A queda da leitura profunda, combinada ao uso excessivo de telas, está corroendo a cognição, a atenção e a sabedoria em adultos.
Desde o início da pandemia, muitas rotinas foram forçadas a migrar para o digital. Reuniões, cursos, lazer, até mesmo a leitura pessoal, tudo foi empurrado para a tela. Mas o que pouco se fala é sobre as consequências silenciosas desse deslocamento: para adultos, a diminuição da leitura contemplativa e o aumento do uso de telas estão produzindo efeitos profundos na mente, no corpo e no caráter.
Uma imagem me persegue: uma sala de estar ao fim do dia. O adulto cansado, olhos fixos no celular ou no tablet, talvez trocando de aplicativo, talvez assistindo a vídeos curtos, talvez rolando feed após feed. E, ao lado, o livro guardado sobre a mesa, esquecido. O momento de pausa, de atenção plena, de mergulho num pensamento mais denso e longo, abandonado. O que perdemos ali, além de páginas viradas?
A queda da leitura profunda
Estudos recentes indicam que o tempo dedicado à leitura de prazer caiu drasticamente entre adultos. Um relatório da National Endowment for the Arts mostrou que, entre 2003 e 2023, a proporção de pessoas que liam por lazer num dia típico caiu de 28% para 16% aproximadamente.
Menos leitura não significa apenas “menos livros lidos”. Significa menos atenção sustentada, menos contato com ideias complexas, menos exercício da mente que pensa devagar. E é justamente esse tipo de leitura que cultiva reflexão, pensamento crítico, imaginação.
A leitura profunda é o oposto do consumo fragmentado. Ela exige tempo, exige silêncio, exige presença. Por isso mesmo, é cada vez mais rara e mais valiosa.
O excesso de tela e a mente em modo raso
A literatura científica demonstra que o uso excessivo de telas em adultos não é inocente. Em estudo conduzido pela Stanford University, foi observado o “afinamento do córtex cerebral” em adultos jovens com elevado uso de telas, a camada responsável por funções como memória, tomada de decisão e resolução de problemas.
Outra revisão, publicada pela plataforma PMC, identificou que o tempo prolongado de tela está ligado a problemas físicos (como fadiga visual, dores musculares) e a impactos mentais: ansiedade, pior sono, pior função cognitiva.
Um estudo do Pew Research Center também revelou que cerca de 64% dos adultos relatam sentir-se sobrecarregados pelas notificações e estímulos digitais. Isso afeta diretamente a capacidade de concentração e, por consequência, a profundidade da experiência de vida cotidiana.
A combinação, menos leitura profunda + mais consumo de tela, cria um ambiente mental onde predominam dispersão, superficialidade e resposta rápida. Raramente pensamento profundo.
A atenção como moeda de valor
Quando lemos um livro, físico ou digital, exigimos menos distração, mais unidade de atenção. O tempo se comprime; a mente se firma.
Em contrapartida, as telas (smartphones, redes sociais, streaming) operam justamente para fragmentar: vídeos curtos, notificações constantes e efeito de ruído permanente.
Estudos sobre “media multitasking” mostram que pessoas que alternam frequentemente entre mídias têm pior desempenho em tarefas de memorização e foco. Ou seja: não é apenas o quanto de tempo que usamos; é como usamos.
Em um artigo da Harvard Business Review, especialistas alertam: “A qualidade da atenção está em declínio, e isso tem consequências diretas para a produtividade, saúde mental e desenvolvimento intelectual.”
Para além da cognição: significado e maturidade
Ler livros densos, refletir sobre ideias, debater internamente, tudo isso não é apenas treino mental. É treino existencial. Quando adultos abandonam essa prática, há uma vulnerabilidade que emerge: a incapacidade de tolerar o silêncio, de sustentar uma ideia por mais tempo, de separar-se momentaneamente do estímulo constante.
A tecnologia, nesse sentido, não é neutra: ela frequentemente preenche os espaços que antes eram ocupados pela leitura, pelo pensamento lento.
Sem o hábito da leitura, a maturidade intelectual é prejudicada. Perdemos a capacidade de elaborar, de dialogar com visões diferentes, de questionar as próprias crenças com profundidade. Ganhamos agilidade, mas perdemos profundidade.
