No ambiente familiar, social ou profissional — seja qual for o ambiente — a influência cultural está presente. Você já parou para pensar que, ao iniciar um novo emprego e conhecer um colega de trabalho, você pode adquirir características dele? Entretanto, isso não ocorre quando há intencionalidade na percepção do ambiente.
Quando está disposto a perceber costumes, jeitos, comportamentos e habilidades, você se coloca em alerta sobre o que lhe é permitido aceitar do outro. Frequentemente, isso é mais perceptível em bebês. Por não terem onde “consumir” informações por vontade própria, é possível notar expressões novas, como repetições de padrões no convívio social.
O psicólogo estadunidense Jonh B. Watson, considerado o fundador do comportamentalismo, diz:
Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem constituídas e a espécie de mundo que preciso para educá-las, e eu garanto que, tomando qualquer uma delas, ao acaso, prepará-la-eí para se tornar um especialista que eu selecione: um médico, um comerciante, um advogado e, sim, até um pedinte ou ladrão, independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, aptidões, assim como da profissão e da raça dos seus antepassados.
É incrível como Watson consegue descrever a importância do ambiente e da influência nessa citação, em que ele destaca a criança. Ao ousar um pouco, com base nessa menção, lhe pergunto: hoje, sendo responsável por suas escolhas, quais influências culturais você permite que lhe acessem e moldem?
Somos um pouco de cada livro que lemos, de cada conversa que partilhamos, ou até mesmo de cada mesa em que nos sentamos. No final de tudo, somos um pouco de cada experiência que nos permitimos absorver. Cabe-nos refletir e questionar: de onde vem esse meu hábito? Por que tenho tais repetições de padrões de comportamento? Será mesmo que não sei falar em baixo tom ou me expresso dessa forma por causa dos meus convívios?
A arte de perguntar-se sobre quem se é e quem está disposto a tornar-se nos leva a conhecermos melhor a nós mesmos e ao outro.
A arquitetura do comportamento: o ambiente como engenheiro
A provocativa citação de John B. Watson não é apenas um exercício retórico; é o pilar central do Behaviorismo. A ideia fundamental desta escola de pensamento é que o comportamento humano é predominantemente uma resposta aprendida aos estímulos do ambiente. Watson propõe que, ao controlar o "mundo" de uma criança, seria possível moldá-la em qualquer tipo de especialista.
Este conceito desafia diretamente a noção de que talentos inatos ou predisposições genéticas sejam os fatores determinantes na formação da identidade. Para o behaviorista, o indivíduo é uma tabula rasa, uma "folha em branco" em que as experiências gravam os padrões de comportamento. A influência cultural, portanto, não é um fator vago; é o conjunto de estímulos diretos que condiciona nossas ações, gostos e repulsas.
O exemplo mais elementar desse condicionamento ocorre no ambiente familiar. A criança, observando e interagindo, aprende quais comportamentos geram reforço positivo — como um elogio, um sorriso ou mais atenção — e quais levam a uma consequência neutra ou negativa.
Um bebê não "nasce" sabendo pedir "por favor"; ele aprende o valor dessa expressão quando o ambiente (pais ou cuidadores) responde positivamente a ela. O ambiente familiar funciona, assim, como o primeiro laboratório social, moldando as reações iniciais da criança ao mundo.
Essa moldagem inicial cria as fundações do que, mais tarde, chamaremos de "personalidade" ou "hábito". A forma como uma família lida com o conflito, por exemplo, se com diálogo aberto ou com o silêncio, torna-se um roteiro comportamental que a criança absorve como normalidade.
O mimetismo profissional: a cultura organizacional como molde
Essa engenharia comportamental não cessa na infância. Ao transpor essa lógica para o ambiente profissional, o mesmo princípio se aplica, embora de forma mais complexa. O "reforço positivo" deixa de ser apenas o afeto dos pais e passa a ser a aceitação social, a progressão na carreira ou a integração na equipe. Quando um novo funcionário ingressa em uma empresa, ele inicia um processo intenso de mimetismo (imitação) para se adaptar ao que a sociologia chama de "cultura organizacional".
Um dos exemplos mais claros é o vocabulário. Em uma corporação multinacional, o uso de jargões, de siglas em inglês ou de um tom de comunicação específico não é ensinado em um manual. O funcionário aprende por osmose. Se ele usa um regionalismo e é recebido com olhares confusos (uma leve punição social), ele rapidamente ajusta seu comportamento para adotar o léxico que promove eficiência e aceitação.
Esse aprendizado vai além das palavras. Ele dita comportamentos não escritos: a que horas as pessoas realmente almoçam; se os problemas são resolvidos por e-mail formal ou por mensagens instantâneas; se a pontualidade é rígida ou flexível.
O ambiente profissional, portanto, "molda" o indivíduo para que ele se torne o tipo de especialista que aquela cultura específica valoriza, confirmando a tese de Watson em um contexto adulto. A não adaptação, ou seja, a resistência a essa influência, frequentemente resulta em isolamento ou na classificação do indivíduo como "não alinhado" à cultura.
A consciência crítica: o indivíduo como curador
Se a teoria de Watson estivesse inteiramente correta, seríamos apenas autômatos, produtos passivos da soma de nossos ambientes. No entanto, o próprio questionamento que abre este artigo sugere a existência de um mecanismo de escape: a intencionalidade.
O ser humano adulto, diferentemente do bebê, possui a capacidade de metacognição — a habilidade de "pensar sobre o próprio pensamento". É aqui que a influência cultural encontra sua fronteira.
Enquanto o Behaviorismo foca no comportamento observável, ele subestima a capacidade humana de introspecção. Podemos ser moldados pelo convívio, mas também podemos parar e analisar esse molde. Podemos nos perguntar: "Estou agindo assim porque realmente acredito nisso ou porque é o que se espera de mim neste grupo?"
Essa é a "arte de perguntar-se" mencionada na introdução. Quando questionamos "de onde vem esse meu hábito?", estamos ativando um filtro crítico. Estamos nos posicionando não como a argila, mas como o escultor.
Essa curadoria de si mesmo é um processo ativo. Exige que o indivíduo identifique as influências que recebe — da família, do trabalho, da mídia — e decida conscientemente quais delas merecem ser internalizadas e quais devem ser descartadas. É a diferença entre ser "moldado" e "escolher a forma".
A identidade como escolha
A tese de Watson sobre o poder absoluto do ambiente é uma ferramenta vital para entendermos como nossos hábitos e padrões se formam, especialmente na infância. De fato, somos um pouco de cada livro que lemos e de cada mesa em que nos sentamos. Nossos ambientes familiares e profissionais fornecem os roteiros iniciais para nossas ações.
Contudo, a jornada humana não termina na mera recepção desses roteiros. A maturidade se define pela capacidade de revisar o que nos foi escrito, de questionar repetições de padrões e de entender por que nos expressamos de determinada forma.
A influência cultural é generalizada, mas não é determinante. O indivíduo que se permite "refletir e questionar" deixa de ser apenas um produto do meio e torna-se um agente ativo na construção da própria subjetividade, escolhendo quais influências terão permissão para, de fato, defini-lo.















