Às vezes ignoramos o poder do tédio! Esquecemos que ele, muitas vezes, é o responsável por nos impulsionar para algo novo, diferente. Pode ser completamente novo ou apenas diferente. Não importa! Ele nos provoca reflexões, vontades e, sobretudo mudanças, evoluções... revoluções! Talvez a raiva também nos impulsione para algo novo. Não a raiva irracional conduzida pela bílis, mas sim, a raiva criativa, conduzida pelo cérebro, aquela que é fruto da insatisfação, que gera a vontade de mudança, de criar alguma coisa nova. Imagina a raiva que o humano antigo tinha antes de inventar a roda! Transportar enormes pesos, sem nada para facilitar... Mas aterrissemos...
No ano passado, o tédio em fazer musculação na academia me fez refletir se conseguiria continuar. Se teria energia psíquica para seguir naquelas sessões intermináveis e entediantes de levantamento de pesos.
Diariamente seguia na rotina, por necessidade de preservar os músculos que vão se despedindo com a idade ou talvez por pura inércia em buscar uma outra atividade. Anos atrás tinha deixado a natação, meu esporte preferido desde criança, em função de uma rinite que se instalava todos os dias em que nadava. Pensava: e se voltasse para minha outra paixão, o Remo? Respondia: pouca oferta e logística complicada em Sampa.
Numa manhã, chegando para o suplício matinal, encontro um colega da academia que, até então, poucas vezes havíamos nos falado, o Marco. Por alguma razão engrenamos uma conversa maior nesse dia caminhando entre a garagem, o elevador e a entrada da academia. Perguntei como eram as aulas de luta que ele fazia, qual era o nome, se gostava etc. Ele me explicou que se chamava Muay Thai, que gostava muito e por fim me convidou para experimentar em algum momento. Dias depois, conversando no vestiário com outro colega da academia, o Marcos, que também fazia luta, volto a questionar como eram aquelas aulas. Mencionei que correr na esteira me ajudava a controlar o peso e desestressar e, então questionei, brincando, se bater e apanhar também serviam para este fim. Ele me garantiu que sim e, também, me convidou a experimentar.
Ah! É isto mesmo! Você não leu errado. Coincidentemente um se chama Marco e o outro Marcos! Mais engraçado ainda é que nos meus rolês aleatórios da juventude quando não queria explicar o meu nome numa roda de bêbados simplesmente dizia que era Marco ou Marcos. Risos! O Universo atrai ou conspira... vai saber... E a confusão que faz nos treinos para chamá-los... Marco todo o tempo é chamado de Marcos.
Nunca tinha feito nenhuma aula de luta e sempre me pareceu estranho esta coisa de “bater e apanhar”, apesar de vez ou outra assistir a alguma luta pela televisão. Mas o meu tédio na musculação e a curiosidade pela luta aumentavam na mesma intensidade. Faltava apenas a coragem de enfrentar aquela sala! Após algumas semanas, finalmente a curiosidade venceu o medo e entrei na sala. A aula já tinha começado, estavam na primeira parte que é o alongamento. Tentei me inserir sem muito alarde e, então o Marco e o Marcos falam quase simultaneamente algo do tipo “olha quem apareceu! resolveu aceitar o convite?” Para não haver dúvidas, esclareço que havia resolvido aceitar o convite de ambos.
Passado o alongamento e o aquecimento, Valter, o professor, me colocou para fazer movimentos técnicos no espelho. Me explicou o que era “jab” e “direto” e segui repetindo estes movimentos. Minutos depois chega um jovem na aula, David. Como ambos estavam em sua primeira aula, o professor resolve passar outros movimentos técnicos para fazermos juntos. Dessa vez chutes.
Explico ao David que nunca tinha lutado. Ele me respondeu que também nunca tinha feito Muay Thai, que antes fazia Judô. Dou risadas e explico novamente que nunca havia feito nenhuma luta. Não adiantou muito! O David dava potentes chutes no aparador de chute que seguramos com as mãos. O primeiro quase ricocheteou no meu rosto. O professor percebendo, me explicou o movimento que eu deveria fazer para evitar este ricochetear. Sobrevivi! Passei a praticar chutes no saco de pancadas ao final de todas as aulas para aperfeiçoar os movimentos e a potência dos meus chutes.
Tempos depois passei a brincar com o David que ele me batizou na minha primeira aula. A minha primeira lição foi ficar atento aos movimentos de defesa. Quando ele aparece na aula, costumamos dividir os treinos técnicos. Viramos meio parças nos treinos! Passou a me perguntar se o chute está muito forte e, às vezes, comenta que os meus melhoraram muito e que também estão fortes. Risos! Ainda não me movimento de forma perfeita para dar estes golpes, me falta uma virada mais exata do corpo, mas os treinos no saco de pancada me renderam chutes potentes com a perna esquerda, coisa rara para a maioria das pessoas destras.
Numa das primeiras aulas me dei conta no final do treino que havia perdido a minha aliança de casamento. Comecei a perguntar se alguém havia encontrado. Todos responderam que sim, que tinham encontrado dentro de uma luva aparadora de chutes, que tinham perguntado a quem pertencia e ninguém tinha respondido. O Wall me aconselhou a tirar a aliança antes dos treinos, pois além do risco de perder também poderia machucar os dedos. Sigo o seu conselho desde então.
Outro dia um colega passou mal e vomitou na cesta de lixo da sala de aula, também não percebi. Só descobri na resenha do final da aula. O Marcos então me perguntou em que mundo eu vivia. Inventou uma expressão que eu vivia no “Mundo do Heider”, pois não percebia nada que se passava na sala. Respondi que o treino me demandava um estado de atenção plena, pois precisava utilizar as mãos, os braços, as pernas, o corpo todo em movimentos de ataques e defesas. Assim, toda a minha concentração era em meus movimentos e em meu oponente.