Qual é o custo para a vida profissional e para a aprendizagem contínua?
Para quem valoriza evolução, leitura é um dos ativos mais estratégicos. Porém, se a maior parte do tempo pós-trabalho é dedicada a telas, pouca sobra para livros, para estudo estruturado, para pensamento dedicado.
Diversos estudos sugerem que tempo de tela elevado está ligado a pior desempenho cognitivo, o que por consequência pode reduzir a capacidade de aprendizagem ao longo da vida. Em um mundo em constante transformação, o adulto que não lê se torna intelectualmente obsoleto.
Além disso, líderes que leem tomam melhores decisões. Um levantamento da McKinsey mostra que executivos com o hábito de leitura constante são mais capazes de antecipar tendências, desenvolver pensamento crítico e inspirar equipes com narrativas mais poderosas.
O hábito da leitura como antídoto
Ao contrário de alguns efeitos da tecnologia, o hábito de ler pode ser retomado. E ele é transformador. Dedicar-se à leitura regular , mesmo que 20 a 30 minutos por dia, cria forças como concentração, pensamento crítico, empatia. E ainda: pode agir como contraponto à hegemonia das telas.
Criar “zonas de leitura”, sem notificações, sem rolamento, significa reconquistar parte da atenção que foi sequestrada. A literatura sugere que deslocar parte do tempo de tela para leitura leva à melhor qualidade de sono, menor estresse e maior clareza mental.
Autores como Cal Newport (“Deep Work”) defendem que a leitura profunda é um dos poucos caminhos restantes para entrar em estados reais de fluxo criativo, tão necessários para profissionais que vivem de ideias e decisões.
Um convite à prática consciente
Se você parar agora, feche esta tela por um momento e pense: quantas horas dos últimos sete dias você passou de fato lendo algo que exige calma e pensar?
E quantas horas você dedicou a rolar feeds, ver vídeos curtos, alternar apps?
A diferença entre esses dois números pode estar diretamente ligada à sua próxima ideia original, ao seu próximo insight, ao próximo salto de competência.
Comece pequeno: 15 minutos por dia. Livre-se da sensação de que “não tenho tempo para ler”. Você tem tempo, o que falta é delimitar a rotina.
Crie rituais. Leve um livro para fora de casa. Leia durante esperas. Troque 10 minutos de rede social por 10 páginas. A longo prazo, isso muda seu padrão de pensamento e sua forma de ver o mundo.
O futuro do adulto que lê e do adulto que apenas vê
Imagine dois futuros.
Um adulto que preserva o hábito de leitura: ele mente menos, opina com mais firmeza, aprende com mais rapidez, comunica com mais impacto e sustenta mais presença em ambientes profissionais e pessoais.
Agora imagine o adulto que apenas se consome por telas: ele estará mais sujeito à distração, à superficialidade, à repetição de padrões prontos, à fragmentação de atenção.
O mundo vai demandar cada vez mais pessoas capazes de saber mais do que achar. E saber vem de leitura, de diálogo interno, de constância. Se você escolher o primeiro caminho, o investimento vale muito mais do que tempo: vale capacidade de evolução.
A falta de leitura profunda associada ao uso excessivo de telas entre adultos não é apenas uma questão de lazer perdido. É um problema de cognição, de autonomia, de qualidade de vida e de espírito.
Os estudos mostram que nossas mentes, e corpos, reagirão não só ao que vimos, mas ao que deixamos de sustentar.
Não se trata de demonizar nenhum dispositivo ou vilanizar o streaming. Trata-se de recuperar a intenção, de restabelecer o equilíbrio.
Porque leitura é tempo de presença. E não há presença sem qualidade de atenção.
E a atenção hoje pode ser o recurso mais escasso, e mais estratégico, para quem quer crescer, aprender, evoluir.
Referências
National Endowment for the Arts: Reading Trends in the U.S.
PMC Study: Effects of Screen Time on Adult Health and Cognition.
Pew Research Center: Digital Media Use in Adults.
Stanford University: Screen Time and Cortical Health.
Harvard Business Review: Attention and Productivity.
McKinsey & Company: Reading Habits in Executive Performance.
Cal Newport: Deep Work.
Michigan State University: Digital Wellness Research.















