se a chegada da Era Digital permitiu e impulsionou maior agilidade e velocidade na comunicação, o campo educacional deve avançar com mecanismos que permitam que o seu público, alvo tenha capacidades cognitivas para acompanhar esta realidade, como realça Álvaro (2004).

Pandemia COVID-19

A pandemia de Covid-19 é uma doença respiratória aguda causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2). A doença foi identificada pela primeira vez em Wuhan, na província de Hubei, República Popular da China, a 1 de Dezembro de 2019, mas o primeiro caso foi reportado a 31 de Dezembro do mesmo ano. Acredita-se que o vírus tenha uma origem zoonótica, porque os primeiros casos confirmados tinham principalmente ligações ao Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Wuhan, que também vendia animais vivos, (OMS, 2020).

As vantagens e desvantagens do uso dos ambientes virtuais de aprendizagem

É importante frisar que o aluno/estudante pode estudar onde e quando quiser. Ademais, os recursos tecnológicos disponíveis fornecem mais opções para o conteúdo online. Então, proporcionando maior engajamento. Ademais, uma plataforma digital educacional também simplifica o processo de ensino e aprendizagem.

Aliás, no caso de uma universidade corporativa, essa personalização auxilia o controlo por parte dos gestores. Afinal, um estudante pode precisar de conteúdos diferenciados em relação ao outro, por exemplo. Então, é possível criar diferentes jornadas de aprendizagem. Dito isso, podemos destacar algumas outras vantagens que se destacam segundo Akker (1999):

  • Optimização de recursos;

  • Redução de custos com tecnologia e ferramentas;

  • Plataforma altamente personalizável;

  • Sincronia de recursos de conteúdo com vídeo, como slides;

  • Possibilidade de agendar aulas e realizar transmissões ao vivo;

  • Armazenamento ilimitado de arquivos;

  • Formatos de conteúdos estruturados com base no estudante.

Algumas das desvantagens seriam:

  • Problemas técnicos;

  • Má qualidade de Internet (gerando lentidão no sistema);

  • Dificuldades no manuseio das tecnologias;

  • Falta de recursos como megabytes, celulares, tabletes e computadores por parte dos estudantes;

  • O atendimento aos alunos nem sempre ocorre de forma sincrónica como no ensino presencial;

  • O tempo para a leitura e realização de tarefas pode ser curto por várias razões.

Acesso às TIC/ambientes virtuais em Moçambique e seu impacto no rendimento académico em tempos de Covid-19

Segundo Censo Populacional de 2017 (cf. Pagina do Instituto Nacional de Estatística (INE), “dos 30 milhões da população moçambicana, um número reduzido de cidadãos, moram nas zonas urbanas e se beneficiam de conhecimento das ferramentas informáticas e da Internet”.

Contudo, sabe-se que actualmente o domínio dessas mesmas ferramentas, constitui um factor preponderante no processo de ensino e aprendizagem em tempos de Covid-19. Por isso, o Governo de Moçambique tem envidado esforços no sentido de aumentar o número de indivíduos com acesso as TICs nas cidades como nas zonas rurais.

Os moçambicanos que têm acesso ao telemóvel, em 2007, rondavam nos 24% e em 26,4% em 2017, mas têm uma das piores taxas de acesso a internet do mundo, um total 2,1% em 2007 e 6,6% em 2017. Os homens têm mais acesso a internet em relação as mulheres, sendo 2,1% e 2,2% em 2007 e em 2017, os homem com 8,1 % e 5,3% para as mulheres. A tabela abaixo apresenta de forma mais detalhada o resumo dos dados do censo 2017 comparativamente a 2007.

Segundo Damasio, citado por Akker (1992), Os usos das TIC’s em contextos educativos “abarcam um vasto conjunto de áreas, desde o simples uso do computador ou de um vídeo como suplemento expositivo, até ao uso de tecnologias colaborativas para aumentar os índices de colaboração e participação de estudantes, em espaços separados”.