É isto! O Muay Thai me demanda foco e energia plena! Corpo e mente em estado de alerta total! Alguns segundos, ou milésimos de segundos, tendo que me concentrar nos (ou escolher os) movimentos de ataque e outros segundos ou milésimos tendo que aplicar o movimento certo de defesa. Perco litros de água nestas aulas! Olha que bebo bastante água! Mas nos dias de Muay Thai só tenho vontade de voltar ao banheiro por volta das 11 horas tamanha é a minha perda de líquido. E a aula termina às 7:30! E a fome que dá? Nem comento!
Meu maior adversário quando comecei as aulas era a ansiedade. Como lidar com a ansiedade para aplicar os movimentos de ataque e defesa? Comentava com o Valter que o cérebro entendia perfeitamente o que devia ser feito, porém o corpo não obedecia. O corpo precisava ser educado, treinado naqueles novos movimentos. O que gerava frustração e ansiedade! Como convencer alguém que domina os movimentos da natação e não consegue dominar os movimentos do Muay Thai? Se convencendo que apenas o tempo e o treino são capazes de nos fazermos aproximar dos movimentos corretos! Atualmente já domino melhor esta ansiedade. Os movimentos da luta ainda estão longe da perfeição, mas são mais conscientes e bem menos ansiosos. Bom, depende do dia! Tem dias que alguma dor 50+ (tendinite, bursite, joelho, lombar etc.) está instalada e não há como controlar as falhas!
Às segundas e quartas são os treinos técnicos, mas as sextas-feiras... Ah! As sextas! Dia de sparring! Dois alunos se enfrentam em uma luta livre, porém num ambiente controlado pelo professor. Fugia todas as sextas, até o Valter me convencer que poderia ir e não precisaria participar do sparring, pois ele passaria treino técnico para eu fazer. Hum! Pouco a pouco foi me introduzindo no sparring e, me dizendo que o medo era normal e só passaria ou seria controlado a medida que eu participasse do sparring. Ele estava certo! Já me sinto mais confiante nestes dias, ainda com receio, porém menos aflito, exceto se aparece alguém diferente neste dia ou o João, um jovem de dezessete anos com muita sede de sparring.
Falando em João, um erro que cometia nas primeiras aulas me ajudou a enfrentá-lo um pouco melhor. No início não entendia o que era a “base”. Um colega me perguntava qual era a minha base e eu respondia “não sei” ou “tanto faz”. Um dia finalmente perguntei, de forma meio blasé, a razão dele me perguntar isto o tempo todo e qual era a importância desta base. Então me explicou que tinha a ver com a nossa força dominante, se destro ou canhoto. Aí entendi e acertei a minha base. Pois, o João é canhoto e eu sou destro. Isto me prejudicava ainda mais na luta. Então um dia, dividindo o sparring com ele, mudei a minha base e consegui me defender melhor. Quando o Valter viu, sorriu e disse “perfeito Heider! Gostei!”
O Marcos é o DJ da aula e costuma nos servir com raps e rocks (às vezes um pop). A Laura, professora atual, introduziu o Pagode baiano outro dia no treino de sparring. Ela disse que aprendeu com um amigo baiano e desde então adotou a música como a melhor opção para os dias de sparring. Ela tem uma certa razão! Quem já passou por uma experiência de enfrentar um bloco de Pagode baiano no contrafluxo do Carnaval em Salvador sabe muito bem o que é isto. Mas também entendo que o rap paulistano do Marcos é igualmente perfeito para os dias de sparring.
Outro dia no pré sparring consegui aplicar com perfeição um teep (chute de empurrão, frontal linear e para a frente), um direto e um cruzado no Marcos. Nem acreditei, pois ele já é um graduado e sempre me chama atenção por fazer movimentos repetitivos no sparring e me esclarece que isto dá previsibilidade ao oponente. O Wall presenciou toda a cena e se pipocou na risada. Na sequência dei um abraço de felicidade no Marcos pelo fato de tê-lo surpreendido. Afinal era a primeira vez que o acertava e fazendo tudo de forma perfeita (ou quase).
Um detalhe adicional é importante em minha descoberta do Muay Thai: há uma incrível harmonia e respeito entre os seus praticantes! Formamos uma tribo, com regras comportamentais que não estão escritas, mas sim implícitas durante os treinos e mesmo fora deles. Estamos atentos a questão de convivermos naquela comunidade, adotando regras e atitudes que são permeadas e aceitas por todos. Algumas delas orientada pelos mestres, outras como um pacto de convivência. Talvez seja uma característica dos esportes de luta em geral, pois sempre percebi algo semelhante no comportamento de primos que praticam Capoeira.
Se vou graduar? Competir para receber o meu primeiro kruang (faixa no braço com cores distintas que marca a evolução do lutador)? Ainda tenho dúvidas! Estou realizado e feliz em estar aprendendo as técnicas da luta. Aprendo e sou grato por cada pequena conquista nestas aulas, cada ensinamento, conselho e dica que os professores Valter e Laura me deram e dão. Sigo atento ao que o Marco, Marcos, Wall, Flávia, Hélio e Gui compartilham comigo. Se terei coragem ou necessidade de enfrentar estranhos para me graduar, realmente tenho dúvidas. O que me importa e me completa neste momento é que sim é... Muito bom fazer algo novo!