As instituições de ensino devem desde o ensino primário, preparar os cidadãos de forma a promover futuros profissionais competitivos e competentes. O aluno deve ter ao seu dispor um conjunto de ferramentas, as mais actualizadas possíveis, que lhe permitam acompanhar as exigências socialmente impostas, Akker (1999). Todavia, os professores e encarregados de educação têm um papel de destaque na preparação dos alunos para lidarem com a quantidade de informação que lhes chega. As TIC devem ser exploradas de forma organizada, retirando o melhor partido das ferramentas que nos podem fornecer para a preparação do aluno a nível académico e profissional. Porém, esta integração das TIC por si só não garante eficácia pedagógica total, Albion (2007).

As tecnologias não substituem as actuais pedagogias educativas, mas transformam o actual quotidiano do ensino. Os professores são novamente a chave para que esta adaptação seja um sucesso. Outro sim, os professores são insubstituíveis a todos níveis, servindo de parteiras/facilitadores do processo de ensino e aprendizagem. Ou seja, eles devem ser os primeiros a terem domínio dos ambientes virtuais de aprendizagem. Infelizmente, durante a pandemia de COVID-19, as dificuldades perante o acesso aos ambientes virtuais de aprendizagem eram notórias não só nos estudantes mas também, nos professores e nos gestores em geral.

As dificuldades acima perante o acesso as TICs, revelam uma grande fragilidade no processo de ensino e aprendizagem no contexto moçambicano. Não se pode falar de bom rendimento académico, enquanto quase 13,4% da população moçambicana tem acesso a internet, por vezes, uma internet sem qualidade ou seja, muito lenta, o que dificulta drasticamente o acesso as aulas online.

Moçambique e os caminhos a trilhar perante a massificação do uso dos ambientes virtuais de aprendizagem

É importante salientar, relativamente às TIC em Moçambique, e considerando tudo o que foi e está sendo feito pelo governo ao nível das telecomunicações, que se verifica actualmente o benefício crescente das comunidades locais das diferentes regiões de Moçambique, contribuindo para uma melhoria da sua qualidade de vida, através:

(i) Da inclusão digital, onde, diferentes comunidades que mesmo encontrando-se em zonas remotas, passam a interagir com outras, potenciando a sua socialização. Pelo uso do telefone celular, correio electrónico e Internet, comunicam com os seus pares, amigos e desenvolvem novas relações.

(ii) Da partilha de conhecimento, onde podemos assistir os cidadãos de diferentes locais a nível nacional, a desenvolverem competências, habilidades e experiências diversas. Pelo uso do telefone celular, computador, CD-ROM, Internet, correio electrónico e rádios comunitárias, as comunidades, trocam entre si, experiências acumuladas e habilidades desenvolvidas sobre como executar determinadas actividades.

Estes dados mostram que começam a ampliar-se as condições de implementação de um Ensino a Distância que aparece a desempenhar um papel fundamental através das TICs no acesso à educação em todo o mundo em geral e Moçambique em particular (RDHM, 2008).

Apesar desses ganhos por parte do governo moçambicano bem como das instituições públicas e privadas, ainda temos enormes caminhos a trilhar para um bom uso dos ambientes virtuais de aprendizagem. Dentre vários desafios, pode-se destacar:

  • Infra-estruturas escolares com equipamentos de informática: a construção de infra-estruturas condignas com acesso a TICs, constitui um grande desafio para Moçambique;

  • Recursos humanos qualificados: não basta apenas ter infrastruturas com acesso a TICs, é necessário formação e capacitação de recursos humanos, capazes de usar e facilitar aos demais;

  • Melhoria da qualidade de internet: as telefonias móveis junto governam, têm um grande de solidificar a internet, de modo a garantir maior qualidade;

  • Criação de pacotes de internet acessíveis aos estudantes de renda baixa: pode-se arriscar em afirmar que perante a massificação dos ambientes virtuais durante a pandemia, os estudantes de renda baixa, saíram prejudicados consideravelmente, se comparado com estudantes de renda média. É necessário que mecanismos sejam accionados para reduzir as desigualdades perante o acesso as TICs em Moçambique;

  • Introdução da disciplina de TICs desde ensino primário: como dizíamos na introdução, Moçambique assim como outros países do mundo, foram encontrados em contra pé, face a pandemia de COVID-19. O processo de ensino e aprendizagem, parou no tempo devido ao fraco acesso as TICs. Uma boa parte dos alunos que concluem o ensino geral, não tem domínio das TICs, alias, ate os que concluem o grau de licenciatura. Porem, torna necessário, um investimento claro, na área das TICs desde o ensino primário.

Conclusão

A pandemia da COVID-19, não só trouxe prejuízos alarmantes ao mundo e em particular a Moçambique, mas também criou reformas ao nível das instituições de ensino e demais. Uma dessas reformas, foi a massificação do uso de ambientes virtuais de aprendizagem. Como forma de garantir a ocorrência plena das aulas. E constituiu objectivo central deste ensaio, analisar de forma crítica a massificação do uso dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA). Porém, os AVA antes da pandemia, elas eram usadas nos regimes a distância (EAD) apenas, mas com o surgimento da pandemia, tornarão úteis também, para regime presencial.

Infelizmente, o mundo e em particular Moçambique, foi encontrado de surpresa aliás, em contra pé. Numa altura em que apenas 13.4% da população tem acesso a internet, 8,9% tem acesso a computador e 53,2% tem acesso a telemóveis, meios indispensáveis para o uso dos ambientes virtuais de aprendizagem. Em contra pé, pois apenas 22% da população tem acesso corrente eléctrica, esses dados, podem reconduzir-nos a concluir que temos inúmeros estudantes sem acesso a internet, a computador e corrente eléctrica nas suas residências. Perante essas desigualdades ao acesso a esses serviços básicos, comprometem drasticamente o processo de ensino e aprendizagem usando AVA.

A nossa análise, desagua nas competências dos estudantes, professores e demais funcionários perante o uso das TICs. A falta de recursos como computadores nas escolas secundárias, institutos bem como nas instituições de superior, vai dificultar o uso pleno dos AVA. Dai que são levantados, vários caminhos a trilhar, como forma de reduzir as desigualdades no uso dos AVA: Infra-estruturas escolares com equipamentos de informática, Recursos humanos qualificados, Melhoria da qualidade de internet, Criação de pacotes de internet acessíveis aos estudantes de renda baixa e Introdução da disciplina de TICs desde ensino primário.

No entanto, volvidos cinco anos desde a introdução em larga escala dos Ambientes Virtuais de Aprendizagem em resposta à pandemia da COVID-19, constata-se que o seu impacto na qualidade do ensino em Moçambique foi ambivalente. Embora tenha impulsionado a modernização de algumas práticas pedagógicas e promovido avanços pontuais na integração das tecnologias digitais, este processo também evidenciou e aprofundou as desigualdades estruturais existentes no sistema educativo, comprometendo o princípio de equidade e limitando os benefícios a uma minoria com melhores condições de acesso. Assim, a promessa de uma educação mais acessível e inovadora através dos AVA permanece, em grande medida, condicionada pela persistência de barreiras socioeconómicas, tecnológicas e institucionais.

Referência bibliográfica

Akker, J. (1999). Principles and methods of development research. In Jan van den Akker et al. (Eds.). Design approaches and tools in education and Training. Dordrecht: Kluver Academic Publishers.
Albion, P & Maddux, C. (2007). Networked Knowledge: Challenges for Teacher Education. Journal of Technology and Teacher Education.
Álvaro, A. T. S. (2004). Ensinar e Aprender com as Tecnologias. Instituto de Educação e Psicologia. Universidade do Minho.
Amante, L. (2004). Explorando as novas tecnologias em contexto de educação pré-escolar: a actividade escrita. Análise Psicológica, 1.
Inácio, M. (2007). Manual do Formando “O Processo de Aprendizagem”. Modulo A2. Delta Consultores. Lisboa. Instituto Nacional de Estatística (INE), 2017.
Organização Mundial de Saúde (OMS), 2020.
Revista moçambicana de Psicologia e Educação – PSIEDU. Em tempos de pandemia da COVID-19: Desafios para a Educação e para Psicologia. Vol.1, nr1. 2020.
RDHM. (2008). National Human Development Report. Palgrave Macmillan. NY.